Enterro de vítima da Covid-19 em Brasília, DF

 

 

Um vídeo divulgado nas redes sociais no fim do dia, dessa sexta-feira (5), pelo Conselho de Enfermagem do Distrito Federal (Coren), escancara a dimensão da tragédia que a pandemia do novo coronavírus está causando no capital do País. O relato dos presidente e vice-presidente do Coren e o pedido de socorro, somando às atitudes do governo Ibaneis Rocha (MDB) de se recusar a estabelecer um lockdown rígido, bem como a decisão de reabrir setores totalmente desnecessários a partir de segunda-feira (8), anunciam não só o pior março da história do Distrito Federal, mas uma trajetória de catástrofes em todo o ano de 2021.

 

Neste sábado (6), a média móvel de mortes subiu para 17. Na comparação com o indicador apurado há 14 dias, esse número revela o crescimento de 72%, o que confirma a tendência de alta na quantidade de mortes e de mais contaminação. Somente nas últimas 24 horas, 17 pessoas morreram de Covid-19 e o Distrito Federal registou 1.692 novas contaminações. Desde o início da pandemia, o DF já contabilizou, com números muito subnotificados, 305.377 contaminações e 5 mil óbitos em decorrência da doença. Desde a segunda semana de fevereiro, a própria Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) tem avisado da rápida elevação do número de contaminados e doentes e a superlotação das Unidades de Terapia Intensiva (UTI).

 

O Brasil encerra o sábado (6), com mais de 1.555 mortes registradas nas últimas 24 horas, mais de 265 mortos por Covid-19 e com a média móvel de óbitos em decorrência da Covid-19 batendo novo recorde pelo 11º dia consecutivo. Neste sábado, chegou a 1.443.  Em comparação com os últimos 14 dias, houve acréscimo de 39%. Os números subnotificados seguem mostrando a explosão e o avanço da doença.

 

No Distrito Federal, quase duas semanas depois de o sistema de saúde entrar em colapso, o governador Ibaneis Rocha (MDB) fez de conta que agia com seriedade e anunciou um lockdown, editou decretos e foi para a mídia dizer que precisava de um confinamento por pelo menos uma semana a 10 dias. Não o fez. Antes de os decretos completarem 5 dias, ele modificou o conteúdo, autorizando a volta à normalidade de funcionamento a vários setores totalmente desnecessários, enquanto infectologias, médicos, enfermeiros e toda a sociedade clama por uma política séria, com o dinheiro público, de combate à pandemia e vacinação em massa.

 

Na sexta-feira (5), enquanto o Hospital Regional da Asa Nore (Hran), hospital totalmente dedicado ao atendimento da Covid-19, esgotava sua capacidade de atendimento, Ibaneis assinava decretos reabrindo setores não essenciais e outros, como escolas privadas e academias de ginástica, que provocam aglomerações. Tudo, praticamente, volta à “normalidade” no Distrito Federal a partir de 8 de março, em pleno avanço e aumento de contaminações e mortes.

 

A situação do Hran e demais hospitais das redes pública e privada é tão dramática que, na noite de sexta-feira (5), o Conselho Regional de Enfermagem no Distrito Federal (Coren-DF) divulgou um vídeo pedindo socorro e denunciando que o Hospital Regional da Asa Norte (Hran), a principal unidade de referência no tratamento da Covid-19 no DF, havia se tornado zona de guerra. O presidente e o vice-presidente do Coren gravaram vídeo relatando a situação do hospital, mostrando a internação de pessoas no chão e uma fila de 70 pacientes. No vídeo, o presidente do Coren, Elissandro Noronha, relatou a existência de 70 pacientes na fila para ser atendidos, além de muita gente internada e distribuída no chão por falta de leito, bem como a falta completa de equipamento reserva para pessoas intubadas. “Pedimos socorro”, disse.

 

O Coren denuncia também que, no pronto-socorro do Hran, na sala de medicação, há 30 pontos de oxigênio para 57 pacientes. Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) confirmou a limitação do hospital e reconheceu que, “com a nova alta de casos de infecção pelo novo coronavírus, os profissionais do DF estão trabalhando no limite de sua capacidade logística”, contudo, manteve um discurso vazio, como se o Governo do Distrito Federal (GDF) estivesse com a situação sob controle.

 

“Neste momento, mais uma vez, o Brasil se depara com a situação extremamente crítica da pandemia Covid-19. Estamos vivenciando, no Distrito Federal, e em cerca de 20 outros estados patamares elevadíssimos de transmissão do novo coronavírus, bem como uma taxa extremamente preocupante de ocupação dos leitos de UTI. Os profissionais de saúde já extremamente desgastados tendo de enfrentarem este segundo momento onde nós vemos por parte da população a baixíssima adesão em respeito às medidas de distanciamento, de isolamento social, de uso de máscara”, afirma Jeovânia Rodrigues, presidente do Conselho Distrital de Saúde.

