Se acreditarmos na propaganda difundida pelos serviços estadunidenses de informação e seus aliados, a Coreia do Norte é o país mais isolado do mundo.  É uma ditadura primitiva, onde o povo morre de fome, enquanto seus governantes praticam os maiores disparates. Será que é isso mesmo? Para entendermos a realidade da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), precisamos conhecer um pouco da história do país.

A península coreana foi tradicionalmente considerada de grande importância geopolítica para o Império da China e também para o Japão.  Em fins do século XIX, cerca de 30% da população da Coreia era de escravos. Só em 1894 é que foi abolida a escravidão no país.

A partir de 1910 a Coreia passou a ser colônia do Japão, quando foi aplicada uma política de niponização em massa dos coreanos. Posteriormente, o Japão ampliou sua dominação até a Manchúria no nordeste da China, onde fundaram o Estado fantoche de “Manchukuo”. Na Manchúria existia uma colônia de coreanos expatriados.

Alguns autores enfatizam que durante a colonização japonesa, no norte da península coreana chegou a ser implantada uma infraestrutura industrial, ligada principalmente à mineração, enquanto no sul predominava a agricultura. Isso faz sentido, pois o norte é muito montanhoso e é rico em minérios, enquanto no sul há planícies costeiras mais alargadas, propícias para a agricultura.

Exército soviético – Em 1945, em conjunto com as tropas do Exército Vermelho da então União Soviética (URSS), o Exército Popular Revolucionário da Coreia libertou a parte norte da ocupação japonesa. No sul da península, os japoneses se retiraram antes da chegada das tropas norte-americanas. Basta dizer que as forças americanas de ocupação desembarcaram em Inchon, o porto de Seul, no dia 8 de setembro de 1945, quando o Japão já estava derrotado. A presença dos militares dos EUA na Coreia do Sul só serviu para coibir o avanço da revolução popular naquela região. Os norte-americanos, unilateralmente, sem consultar a URSS, estabeleceram que a Coreia fosse provisoriamente dividida no paralelo 38. Os soviéticos entraram na parte norte em 8 de agosto de 1945 e dirigiram-se em direção ao sul, mas aceitaram a decisão dos EUA de dividir o país ao meio. Os soviéticos fizeram isso silenciosamente, sem comentários ou um acordo escrito. É o que escreve o historiador estadunidense Bruce Cumings, grande conhecedor da história da Coreia.

O desejo da maioria dos coreanos, como também do governo da URSS, que havia colaborado para a derrota dos japoneses na região norte da península era uma Coreia unificada. Inclusive é com esse espírito de união, que Kim Il-sung, que desde 1932 vinha combatendo os japoneses na Manchúria, organiza um governo provisório na atual Coreia do Norte. Reformas democráticas anti-imperialistas e antifeudais são empreendidas pelo Governo Popular Provisório. Na Coreia do Sul, desde o início, os norte-americanos não permitiram que medidas democrático-populares fossem implementadas.

Os EUA conduziram eleições em separado e estabeleceram um governo fantoche sob o nome de “República da Coreia”, tendo como objetivo servir de fortaleza avançada do imperialismo, para praticar agressões contra outros povos da Ásia e invadir o norte da península. Como chefe do governo, os norte-americanos colocaram Syngman Rhee, um coreano extremamente anticomunista, que até então se encontrava residindo na Califórnia.

Os revolucionários sul-coreanos lutaram contra essa farsa eleitoral. O objetivo do Governo Popular Provisório era a realização de eleições conjuntas e, em seguida, a unificação da Coreia sob um único governo. Mas, já que os norte-americanos violaram os acordos e estabeleceram um governo fantoche no sul, não restou outra saída para os norte-coreanos senão fundar a República Popular Democrática da Coreia em 9 de setembro de 1948. Nesse mesmo ano, as tropas do Exército Vermelho deixaram a Coreia do Norte, cumprindo o acordo de 1945, que previa a retirada de todas as tropas estrangeiras da Coreia no prazo máximo de cinco anos.

Quem invadiu? – Há controvérsias sobre quem iniciou a chamada Guerra da Coreia. A versão predominante no Ocidente é que foram as tropas da Coreia do Norte que atravessaram o paralelo 38 em 25 de junho de 1953, invadindo a Coreia do Sul.


Os norte-coreanos têm outra versão. Dermot Hudson, estudioso inglês da Ideologia Juche e da Política Songun, que são dois aspectos da doutrina oficial do socialismo norte-coreano, não tem dúvida que foram as tropas do governo da Coreia do Sul que invadiram o lado norte, na noite de 25 de junho de 1950. O Exército da RPDC havia simplesmente revidado imediatamente, levando as tropas fiéis aos EUA de volta ao Sul do paralelo 38, chegando a libertar Seul e 95% do território sul-coreano, em poucos dias.

Por outro lado, a versão de Bruce Cumings é que a chamada Guerra da Coreia tem que ser devidamente contextualizada. Segundo ele, ela nem começou em 25 de junho de 1953. Seja quem quer que tenha atacado primeiro naquele dia, isso foi simplesmente mais um episódio de um longo processo conflituoso. Cumings escreve que já havia ocorrido diversas provocações da Coreia do Sul contra a Coreia do Norte, inclusive, várias violações de fronteira, desde o ano anterior.

