Consciência é um termo de muitas dimensões. Podemos distinguir a consciência moral, a consciência do corpo, a consciência histórica, a consciência política, ambiental, religiosa e ainda outras dimensões. Trataremos da consciência como elemento formador e integrante da cidadania e, nesta acepção, a consciência também se insere na Questão Nacional.

 

 

A consciência, assim compreendida, vive o passado, o presente e o futuro, mas não é atemporal; ela tem a compreensão do que ocorre, qual sua origem e procura orientar o futuro. A consciência, pois, projeta-se temporalmente, planejando o porvir com base na memória e na ação presente.

 

 

A consciência na cidadania inclui elementos cognitivos (onde não faltam as emoções), instintivos, valores sociais e individuais, experiências e ações. Na construção da cidadania, a consciência é um saber crítico, em consonância com a sociedade e seu tempo, onde estão presentes os ambientes físico e cultural.

 

 

Consciência é também a plataforma de onde se vê o mundo, como afirmou o geógrafo e intérprete do Brasil, Milton Santos, “o papel do lugar é determinante”, é “um espaço vivido de experiência sempre renovada, o que permite a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro” (Milton Santos, Por uma outra globalização, Editora Record, RJ e SP, 2017, 27ª edição).

 

 

E a consciência também tem a força da filosofia, do pensamento abrangente sobre o qual Milton Santos, na mesma obra, reflete: “Dos mesmos materiais existentes, tanto é possível continuar a fazer do planeta um inferno, conforme no Brasil estamos assistindo, como também é viável realizar o seu contrário”.

 

 

O pedagogo ucraniano Vassili Sukhomlinski (1918-1970), no artigo de 1965, “Conversa com um jovem diretor”, escreve que as palavras, quando não tem correspondência com as ações, são “meramente demagógicas” (in Pensamento Pedagógico, Livros Horizonte, Lisboa, 1978).

 

 

Não trataremos aqui do desfazimento do Brasil, do aviltamento das instituições nacionais, da sujeição da Petrobras, da Embraer, da Eletrobras, dos Correios aos interesses estrangeiros dos capitais financeiros, nem do ignorar a diversificada e rica música e a arte popular brasileira, nem mesmo dos arrojos arquitetônicos e das nossas importantes descobertas científicas. Mas estaremos tratando de tudo isso ao discorrer sobre a formação da consciência, parte integrante e fundamental da construção da cidadania, pois a consciência abarca a Questão Nacional.

 

 

Recordando: a construção da cidadania não se dá por um artigo constitucional, mas pela ação efetiva e permanente nas três áreas formadoras: a existência, a consciência e a vocalização; além da garantia dos direitos e dos instrumentos organizacionais para efetiva participação nas decisões políticas e administrativas e na fiscalização do poder.

 

 

A existência é aquela que trata da vida, da saúde, da moradia e do bem-estar físico do brasileiro; a vocalização é a que lhe permite expor, sem restrições de qualquer espécie, seu pensamento, seus desejos, suas queixas, suas propostas.

 

 

Na consciência estão os letramentos, isto é, as chaves que possibilitam a entrada no mundo dos conhecimentos, dos idiomas, das ciências, das tecnologias, das artes, da natureza e do humano. Estão os saberes, que se transmitem e enriquecem de geração em geração, da convivência e dos relacionamentos.

 

 

Reside, então, na consciência, o seu entendimento do ser humano, como ele trata seus compatriotas e os seres humanos em geral. Na consciência está a raiz da humanidade e da solidariedade, do respeito às diferenças, da aceitação do outro.

 

 

Reside aqui uma inadequação de movimentos identitários que os financistas, as instituições colonizadoras patrocinam e neles investem. Pois será a mulher menos ou mais humana do que o homem ou os homossexuais? Será a cor da pele um diferencial para as pessoas? Os identitarismos pós-modernos, enquanto movimentos desvinculados da questão nacional, estão sendo instrumentalizados para os segregacionismos, para ideologias excludentes, como os movimentos políticos que quiseram, no passado, separar parcelas do território brasileiro em nome da independência. Haverá outra razão para que o megafinancista George Soros destine bilhões de dólares estadunidenses para estes movimentos?

 

 

Identitários querem secção e confronto; nacionalistas a união, a solidariedade. No mundo pós 1990, as tropas de ocupação dos Impérios ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) foram substituídas pelos dirigentes do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

 

O Brasil, seu território, suas riquezas, sua história é, sem dúvida, o letramento básico na consciência, construtora da cidadania. E quanto podemos, neste conjunto e diante de nossos olhos, aprender e refletir com as edificações, a geografia, as plantas e árvores, nossos sedimentos e rochas?

 

 

E não será apenas um saber livresco, meramente intelectual, é um saber que se constrói no ver, no sentir e no fazer. A interação do homem com o meio em que vive, urbano ou rural, está na base da consciência.