 

“Estamos convivendo com grande aglomeração. Para resolver isso é fundamental estabelecerem-se medidas por parte dos governadores para que a velocidade de avanço da pandemia possa ter, de fato, um nível de desaceleração que propicie ao sistema de saúde se organizar para atender a essa grande demanda de pacientes projetada para alcançar patamares ainda mais elevados do que a primeira onda da pandemia”, conclui.

 

A situação tem é tão grave que está indignando as pessoas no mundo inteiro. Brasileiros que moram fora do País estão apavorados. “Estou apavorado com meus pais no Brasil. Estamos assistindo, de longe e sem poder fazer nada, a tragédia desumana que está acontecendo no meu País. Mandei um pacote de máscaras para eles usarem e todo dia ligo para saber como estão e para pedir para não saírem de casa.”, disse Luiz Felipe Ricardo, estudante de jornalismo que se mudou para Berlim, em 2019 para fazer um mestrado. Em 2020, quando a pandemia se instalou no mundo, os pais de Luiz Felipe, idosos, mudaram-se de um apartamento, no Setor Sudoeste, para uma casa, no Setor de Mansões Park Way, dois bairros nobres de Brasília. Ele diz que o noticiário alemão todo dia apresenta a situação do Brasil e afirma que se trata do país com a pior gestão da pandemia.

 

Para o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido pela alcunha de Kakay, “a advocacia brasileira deve uma satisfação à sociedade, à nação. Está absolutamente comprovado que o Presidente da República fez uma opção de não comprar vacina, por uma definição política, desde meados do ano de 2020, e isto é a maior causa do caos, do número incalculável e desmedido de mortes. Não são apenas as bravatas deste Presidente sádico e que cultua a morte. A necropolítica é a tônica do governo federal”, afirma o advogado Kakay.

 

Segundo ele,  “a postura de afronta às determinações da ciência é acintosa e criminosa. Somos hoje pária internacional e chacota entre os países. Esta questão política não é o ponto a ser enfrentado. O que nos cabe, como advogados, é promover uma análise criteriosa e técnica dos crimes que ocorreram. Os advogados, especialmente os advogados criminais, devem uma resposta ao povo brasileiro. O Supremo Tribunal não tem faltado ao país. O Ministro Lewandowski é hoje, de fato, o Ministro da Saúde. Os Governadores e os Prefeitos estão agora se mobilizando. O Congresso tem o dever de ocupar o espaço vazio deixado por um Executivo que cultua a morte. Os médicos e as equipes de saúde estão exauridos, esgotados. Não suportam mais. É desumano”.

 

Para o advogado é hora de o povo e as organizações do campo do direito reagirem. “Enquanto o Presidente da República diz que devemos deixar de “mimimi”, os responsáveis pelas UTI estão à beira da completa exaustão. É humilhante ver o descaso do Presidente com os profissionais de saúde e é nauseante ver a falta de empatia com os familiares e amigos dos infectados. Mais 260 mil mortos oficialmente; certamente, o número é muito maior. Não é digno de nossa parte não reagir. Não é honesto mantermos uma atitude de omissão. A advocacia não pode deixar de se manifestar. Respeitosamente conclamo os meus queridos colegas a enfrentar este quadro criminoso. A solidariedade tem que ser estampada em uma ação efetiva. O nosso silêncio será uma imperdoável omissão”, afirma

 

Indignada com a situação, Cristiane Pereira dos Santos, membro da Central de Movimentos Populares e do Setorial de Saúde, exige a saída de Ibaneis do governo. Ela acredita que ele usa o dinheiro público e o Palácio do Buriti para fazer “negociatas de morte”. “O governador Ibaneis tinha todas as chances de fazer uma gestão responsável no DF. É uma unidade federativa pequena, com boa arrecadação e com recursos do Fundo Constitucional. Era possível ter uma saúde pública, estatal de qualidade, era possível ser um modelo de funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz.

 

E finaliza: “Mas este governador do MDB optou por governar para si, por encher seus bolsos em negociatas e por seguir o modelo negligente e negacionista do presidente Jair Bolsonaro no combate à pandemia. O resultado é claro, sistema de saúde colapsado, população morrendo, profissionais de saúde adoecidos. A história vai cobrar caro por isso! Fora Ibaneis com suas negociatas de morte!”, finaliza

 

 

Confira o vídeo do Coren, de sexta-feira (5). Com o aumento de casos de contaminação e mortes neste fim de semana, começa a escalada da tragédia anunciada para março.