Populações primitivas, no início da vida humana no planeta Terra, adoravam o Sol, temiam e ofereciam sacrifícios aos fenômenos naturais por desconhecimento e por medo. Nos romances e filmes de ficção científica produzidos no Ocidente, quase sempre a reação dos terráqueos é hostil aos que aqui chegam do espaço, pois nossa ignorância sobre a vida fora da Terra nos coloca na defensiva; imaginamos que os extraterrestres farão conosco o que, por aqui, sempre fizemos, dominar e escravizar outros povos.

 

 

A China foi no passado, quase sempre, um mundo desconhecido, porém um povo que, antes do Ocidente, descobriu a fabricação da pólvora, a siderurgia, a fabricação da seda e de porcelanas finas, visitou o Ocidente antes que este fosse ao Oriente. A história da China e do pensamento chinês é, ainda hoje, um buraco negro na cultura ocidental.

 

 

Essa imensa incógnita está por se constituir, hoje, no país mais rico, dominando as tecnologias mais importantes, além de ser o mais populoso e estar se abrindo, buscando parcerias e mercados em todos os continentes. Enquanto, sempre envolvidos em guerras, os Estados Unidos da América (EUA), que se apresentam como defensores da civilização ocidental, afundam economicamente, cheios de problemas sociais, sendo superados no conhecimento científico e tecnológico pela China e por vários outros, como a antagonista, desde a guerra fria, Rússia, que já foi da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e hoje é da Federação Russa.

 

 

Logo, como Cartago para os romanos, os estadunidenses procuram incutir no ocidente, especialmente em suas colônias nas Américas, que a China deve ser destruída (“delendam esse”). E que o vírus causador da pandemia que ceifou, até meado de julho de 2021, mais de 4 milhões de vidas tem origem chinesa.

 

 

O que denominamos história ocidental começou na África, perto de 5.500 anos antes de Cristo (a.C.), quando uma população vencedora da luta pela própria existência se fixou em Buto, nos pântanos mediterrâneos do Egito.

 

 

Os han, grupo etnográfico, linguístico e cultural, amplamente majoritário no espaço ocupado pela República Popular da China (RPC), haviam trocado, conforme dados antropológicos, a coleta pela agricultura, no curso médio do rio Amarelo, por volta dos 6.700 a.C.

 

 

A dinastia Xia, misto de fabulação e de pesquisas antropológicas, governou a China desde 2.070 a.C.. E o pensamento taoísta, que é o modo de entender o mundo pelos chineses, já era registrado, em ossos e carapaças animais, em pictogramas muito próximos à grafia atual, em 1.300 a.C.

 

 

Podemos dizer que se encontra nos impérios mesopotâmicos do Oriente Médio o mais antigo pensamento teísta do ocidente, que se fazia conhecer por volta de 2.000 a.C.

 

 

Sendo as antiguidades tão parelhas, é a evolução diferente do Ocidente e do Oriente que vai exibir os modos de vida, valores, crenças, que são tão nitidamente distintos entre os atuais países líderes: a China e o contexto anglo-estadunidense-sionista, que simplificaremos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), “Contexto Otan”, pois há, além da ideologia capitalista financista, outras influências como a sionista, israelense; e seus idiomas, mandarim e inglês.

 

 

Procuremos conhecê-los para eliminar o medo e os preconceitos, pela informação, pela ciência e pela razão.

 

 

Uma primeira e relevante distinção entre o Ocidente e o Oriente nos é trazida pelo professor da Universidade de Paris VII Jacques Gernet, em Le Monde Chinois (Librairie Armand Collin, Paris, 1972, dois volumes): a única escravatura que o mundo chinês conheceu foi a da dívida; “os camponeses sem terra são empregados nas indústrias em desenvolvimento ou fixados em novas terras que se procura valorizar”, para saldar as dívidas.

