O que quer que se venha a descobrir sobre o “recado” do General Walter Braga ao Presidente da Câmara, Arthur Lira, o script do episódio parece sair do baú de antiguidades dos órgãos de segurança do regime militar quando tentavam, no governo do General Figueiredo, dar algum susto para conseguir ou obstar alguma coisa. 

 

Vários desses sustos foram sem sangue, mas um foi sangrento e marcou o momento em que os órgãos de segurança enquadraram Figueiredo, o do Riocentro, em 1981, contra a abertura em geral e em especial a realização de eleições diretas para governador no ano seguinte.

 

No caso de Figueiredo, os sustos destinavam-se a estabelecer limites que ele e o Congresso não poderiam ultrapassar. No caso, agora, do recado ao Presidente da Câmara, o objetivo do recado foi apoiar Bolsonaro e o projeto do voto impresso e intimidar o Congresso, com a mesma perspectiva de “virar a mesa” e, como se dizia no tempo de Figueiredo, “melar a sucessão”.

 

Agora melar a sucessão só pode ser o atropelamento do que as pesquisas estão mostrando, o derretimento do antigo potencial de votos de Bolsonaro e a possibilidade de no segundo turno ele ser derrotado não só por Lula, mas também por Ciro Gomes ou algum candidato de terceira via.

 

No governo Figueiredo, os golpistas não conseguiram impedir a volta do poder civil, mesmo depois de impedirem a eleição direta. Quase quarenta anos depois, conseguirão agora virar a mesa, comandados pelo próprio Presidente da República?

 

Os ministros candidatos 

 

Enquanto isso, Bolsonaro parte para uma “pequena reforma ministerial”, como ele a chamou, uma reforma que mexerá em poucos ministérios, mas ao mesmo tempo afetará pontos sensíveis do esquema de poder dentro do governo.

 

O Gabinete Civil, por exemplo, volta a ser ocupado por um civil, o Senador Ciro Nogueira, Presidente do PP e mais poderosa figura do Centrão no Congresso, deslocando o General Luís Eduardo Ramos para outra função civil, bem menos poderosa,a Secretaria Geral do governo.

 

Da Secretaria Geral, enquanto isso, sai Onix Lorenzoni, que vai para o Ministério do Trabalho, a ser criado para acomodar e impulsionar sua candididatura ao governo do Rio Grande do Sul.

 

O restabelecimento do Ministério do Trabalho, agora com o nome de Ministério do Emprego e da Previdência e sua entrega a um titular ambicioso e resiliente como Lorenzoni, pareceu logo uma redução do verdadeiro império colonial  anexado ao Ministério da Economia de todo poderoso Paulo Guedes. 

 

No início dos anos Bolsonaro, Lorenzoni parecia ser um poderoso Chefe do Gabinte Civil, coordenador de tudo no governo que não estivesse nos domínios de Paulo Guedes e de Sérgio Moro, então Ministro da Justiça e Segurança Pública. Depois caíu, ocupou cargos menores e agora sobe de novo, assumindo no ressuscitado Ministério do Trabalho poderes que serão subtraídos de Paulo Guedes.

 

No Ministério do Trabalho, Lorenzoni vai, naturalmente, cuidar mais de sua candidatura a governador do Rio Grande do que da reeleição de Bolsonaro, mesmo podendo dizer que, ao cuidar de seu destino próximo, estará cuidando de Bolsonaro e sua reeleição. Bolsonaro, porém, não gosta de que seus ministros apareçam – e ainda na quinta-feira disse ter demitido o ex-Ministro da Saude, Luís Henrique Mandetta, porque Mandetta passava quatro horas por dia dando entrevista à TV Globo. Foi um aviso ou só coincidência?

 

Já no Gabinete Civil, muito mais poderoso que o Ministério do Trabalho, o Senador Ciro Nogueira estará cuidando da própria candidatura ao governo do Piauí, onde terá de enfrentar o PT do Governador Wellington Dias, que foi reeleito com a maior facilidade em 2018 e continua tendo muita força.

 

Uma coisa que Bolsonaro ignora – e talvez aprenda nos próximos meses – é que um Chefe do Gabinete Civil não pode ser candidato a coisa nenhuma. Se o for, faltará fatalmente a seu Presidente, mesmo sem ter consciência disso, por estar dividindo sua atenção em duas direções diferentes, uma seu próprio interesse de candidato a governador, talvez com cotação em alta, e outra em defesa da reeleição de um presidente com todos os índices em queda, a começar pelo cotejo entre sua possibilidade de reeleição e possibilidade idêntica dos outros candidatos.

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.