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Contém spoilers

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Uma das séries de TV mais interessantes dos últimos tempos é a britânica Black Mirror, disponível no Brasil na plataforma Netflix. Black Mirror é apresentada em episódios independentes, ou seja, não há uma sequência lógica ou temporal, permitindo assim que sejam assistidos em qualquer ordem. Cada episódio tem elencos e cenários próprios.

 

 

Criado pelo roteirista Charlie Brooker, Black Mirror aborda as novidades tecnológicas e suas influências na sociedade moderna. No futuro (ou já no presente?), redes sociais, realitys shows e gadgets impactam fortemente os laços sociais, sejam as relações de trabalho, sejam as familiares, de amizade ou mesmo românticas.

 

A cada episódio, a série formula críticas à sociedade ocidental moderna e à forma como nos relacionamos com a tecnologia.

 

Há episódios antológicos, que merecem ser vistos e debatidos, mesmo se você não quiser assistir à toda a produção. Um deles é logo o que abre a primeira temporada: em o “Hino Nacional”, um membro da família real britânica é sequestrado e o resgate exigido é que o primeiro ministro tenha relações sexuais com um porco, ao vivo na televisão! Com o tempo, a opinião pública passa a pressionar o político a ceder à chantagem para que a vítima seja libertada. Embora um tanto escatológico, o enredo pretende discutir o fascínio da sociedade com os realitys shows.

 

Também destaco “Toda a Sua História”, um episódio que nos toca no dia-a-dia, pois envolve o conflito entre tecnologia e privacidade. Na história, as pessoas instalam um equipamento no cérebro que grava tudo o que vem e ouvem. Como se fosse um HD externo. Qual o papel da memória – e do esquecimento – nas relações humanas? Como os relacionamentos se sustentam sem os mais íntimos segredos?

 

Mas pretendo me ater a um episódio em particular: “Black Museum”, o sexto da quarta temporada, escrito pelo próprio Charlie Brooker.

 

O episódio apresenta três histórias independentes, mas com um tema em comum – neurotecnologia. Trata de “cookies” (cópias digitais de seres humanos), codificação total do cérebro, download e upload de consciências.

 

Na primeira história, um médico consegue sentir as dores e o sofrimento de seus pacientes, através de um equipamento instalado em seu cérebro. Isso permite que ele acerte, com precisão, os diagnósticos e salve vidas. Contudo, o médico fica viciado na dor, passa a ter prazer sexual em sentir dor.

 

Essa história é baseada no conto “Pain Addict”, de Penn Jillete, ilusionista e humorista norte-americano. O médico passa a se sentir Deus, onisciente e onipotente. Domina a dor e o prazer.

 

Na segunda história, a consciência de uma mulher em coma é transferida para a mente de seu marido. A mulher consegue compartilhar as sensações de seu marido, como o aconchego do abraço do filho. Mas é possível imaginar o caos que isso provoca quando o homem começa a se relacionar com a vizinha. A solução encontrada é transferir a consciência da mulher para um macaco de pelúcia!

 

Na terceira parte, um homem é condenado à morte, mas antes sua consciência é transferida para um computador e digitalizada em forma de holograma, o qual fica exposto no museu, em uma cela. A consciência revive (sente) a morte na cadeira elétrica a cada vez que o visitante aciona a máquina. A pena de morte se transforma em prisão e tortura perpétuas para a consciência.

 

As três histórias fomentam discussões a respeito do avanço da tecnologia e sua interação com questões éticas. Mais especificamente com a dignidade da pessoa humana.

 

Além do direito à vida e do direito à uma vida digna, existiria um direito à morte no tempo certo? Ou um direito à morte no tempo e na forma escolhidos pelo indivíduo? Em palavras: além do direito a uma vida digna, há um direito à uma morte digna?

 

Será aceitável dispor da consciência de alguém em coma, se fosse (ou quando for) possível transferir essa consciência? E seria ético descartar posteriormente essa consciência?

 

A partir desse episódio e de praticamente todos da série Black Mirror, é possível refletir e debater temas caros não somente à ética, mas à medicina, às religiões e ao direito, como o prolongamento artificial da vida, a antecipação da morte, a eutanásia, a ortotanásia e a distanásia; o direito à intimidade, à privacidade e ao esquecimento. Também temas como a pena de morte, a tortura, as penas de caráter perpétuo e a personalidade digital. A arte não apenas imita a vida, mas também a antecipa.

 

ivo.hohn@gmail.com

 

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