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Chile busca se livrar do neoliberalismo e elege líder da esquerda para presidente

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O povo chileno pôs um ponto final no legado do ditador Augusto Pinochet. Mais de 30 anos após o fim da ditadura milhar, um candidato de esquerda, Gabriel Boric, foi eleito, neste domingo (19), presidente do Chile. Aos 35 anos, é a pessoa mais jovem da história a ocupar o cargo. Ele já foi deputado e líder estudantil.

 

 

A ditadura Pinochet acabou em 1990, mas seu legado, o regime neoliberal, em que prevalece o Estado mínimo, permaneceu até este ano. A eleição foi marcada pela polarização política entre as propostas.

 

 

Boric venceu o advogado José Antonio Kast, de ultradireita neoliberal. Kast informou em rede social que telefonou para o líder eleito reconhecendo a derrota e parabenizando-o pela vitória.

 

 

Até as 20h10 deste domingo, com 98,77% das urnas apuradas, Boric tinha 55,9% dos votos, contra 44,2% de Kast.

 

 

Boric havia ficado em segundo lugar no primeiro turno, com 25,82%. Kast teve 27,91%. É a primeira vez, desde a redemocratização, três décadas atrás, que um candidato que não venceu o primeiro turno chega à presidência. A posse ocorre em março.

 

 

Polarização

 

Boric e Kast representaram lados opostos do espectro político e disputaram cada voto do eleitorado.

 

 

O novo presidente representa uma esquerda progressista revitalizada, que cresceu muito desde os protestos de 2019. Kast, por sua vez, fundou o ultraconservador Partido Republicano, neoliberal, semelhante aos partidos políticos do Centrão e de direita do Brasil, e avalizou a mensagem “lei e ordem” na campanha.

 

 

Boric disputou a presidência do Chile com a idade mínima exigida e foi o mais jovem dos sete candidatos na disputa pela sucessão do conservador Sebastián Piñera. Sua candidatura representa a coalizão “Aprovo Dignidade”, que reúne a Frente Ampla e o Partido Comunista.

 

 

Sua maior crítica à democracia após a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) é ter continuado com o modelo econômico liberal que privatizou tudo no País, instalou o Estado mínimo, extinguiu os serviços públicos (como pretende fazer no Brasil o governo Bolsonaro com a PEC 32/2020 e outras que já foram aprovadas), o que deixou uma classe média e baixa endividada e sem acesso a direitos humanos como o direito à educação, à saúde e à previdência e uma aposentadoria digna na velhice.

 

Boris defende direitos fundamentais e o “Estado de bem-estar” ao estilo europeu na área econômica.

 

Solteiro e oriundo de Punta Arenas, no extremo sul do país, Boric cresceu no seio de uma família simpática aos partidos socialistas e democrata-cristãos de esquerda.

 

“Sou da Patagônia Austral, onde começa o mundo, onde se fundem todos os contos e a imaginação, no Estreito de Magalhães, que inspirou tantos romances”, disse, orgulhoso de sua região.

 

 

Liderança estudantil

 

Boric foi líder estudantil. Ele comandou os protestos pela gratuidade do ensino universitário, em 2011, e se tornou, depois, deputado por dois mandatos. Já Kast é um velho conhecido da política chilena, defensor do neoliberalismo, imposto ao país por meio do golpe de Estado com Augusto Pinochet.

 

 

Um levantamento do perfil dos dois candidatos mostram os contrastes entre eles e suas propostas. Enquanto Boric defende uma reforma no sistema de previdência, para torná-la pública, Kast quer a manutenção dos fundos de pensão privados e, na campanha, apostou no discurso anticomunismo e contrário à imigração ilegal.

 

 

O líder de esquerda, defende a legalização do aborto e do cultivo da maconha, embora não seja favorável a uma política de legalização mais ampla das drogas. Kast, por sua vez, sustenta uma plataforma ultraconservadora, misógina, machista nos direitos civis e quer a militarização do sul do país, onde grupos de defesa dos direitos dos indígenas mapuche estão em confronto contínuo com grileiros e latifundiários de terras.

 

 

O ultradireitista se diz um admirador de Augusto Pinochet e votou pela continuidade da ditadura militar no plebiscito de 1988. Filho de imigrantes alemães, um de seus irmãos foi ministro durante o regime ditatorial do general.

 

 

A mídia liberal disse que o dia de votação foi permeado de tensão. Mas foi “tensão” normal de horário do pico, como ocorre na semana, por causa de grandes engarrafamentos na região metropolitana de Santiago, forte calor e registros de dificuldades para acessar o transporte público em zonas rurais.

 

 

Os relatos fizeram com que ambos os candidatos reclamassem do sistema de transporte. Em um áudio, Kast afirmou que em algumas regiões há poucos ônibus e pediu ao governo que disponibilizasse toda a capacidade possível para que as pessoas pudessem votar. “Enquanto isso, apelo à sociedade, aos vizinhos que tenham veículos, que ajudem a levar o máximo de pessoas aos locais de votação.”

 

 

Boric, por sua vez, em uma escala do voo que fez de Punta Arenas, onde votou, para a capital, divulgou um áudio no qual disse ter recebido relatos de problemas no transporte público tanto na região metropolitana como na zona rural. “Mais do que atribuir responsabilidades, o que peço é que o governo busque uma solução, depois vemos o que aconteceu. Mas sabemos de lugares em que apenas 50% da frota de ônibus está funcionando. Há regiões rurais em que o transporte público simplesmente não está passando.”

