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Chega ao Brasil a 1º escola chinesa: uma história sobre excelência, superação e soft power

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A primeira escola da China em um país estrangeiro, a Escola Chinesa Internacional (ECI), foi inaugurada no Rio de Janeiro. Nesta reportagem especial, a Sputnik Brasil investigou de que forma o governo da China usa a educação como ferramenta de Soft Power, visando expandir sua influência na América Latina.

 

Embora o soft power (também chamado de poder brando) seja apresentado sob diferentes aspectos, há categorias de poder que são amplamente conhecidas: econômica, militar e cultural. Não se nega que todas três são importantes, cada qual com suas atribuições e objetivos. Porém, é justamente a questão cultural que tende a ser negligenciada, sobretudo quanto ao seu alcance e influência.

 

Não é de hoje que os chineses entendem seu papel hegemônico no mundo. Desde que a China foi alçada à condição de potência global, Pequim entende o poder brando como uma ferramenta que pode ajudar a mitigar, a longo prazo, a teoria da “ameaça da China”, bastante difundida na América Latina e na União Europeia. O país quer convencer a comunidade internacional da natureza pacífica da sua ascensão, e as oportunidades que representa para seus parceiros comerciais.

 

 

É neste contexto que chegou ao Brasil, no início de 2021, a Escola Chinesa Internacional (ECI). Criada com o apoio financeiro de empresários chineses e do Consulado Geral da China no Rio de Janeiro, o objetivo desta instituição, descrito no site da ECI, “é proporcionar um ensino de referência internacional no Brasil, seguindo o modelo da educação básica da China, a fim de revelar talentos excepcionais”. A instituição enfatiza, ainda, que esta é a primeira escola chinesa em um país estrangeiro, dando a entender que onde nasce uma, em seguida aparece outra.

 

Crianças em idade escolar usando máscaras fazem fila para cruzar um entroncamento de tráfego movimentado em Pequim na quinta-feira, 29 de abril de 2021
© AP PHOTO / NG HAN GUAN Crianças em idade escolar usando máscaras fazem fila para cruzar um entroncamento de tráfego movimentado em Pequim na quinta-feira, 29 de abril de 2021

 

Nesta reportagem especial, a Sputnik Brasil investigou o que representa a chegada dos chineses à educação infantil no Brasil, e de que forma o ensino escolar pode influenciar positivamente a imagem da China em um país cujo presidente insiste em uma retórica xenófoba, partilhada, inclusive, por parte de seu eleitorado e alguns ministros.

 

Conversamos com o professor Marcos Cordeiro Pires, da Unesp, especialista em relações internacionais, para entender os efeitos do poder brando de Pequim. Além dele, a diretora da ECI, Yuan Aiping, e o professor de história da instituição, Lucas Melo, falaram sobre o trabalho que é desenvolvido pelo colégio.

 

O ensino chinês

 

Em junho de 2019, a maioria dos jornais brasileiros noticiou: “China é destaque na avaliação PISA; Brasil entre os piores na educação”. A manchete foi o retrato de um paradigma social antigo e conhecido pelos brasileiros: o déficit do sistema educacional no país. As universidades de Tsinghua e Pequim figuram entre as 20 melhores do mundo, segundo levantamento da Times Higher Education World University Rankings. A publicação não cita uma que seja do Brasil.

 

 

Foto em grupo antes da cerimônia de abertura oficial do programa acadêmico na Universidade Tsinghua, em Pequim, em 2016.
Nesta foto de 10 de setembro de 2016, os membros do Schwarzman Scholars fazem fila para uma foto em grupo antes da cerimônia de abertura oficial do programa acadêmico na Universidade Tsinghua em Pequim. Um programa de estudos em uma universidade chinesa de elite inspirado na prestigiosa Bolsa de Estudos Rhodes lançou seu segundo ano na sexta-feira, 8 de setembro de 2017, com uma doação de mais de US $ 500 milhões e um aumento considerável nas inscrições.

 

Neste sentido, é importante fazer uma ressalva para compreender-se melhor o Brasil. A nota das escolas particulares de elite do país o colocaria na 5ª posição do ranking mundial de leitura do PISA, ao lado da Estônia, que tem o melhor desempenho da Europa. Já o resultado isolado das escolas públicas estaria 60 posições abaixo, na 65ª, entre 79 países. A nota geral do Brasil está entre as mais as baixas do mundo nas três áreas avaliadas, leitura, matemática e ciência.

 

É também neste cenário que desembarcou no Rio de Janeiro a ECI, para competir com as principais escolas de elite do país, que em nada deixam a desejar às outras no mundo, como atestam os exames do PISA. Comentando o sucesso prematuro da escola chinesa, a diretora Yuan Aiping sentenciou: “O governo da China abriu uma escola para filhos de imigrantes, e filhos de executivos, filhos dos trabalhadores chineses que estão no Brasil, e a gente jamais poderia imaginar que seríamos abraçados desta maneira. Hoje, a imensa maioria de alunos são de filhos de brasileiros”.

 

Meninas fazem exercício durante aula da ginástica na escola de esportes em Xangai, China
© REUTERS / ALY SONG Meninas fazem exercício durante aula da ginástica na escola de esportes em Xangai, China Questionada sobre a eficiência do modelo de ensino chinês, a diretora Yuan Aiping apresentou uma explicação. “Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que o governo chinês incentiva a educação. Sempre se falou que a China é um país muito pobre, porém, desde que a China sofria com altos índices de desigualdade social, os professores eram bem remunerados. A China sempre priorizou esses profissionais. Na China há um ditado. O professor é a profissão mais brilhante, apenas abaixo do Sol”.

