Publicidade

Criaturas do pântano

  • em


O presidente da Rrepública, Jair Bolsonaro, na sua habitual falta de cuidado com as palavras, soltou a seguinte frase no último dia 07 de outubro: “É um orgulho, é uma satisfação que eu tenho, dizer a essa imprensa maravilhosa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato, por que não tem mais corrupção no governo”. A operação de combate à corrupção sediada a partir de Curitiba se constituiu em uma grande força tarefa, atuando a mais de seis anos, está quase na sua octogésima fase e se associou à imagem do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, apesar de que, tecnicamente, a operação era encabeçada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, mas não há uma só viva alma no mundo que acredite que o papel do ex-juiz era de um simples julgador e não de um influente protagonista dos feitos lavajatistas.

 

Acredito que Bolsonaro foi muito mais retórico do que ameaçador e tentou fazer piada com a situação, querendo passar a impressão de que a Lava Jato não teria mais objeto ou motivo para existir. Um raciocínio pra lá de questionável. Queiroz não nos deixa mentir. Óbvio que tais declarações foram levadas a sério por uma parte da população que as compreendeu de forma literal. Presidentes da república não tem muita margem pra brincadeiras com assuntos sérios, mas Bolsonaro, como disse um jornalista que o apoia: gosta de viver no jardim de infância. Fala o que vem à cabeça sem se preocupar com as repercussões políticas, econômicas, etc.  Sérgio Moro reagiu com força.  Se sentiu o destinatário da declaração, com certa razão. Bolsonaro tem deixado claro que o tempo do ex-juiz como referência contra a corrupção acabou.

 

Teve quem interpretasse que o presidente atuou mesmo para acabar com a Lava jato desde o início do seu governo quando trouxe para debaixo das suas asas, exatamente o Sérgio Moro, que aparentemente, picado pela mosca azul do poder, não se conteve e deixou a vaidade pessoal falar mais alto. Foi ali que a Lava Jato começou a se debilitar, exatamente por que passou a clara impressão de que tudo que o Moro fez na operação tinha objetivos políticos.

 

A saída do governo, por parte do ex-juiz, iniciou um capítulo que ainda não encerrou, lançando sobre o presidente a suspeita de que o mesmo queria controlar a polícia federal, no mal sentido, de acordo com Moro, buscando interferir nas operações e acabando com a autonomia da instituição e do ex-ministro, na montagem da sua equipe. A saída do ministério mostrou aos bolsonaristas o que os opositores já sabiam. Moro gosta de abusar do poder, pois ainda na condição de ministro, utilizou as próprias dependências do ministério para dar uma entrevista na qual acusou Bolsonaro. Deveria ter primeiro saído do governo para depois se manifestar. Foi antiético, soberbo e cuspiu no prato do bolsonarismo do qual se alimentou, buscando projeção política e mais poder.

 

Moro não pode alegar decepção na aliança que o levou ao Ministério. Não pode se queixar de Bolsonaro. O Presidente é o que sempre foi. O erro de Moro foi pensar em dominar alguém que nem o exército, com sua intrincada cadeia de comando conseguiu dominar. Bolsonaro objetivamente e subjetivamente acabou sim com a Lava Jato ao perceber que a mesma poderia se aproximar dele e dos seus. Moro está sendo derrotado e continua cometendo erros. Não percebeu que já é carta fora do baralho e ao responder ao presidente comparando-o a uma criatura do pântano deveria aprender a não misturar as coisas, pois ninguém sabe ao certo como reagirão as criaturas do pântano ao tomarem conhecimento de tal comparação.

  • Compartilhe