 

 

A consciência é, assim, um processo construtivo a partir do distrito, do município, da unidade político-administrativa nacional onde vive o cidadão, desde a tenra idade, como ensina Milton Santos.

 

 

Há quem conteste esta percepção da ênfase no meio, no local da existência, por entender que acaba por afastar o cidadão da compreensão nacional.

 

 

Respondemos lembrando as centenas de elementos que interagem no condicionamento humano, distintos nas intensidades, nas continuidades, nas conexões sistêmicas. Se educar é mais do que ensinar, conscientizar é dar ao particular sua universalidade, é já ver, no primeiro núcleo de convivialidade, a formação da Pátria.

 

 

A vida cidadã está centrada numa atividade produtiva. E esta atividade não fornece apenas bens ou presta serviços, ela também cria e encanta. Acaso um músico não nos oferece momentos de enorme prazer e elevação espiritual com o que inventa ou expõe?

 

 

Todo este conjunto de troca, natureza e homem, uns com os outros, constitui elementos de cidadania. E entendemos que não haverá democracia se não houver cidadania, como sem consciência não há cidadania.

 

 

Na verdade, a luta por um fim exige a compreensão dos meios. Sem condição de existir, uma pessoa não terá consciência, sem consciência não vocalizará suas razões, e sem a Nação Soberana, que garanta a efetiva cidadania de seus habitantes, nada permanecerá de pé.

 

 

Portanto, ao tratar da consciência, tratamos também dos outros elementos construtores da cidadania e tendo como pressuposto a existência da Soberania Nacional.

 

 

Este conjunto é um todo indispensável a garantir todas as demandas da sociedade. Apenas a Nação Soberana, com população cidadã, participante, é capaz de buscar e implantar soluções eficazes para a proteção das pessoas e o desenvolvimento, em todas as frentes, do País.

 

 

É dos maiores nomes da pedagogia brasileira e universal, Anísio Teixeira (1900-1971), que atuou no mundo em construção no mesmo período do ucraniano Sukhomlinski, quem nos ensina, em entrevista ao jornal carioca Correio da Manhã (8/9/1964):

 

 

“A escola brasileira é que lhe irá ensinar a compreender o Brasil, mostrar-lhe a sua evolução, apresentar-lhe a sua estrutura social em transformação, indicando-lhe os defeitos arcaicos e as qualidades novas em surgimento, dar-lhe consciência dos seus triunfos e dos seus característicos, com exaltação dos aspectos originais – a sua democracia racial, por exemplo – e crítica aos defeitos maiores: a insensibilidade, por exemplo, para com a imensa parcela ainda desintegrada da Nação – os analfabetos, os miseráveis, a população rural que vegeta por esse imenso país afora; o espírito de aproveitamento, que o estado de pobreza gera e todos que sobem à tona e escapam à desgraça de ser no país apenas povo; a corrupção generalizada que é, mais do que tudo, manifestação da alienação de que o Brasil não é um bem comum, mas algo antes apropriado por privilegiados e hoje assaltado pelos que conseguem tomar um pouco das mãos de tais privilegiados e ganhar, deste modo, o direito de também explorá-lo em seu próprio benefício” (Anísio Teixeira, Educação no Brasil, Editora UFRJ, RJ, 2011, 4ª edição).

 

 

E, nesta mesma entrevista, acrescenta o Mestre, que será assassinado, pelos inimigos do Brasil, em 11 de março de 1971: “Só a escola e uma escola verdadeiramente de estudo e de conhecimento do Brasil poderá mostrar-nos o caminho para esse imenso esforço de emancipação nacional. Tal escola não poderá ser a escola privada, mas a escola pública, pois só esta poderá vir a inspirar-se nessa suprema missão pública, a de nacionalizar o Brasil”.

 

 

A consciência, como todos os elementos da construção da cidadania, não convive com os privilégios concedidos às finanças, a destinação da metade do orçamento nacional para enriquecimento dos banqueiros e rentistas. Esta opção preferencial pelo mercado financeiro destrói a cidadania e a soberania nacional.

 

 

Nossa mais imediata e indispensável consciência é entender que o Brasil foi entregue ao capital financeiro apátrida, despoticamente espoliador. Capital que corrompe, ilude, engana e falseia sem pudor, que invade nosso cotidiano pelas comunicações oficiais e comerciais, redes virtuais, pagas e conduzidas desde o estrangeiro.

 

 

O compromisso de todos que se coloquem na disputa política é relativo à soberania nacional e ao tratamento do capital financeiro, todo resto estará na dependência desta resposta, deste entendimento.

 

 

O nosso trabalho cidadão dará a dimensão da nossa consciência nacional.

 

 

 

(*) Felipe Maruf Quintas é doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense.

(**) Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

Publicado originalmente no Monitor Mercantil