Bruce Cumings é muito claro em afirmar que se tratava de uma guerra civil. De fato, essa guerra havia começado em 1932, quando Kim Il-sung (na foto, abaixo) ainda lutava contra os japoneses na Manchúria. Então, segundo ele, os norte-coreanos estavam simplesmente dando mais um passo na conclusão da guerra civil. Ele chega a fazer comparação com a travessia do rio Yangtze em abril de 1949 pelas tropas de Mao Zedong e a tomada de Saigon pelos norte-vietnamitas em 1975. Em ambos os casos houve conclusões de guerras civis. Se os EUA não tivessem entrado na Guerra da Coreia, a guerra civil coreana teria terminado exitosamente com a vitória completa das forças populares, e a Coreia seria hoje um país unificado.

Na parte norte da península, a guerra contra os japoneses havia terminado com a vitória das forças populares, empenhadas na construção do socialismo. No sul, pelo contrário, o governo e o exército de Syngman Rhee estavam cheios de elementos de mentalidade fascista, antigos colaboradores da ocupação japonesa.

O que é fato histórico é que entre 1950 e 1953 a RPDC sofreu uma pesada invasão de tropas de muitos países, encabeçadas pelos EUA, foi o período da chamada Guerra da Coreia.

O país foi totalmente arrasado. Imagine o que significa saber que na capital Pyongyang não ficou sequer um edifício ou casa em pé. O mesmo aconteceu com outras cidades da Coreia do Norte.  Milhões de pessoas foram assassinadas com o uso de napalm e outros meios de destruição em massa. Bruce Cumings escreveu que só de junho ao fim de outubro de 1950, os B-29 derramaram 3,2 milhões de litros de napalm sobre a Coreia do Norte.

Como a guerra continuou até meados de 1953, o que os imperialistas norte-americanos não fizeram contra o povo coreano? Foi uma guerra de extermínio, uma política de terra arrasada mesmo, com o objetivo de fazer a Coreia retroceder à Idade da Pedra. Assim que os chineses entraram na guerra, para dar apoio aos norte-coreanos, o general MacArthur deu ordens para destruir tudo que existisse entre a frente da guerra e as margens do rio Yalu na fronteira com a China. Entretanto, esse criminoso ato de guerra norte-americano, de triste memória, queria muito mais. Ele queria despejar bombas atômicas sobre o território da Coreia do Norte, e, se possível, estender a guerra até a China, utilizando bombas atômicas contra a República Popular da China.

Armistício – Em 27 de julho de 1953, os EUA foram forçados a firmar um armistício, pondo fim as ações de guerra contra a RDPC. Mas até hoje não foi assinado um acordo de paz, oficialmente, terminando a guerra. Portanto, tecnicamente, os EUA continuam em guerra contra a RPDC. A península da Coreia continua dividida ao meio, e os EUA ainda mantêm tropas e bases na Coreia do Sul. O governo da Coreia do Norte deseja a reunificação do país. No sul da península, muitos desejam a reunificação, mas o governo fantoche da Coreia do Sul não tem autonomia, para promover uma política de conciliação e promover a reunificação. Mesmo assim, graças ao trabalho do povo norte-coreano e à solidariedade internacional do campo socialista, as cidades norte-coreanas foram em pouco tempo reconstruídas (na foto, abaixo, cidade planejada na atual Coreia do Norte).

A RPDC é um país pequeno, seu território de 120.540 km2, mais ou menos igual a três vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro e um pouco maior que Portugal. Sua população é de aproximadamente 25 milhões de habitantes.  Pode-se ver que sua capital, Pyongyang, é uma bela cidade de cerca de 3,3 milhões de habitantes, muito limpa, com grandes praças e largas avenidas, destacando-se a Torre da Ideia Juche, às margens do rio Taedong. A partir da década de 1960, a Coreia do Norte tornou-se um país relativamente avançado, com uma poderosa indústria pesada, o povo todo alfabetizado contando com serviços de saúde de qualidade. Cerca de 70% de seu comércio internacional era feito com os países socialistas, em condições vantajosas, inclusive fazendo trocas em espécies.

Perdas – Em 1991, com o fim da União Soviética (URSS), o campo socialista europeu desapareceu totalmente. A partir desse momento, os norte-coreanos só puderam adquirir certas mercadorias com divisas em dólares, no mercado capitalista, e esses dólares a Coreia do Norte não os possuía. Outra perda enorme, para a Coreia do Norte, foi a morte em 1994 do fundador do Estado norte-coreano, Kim Il-sung (15/4/1912-8/7/1994).

Ocorreu também nesse período a melhora das relações entre a China e Coreia do Sul. Isso, em geral, não foi bom para a RPDC.  Para complicar ainda mais a situação, entre 1995 e 1996, o território da Coreia do Norte sofreu grandes inundações, afetando seriamente sua agricultura. Em seguida, houve secas e tufões. Tudo isso já era muito difícil. Os governos capitalistas, aproveitando as dificuldades do país, acharam que havia chegado a hora de forçarem a queda do governo popular da RPDC. Impuseram sanções e mais sanções, e, por fim, tentaram provocar uma revolta do próprio povo, mas isso eles não conseguiram. O governo respondeu com o reforço do seu sistema de defesa. Caso contrário, provavelmente, alguma aventura contra o país teria acontecido.

Amanhã publicaremos a segunda e última parte desta história.
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(*) José Lourenço Cindra é professor de física da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Guaratinguetá.