 

 

Para ela, os resultados destas políticas públicas são visíveis, “a China está sempre à frente no PiSA, e principalmente nas olimpíadas de matemática: quem sempre ganha medalhas é a China”. Ela também descreveu as aulas na ECI. “De manhã, às 7 horas começa a aula. Quando chega meio-dia, todos os nossos alunos almoçam no colégio. Eles descansam, e depois voltam às aulas, até 17h30″, disse ela, enfatizando que caráter integral do colégio é um diferencial em seu modelo de aprendizagem. Mas não é só isso.

 

“Outro ponto que deve ser enfatizado é o espírito de competição da China. O brasileiro não tem esse espírito de competição. Na China, ou você é o primeiro lugar, ou não tem parabéns. Não há cultura do segundo lugar. Na China, por causa da quantidade de pessoas que moram no país, é preciso ser o melhor sempre”, comentou.

 

Ela também afirmou que “o governo chinês estimula uma educação muito rigorosa”, e que um diferencial que ela pode notar entre China e Brasil é o respeito à figura do professor. “Aqui nós tivemos que ensinar o aluno brasileiro a respeitar o professor. A não falar enquanto um profissional fala. São pequenas mudanças. Mas que fazem a diferença no resultado final”.

 

Crianças em frente a uma cisterna para captação de água instalada em uma escola rural em Caraúbas, Rio Grande do Norte.
ASA BRASIL Crianças em frente a uma cisterna para captação de água instalada em uma escola rural em Caraúbas, Rio Grande do Norte

 

Tecnologia a serviço da educação

 

Brasileiro e professor da ECI, Lucas Melo falou sobre sua experiência na escola. “Na minha carreira foi um impacto muito grande. Nós não adotamos livros didáticos externos, e todo o material é reproduzido aqui na Escola Chinesa Internacional. Nós temos recursos, computadores, tudo que a gente precisa”.

 

Ele entende que há algumas mudanças no ensino praticado pela instituição chinesa. Segundo ele, uma primeira “adaptação foi a de tecnologia. Aqui nós temos um quadro da Huawei e cada aluno tem um tablet. Então há uma série de recursos que a gente pode trabalhar com eles”.

 

Ele revelou que, “recentemente, nós tivemos o aniversário de 60 anos da viagem do astronauta Yuri Gagarin. Nós usamos os equipamentos da Huawei para apresentar diversos mapas aos alunos, material da NASA, baixado on-line, antigos ônibus espaciais. Foi uma palestra com material muito vasto. Em uma escola normal, como os alunos não falam inglês, eu teria que traduzir o material todo”.

 

 

Cosmonauta Yuri Gagarin na espaçonave Vostok-1 antes do lançamento do cosmódromo de Baikonur, 12 de abril de 1961
© SPUTNIK / ALEKSANDR MOKLETSOV Cosmonauta Yuri Gagarin na espaçonave Vostok-1 antes do lançamento do cosmódromo de Baikonur, 12 de abril de 1961 Questionado sobre a metodologia da ECI e as diferenças com os critérios pedagógicos praticados no Brasil, o professor disse que “dentro do conteúdo de história e geografia, o diálogo é essencial. E é nessa parte que entra a sinergia. Com os ensinamentos de Confúcio. A gente não pode dar a resposta inteira. É preciso permitir ao aluno chegar às suas próprias conclusões”. Ele lembrou que a escola chinesa pratica o Ensino Montessori, onde a autoeducação é a principal característica. Nesse sentido, a criança é vista como personagem importante e com papel ativo no processo de construção para o mundo.

 

 

A Sputnik também perguntou ao professor se ele teria algum problema em ministrar aulas de história, sobretudo em como lidar com a ocidentalização dos fatos históricos. Ele explicou que, no momento, “dou aula de história do Brasil. A gente precisa aprender essa matéria de acordo com o que dizem os historiadores do país dizem a respeito, como na questão do Yuri Gagarin. A gente vai pegando os conteúdos e adequando aos conceitos dos países. Se preciso, fazemos até aulas de inglês”.

 

 

Estudantes resistem à invasão da Tropa de Choque da PM de São Paulo na escola ocupada Centro Paula Souza (foto de 2 de maio de 2016)
ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL/FOTOSPÚBLICAS Estudantes resistem à invasão da Tropa de Choque da PM de São Paulo na escola ocupada Centro Paula Souza (foto de 2 de maio de 2016)

 

 

A educação como ferramenta de soft power

 

O professor Marcos Cordeiro explicou que, na teoria nas relações internacionais, existem dois poderes: o Hard Power (militar, econômico, produtivo), e o poder brando, da cultura, de influenciar pessoas.

 

“Quando a gente pensa em um país que é muito distante, com um sistema político diferente, como é o caso da China, com absoluta certeza a questão da educação, e essa questão das vacinas é muito importante, também, assim como a culinária, a religião, e o próprio idioma, tudo isso faz parte de um pacote muito interessante que facilita o contato entre os povos, e é claro que também facilita a influência, que é o objetivo da China”, afirmou.

 

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