 

 

Pelos séculos IV e III a.C., sob os Reinos Guerreiros ou Reinos Combatentes, é fundado o Estado Centralizado. Constituiu um grande avanço, pois se formou um Estado com estrutura burocrática, onde até então era privativo das famílias principescas. O segundo filho, que não fazia parte do núcleo familiar, assim como sua descendência e da segunda esposa, passa a ter responsabilidade coletiva, criam-se circunscrições administrativas, novos critérios de divisão dos territórios, unificam-se pesos e medidas. São chamados “técnicos” para o governo. O príncipe não exerce propriamente o comando, o poder de árbitro, mas tem a seu encargo desenvolver, vivificar, atividades dentro do seu território, sob a forma colegiada.

 

 

No âmbito do pensamento, elaboram-se as noções fundamentais do tao (caminho) e do qi (energia vital). Porém, como assinala Anne Cheng, trava-se, além da luta pela hegemonia política, a guerra dos discursos; “numa época em que se consolida nos pensadores chineses um verdadeiro fascínio pelos problemas da linguagem” (Anne Cheng, História do Pensamento Chinês, tradução do original francês de 1997 por Gentil Avelino Titton, para a Editora Vozes, Petrópolis, 2008).

 

 

Escreve, nesta obra, Anne Cheng: “A categoria dos shi (burocratas encarregados dos negócios do Estado) começa a emergir à frente das quatro categorias do povo, e tem, como atividade especializada, o manejo do discurso, da linguagem, ao passo que as outras três – camponeses, artesãos e comerciantes – têm atividades bem determinadas e seus status sociais”.

 

 

Com a formação do Estado Centralizado, tem início o desmoronamento da hierarquia feudal e a importância crescente dos shi, fortemente marcada pelo saber, como instrumento de promoção e ascensão social.

 

 

Podemos ver na Hélade, nas cidades gregas, que ocorrem pelo século VII a.C., as primeiras formações ocidentais comparáveis aos Reinos Combatentes chineses. Mas com distinção fundamental, qual seja, a da existência de escravos. O cidadão grego, que cuidava da cidade-estado, não tinha a ocupação de produzir, nem prover sua própria existência, atribuições das mulheres e dos escravos. A isto se chamou democracia.

 

 

Democracia, que o jurista português António Manuel Hespanha (O Caleidoscópio do Direito – O Direito e a Justiça nos Dias e no Mundo de Hoje, Edições Almedina, Coimbra, 2009), disse ter sido, “no século XIX, um regime muito elitista, participado por muito poucos cidadãos”, surgindo daí outras formas de direitos, “desligados do Estado, por vezes como sobrevivência de antigas normas sociais geralmente aceites, outras vezes como produto da doutrina de uma elite de juristas que também não esquecera nem as suas doutrinas tradicionais nem o papel dirigente que ocupara na sociedade de Antigo Regime”.

 

 

O Partido Comunista Chinês, que festejou, no início de julho de 2021, seu primeiro centenário, atribui este feito raro por ser sua primeira prioridade, não aquela de seguir uma ideologia ou um estamento social ou mesmo consagrada tradição, “o revitalizar da nação, a de sempre buscar vida melhor para o povo”.

 

 

O período que a Europa denomina Idade Média não tem o mesmo significado nem para as populações africanas nem asiáticas.

 

 

A Europeia é marcada pela queda do Império Romano do Ocidente (século V depois de Cristo) e 1453, com a conquista de Constantinopla (atual Istambul) pelos turcos (Império Otomano). Foi a época da dominação ideológica da religião surgida no Oriente Médio, que se estruturou de modo hierárquico, muito influenciado pela organização militar romana – o cristianismo.

 

 

Com exceção das áreas islâmicas – Califado de Córdoba (aproximadamente a península Ibérica) e o conjunto constituído pela Hungria, România, Albânia, Bulgária, Grécia, a antiga Iugoslávia e a Crimeia – a Idade Média Católica ocupou a Europa Ocidental, o Reino Unido e parte da Europa Oriental.