 

 

A ministra do Transporte, Gloria Hutt, porém, negou uma diminuição no fluxo dos ônibus e afirmou que os veículos do transporte público estão trabalhando “como em um dia de trabalho normal”. “O que temos visto nas últimas horas é que há episódios de congestionamento, e isso afeta o transporte público.”

 

 

Hutt excluiu a possibilidade de que ônibus tenham sido tirados de circulação para impedir a mobilidade dos eleitores. “Não fizemos isso, há contratos a cumprir entre as empresas e o ministério, e estamos vigiando para que isso se cumpra”. Jaime Bellolio, porta-voz do governo, foi na mesma toada. “Estamos em um momento polarizado, estão falando mentiras. Há demora porque há muito trânsito.”

 

Votação

 

Boric e Kast votaram praticamente no mesmo horário, por volta das 9h20. Boric foi a um colégio de Punta Arenas, sua cidade-natal, e Kast, a um local de votação em Paine, na região metropolitana de Santiago.

 

 

O líder da esquerda chegou acompanhado da namorada, Irina Karamanos, e do irmão Simón. “O sentido de responsabilidade histórica que sinto é tremendo. Estou com esperança e tranquilo, porque fizemos uma campanha limpa, sem difundir mentiras. Nesta noite, vamos respeitar o resultado, seja qual for.”

 

 

Já Kast afirmou esperar que o resultado seja “muito apertado” e disse estar “confiante de que os dados do Servel [órgão eleitoral chileno] serão corretos”. “Mas se o resultado for muito apertado, os fiscais de mesa terão um papel importante, e essa eleição poderia ser definida nos tribunais eleitorais.”

 

 

O próximo presidente do Chile assume em 11 de março de 2022 com uma lista de desafios evidentes: acabar com o neoliberalismo imposto pela ditadura do  general Augusto Pinochet entre 1973 e 1990. Pinochet liderou um golpe militar que, segundo estudos, vitimou mais de 100 mil pessoas.

 

 

Um relatório oficial apresentado pela Comissão Valech, em 2011, constatou que nos 17 anos que governou o Chile com mão de ferro para implantar o neoliberalismo no País, sempre financiado e orientado pelos EUA,  Pinochet mandou executar, desaparecer e torturar 40.280 pessoas. Dentre as vítimas das execuções sumárias, está o cantor e compositor popular Victor Jara e o ex-presidente da República Salvador Allende.

 

 

Boric terá a missão de reconstruir um país que passou mais de três décadas dominado pelo neoliberalismo. Totalmente destruído. Entre a série de problemas a lidar estão a responsabilidade de iniciar a reforma da previdência, principal anseio dos chilenos, a crise econômica do país, a continuidade da política de combate à pandemia de coronavírus, o encaminhamento do processo da Assembleia Constituinte e a tentativa de estabelecer uma relação harmoniosa com o Congresso, no qual não há uma maioria clara.

 

 

Frente à pior recessão em décadas, a economia aparece como a questão mais latente. O PIB encolheu 6 pontos percentuais em 2020, devido ao impacto da Covid, que também causou a perda de 1 milhão de empregos, e o nível de pobreza, por sua vez, foi de 8,1% em 2019 para 12,2% em 2021.

 

 

Embora seja esperado um crescimento de 5,5% do PIB em 2021, a recuperação ainda é frágil e lenta para atender ao aumento das necessidades sociais e dos gastos feitos pelo Estado para minimizar o impacto da pandemia. A inflação pode superar os 6% neste ano, dobro da meta estabelecida pelo Banco Central.

 

 

Ainda na área econômica, o governo terá de lidar com os efeitos da retirada de US$ 50 bilhões dos fundos privados de pensão, liberados pelo Congresso na pandemia, contrariando o presidente Sebastián Piñera.

 

 

Da relação do governo com o Congresso depende o sucesso das negociações para aprovar as reformas e definir os próximos passos da Assembleia Constituinte. Espera-se que o plebiscito para aprovar ou rejeitar a nova Carta ocorra em outubro, e a nova Constituição pode ter entre seus artigos a mudança do sistema presidencialista para o parlamentarista, ou mesmo a redefinição da duração do mandato do presidente.

 

 

Neste caso, o mandatário eleito poderia ter de convocar novas eleições ou sair do cargo antes do previsto.

 

 

O sucesso do Chile na campanha de vacinação contra a Covid também representa um alto patamar a ser mantido. O país tem 85,7% da população com duas doses, e 51,2%, com três. Segundo apuração da Folha de S. Paulo, Rodrigo Yáñez, subsecretário de economia do Ministério das Relações Exteriores, afirmou que o país tem vacinas suficientes para terminar a imunização com a dose de reforço e iniciar a aplicação da quarta dose, mas que é necessário começar as negociações para a campanha no segundo semestre do ano que vem.

 

Alguns pontos do programa de governo de Boric:

 

1. três reformas que ele considera essenciais: previdência, saúde e educação

2. outras três temáticas que permeiam as propostas: feminismo, crise climática e trabalho digno

3. amplia a participação do Estado para o bem-estar social

4. há elementos mais moderados em seu programa, como a reforma tributária
mudança do sistema de pensões



Texto do G1 e Folha de S. Paulo com edição do Jornal Brasil Popular

 

Foto da capa/legenda: O candidato à Presidência Gabriel Boric faz selfie com apoiadores em Punta Arenas, onde votou – Juan Carlos Avendano/Reuters

 

 



 

 

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