 

 

Nos séculos do V ao XV, a África do Norte era também dominada pelo islamismo. Mas na África subsaariana encontramos o Império Banto, as civilizações suaíli, ashanti, askias, monomotapa, entre tantas outras, com características específicas de idiomas e crenças. Antes das invasões europeias, que ocorreram após o século XV, as estruturas socioeconômicas africanas eram complexas e diferenciadas. A ideia de chefe era muito mais a de alguém que representava uma estrutura social do que alguém a ser obedecido e temido; também a casta, diferentemente da Índia, representava uma categoria profissional, casta dos ferreiros, que trabalhava com metais, ouro, armas e enfeites.

 

 

Na China, é importante o período entre os séculos I e VI, de reinado Han, quando os shi encontram-se na ambígua posição de súditos, no código político, e mestres, no código ético. O pensador Mêncio, pseudônimo de Ji Mèng Kē (370 a.C. – 289 a.C.), o mais eminente seguidor do confucionismo, aprofundou a questão dos discursos, colocando ser a melhor maneira de governar o por em prática o “senso do humano”, o ren.

 

 

Com a decadência dos Han, há a ruptura das “escolas” e instalam-se crises morais e políticas que se atribuem a Lao Tse (Laozi), cuja existência é incerta. O budismo chega à China e instala-se o Império Aristocrático, com Yang e os Tang; são realizadas grandes obras públicas: rede de vias navegáveis, reconstrução de cidades, aumento das muralhas protetoras, e a administração chinesa, no século VII, atinge a maturidade.

 

 

Constituem-se quatro órgãos: o Departamento de Negócios do Estado (shang shu sheng), a Chancelaria Imperial (men xia sheng), o Grande Secretariado Imperial (zhong shu sheng) e o Conselho do Estado, do qual participavam o Imperador, grandes dignitários e funcionários em funções relevantes, e os presidentes dos seis ministérios que formavam o Shang Shu Sheng. Além disso, também constituíam a gestão do Estado: o Tribunal dos Censores, a Alta Câmara de Justiça, e serviços responsáveis pela navegação, arsenais, biblioteca, guarda do Palácio etc.

 

 

Entre os séculos VIII e XI, a importância da linguagem foi se perdendo; histórias oficiais, composições rotineiras, periódicas passaram a ter caráter pessoal, uma linhagem de transmissões sem rigor científico ou preocupações morais. O texto de Laozi, a seguir transcrito, indica esta condição:

 

 

“O bom comerciante esconde bem fundo seus tesouros e faz como se os seus cofres estivessem vazios; o homem de bem transborda de virtude, mas seu rosto e sua expressão manifestam idiotia.”

 

 

A descoberta do estribo, que dá aos cavaleiros armados de arco mais firmeza e poder de ataque, permite aos mongóis, homens das estepes, derrotarem os Jin e dominarem a China e logo se estenderem pela Birmânia e no Vietnã.

 

 

Um dos traços característicos dos mongóis, diferentemente dos han, será a discriminação das diferentes populações. Três são os grupos estabelecidos: os mongóis, os chineses (han ren) e os que nem eram uns nem outros, os semu ren. O Império Mongol, no século XIV, foi o maior império de terras contíguas da história.

 

 

Na Baixa Idade Média, as estimativas populacionais indicam que a Europa era mais populosa do que a China, com 80 milhões e 65 milhões, respectivamente, em 1400. Mas a China teria o privilégio do primeiro censo, ocorrido em 2238 a.C., por ordem do imperador Yao para conhecer, além da população, as lavouras cultivadas.

 

 

Em artigos seguintes, procuraremos tornar mais conhecida, e menos temida pela ignorância, a China e o povo chinês.

 

 

(*) Por Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.
Reproduzido da coluna de Pedro Pinho do Monitor Mercantil