Reportagem do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF) revela o número assustador e a tragédia anunciada: as aulas presenciais irão aumentar ainda mais a Covid-19 e suas consequências na capital do País

 

No dia 23 de agosto, o professor Josias Salgado retomou as atividades presenciais. Foi a primeira vez, desde março de 2020, que ele saiu do trabalho remoto e entrou novamente no CED São Bartolomeu, no qual acompanha cerca de 100 estudantes da Unidade de Internação de São Sebastião. Três dias depois, na quinta-feira da semana que Josias retomou o trabalho in loco, o professor, vacinado e fiel cumpridor dos protocolos de segurança sanitária, começou a sentir dores no corpo. Ao aferir a temperatura, o termômetro marcou quase 38 graus. Ele ainda não sabia, pensava que era uma gripe; mas estava com Covid-19.

Para Josias foi difícil acreditar no exame PCR-RT, que saiu, nesta segunda-feira (1º/9), comprovando a infecção pelo coronavírus, que já tirou a vida de mais de 10 mil pessoas só no Distrito Federal, mais de 580 mil em todo Brasil. Ele, que seguiu, criteriosamente, as recomendações de segurança sanitária durante todo o período da pandemia, disse que jamais imaginou que seria mais uma vítima da Covid-19 ao retornar presencialmente à escola. De dentro do hospital, com medicação venal para normalizar a pressão arterial, o professor disse pelo telefone que está “abalado, preocupado”.

A esposa de Josias, de 49 anos, vacinada contra Covid-19, e o filho, de 9 anos, que está em aula presencial, também apresentaram sintomas semelhantes ao do professor. “Faltar para a família é o meu maior medo”, desabafou Josias, que preferiu não divulgar o nome verdadeiro por medo de retaliação ao falar sobre os problemas inseridos na equação volta às aulas presenciais e Covid-19.

O cenário de angústia imposto ao professor Josias e à sua família não é caso isolado. Quem frequenta as escolas públicas do DF vem vivendo o mesmo pesadelo desde que o governo Ibaneis Rocha (MDB) determinou o retorno presencial das aulas, em 5 de agosto. Segundo levantamento realizado pelo Sinpro-DF, em 16 dias, o número de escolas com casos de Covid-19 aumentou em mais de 335%. No dia 16 de agosto, 14 escolas registraram pelo menos uma pessoa infectada pelo novo coronavírus. Até o fim da tarde desta segunda-feira (1º/9), o número chegou a 61 escolas (veja lista completa no fim da matéria).

“Por um lado, a gente vem vendo os casos de Covid-19 aumentando de forma assustadora nas escolas e, por outro lado, não vemos ainda um empenho adequado do Governo do Distrito Federal em mitigar o risco de infecção pelo coronavírus no ambiente escolar. Embora o Sinpro-DF venha fazendo uma série de cobranças, levantadas em reuniões com delegados sindicais e com gestores, ainda não há um protagonismo de atuação do governo. Medidas básicas para coibir a proliferação do novo coronavírus, como testagem em massa, não vêm sendo adotadas nas unidades escolares”, denuncia Rosilene Corrêa, diretora do Sinpro-DF.

A diretora ressalta que, num esforço contínuo em defesa da vida, o Sinpro-DF está em negociação permanente com a Secretaria de Estado de Educação (SEE-DF). “Desde o início da pandemia, em março de 2020, garantias importantes foram conquistadas, como o ensino remoto – que durou por quase um ano e meio –, a vacinação de todos os trabalhadores em educação e a garantia do emprego de 11 mil professoras do regime de contratação temporária. Entretanto, outros pontos essenciais reivindicados pelo sindicato continuam sem resposta”.

O Sinpro-DF elaborou uma série de cartazes que orientam a comunidade escolar sobre como mitigar os riscos de infecção da Covid-19, os quais foram fixados nas unidades escolares. “A gente precisa que o GDF apresente um protocolo de segurança sanitária específico para a educação. As escolas têm singularidades, peculiaridades. É necessário que gestoras e gestores tenham a segurança ao implantar medidas e ao constatar casos de Covid-19″, afirma Rosilene.

Ela informa que “hoje, cada caso de infecção constatado é avaliado de maneira individual pela Secretaria de Educação. Em alguns casos, a escola fecha completamente; em outros, não. Ao mesmo tempo, o que se observa é uma espécie de tentativa de transferência de responsabilidade administrativa do Governo do Distrito Federal (GDF) para a equipe gestora. Tudo isso pode prejudicar ainda mais o esforço para conter a proliferação do vírus”, explica a diretora.

De acordo com a sindicalista, o Sinpro-DF também apresentou, reiteradamente, a solicitação de testagem em massa e publicação dos dados referentes à Covid-19 nas escolas públicas do DF. “Até agora, o Sinpro-DF, a comunidade escolar e a população em geral não tiveram acesso, de forma detalhada, aos dados sobre casos dessa doença nas unidades escolares”, afirma.

Fora da lei

Segundo a Lei de Acesso à Informação (LAI, de 2011), informações de interesse público, como é o caso dos dados sobre a Covid-19 nas escolas, devem ser, obrigatoriamente, divulgadas por órgãos e entidades públicas, em local de fácil acesso.

“A falta de informações impede as pessoas de tomarem decisões acertadas. Quando se trata de saúde, impede que as pessoas tomem decisões informadas sobre a própria saúde. Isso tem que ver com prevenção e controle. As pessoas não conseguem se prevenir do contágio e nem impedir que outras pessoas sejam infectadas sem essas informações”, explica Júlia Rocha, coordenadora da equipe de acesso à informação da Artigo 19, Organização Não Governamental (ONG) de direitos humanos que atua na defesa do direito à liberdade de expressão e ao acesso à informação em todo o mundo.

Segundo ela, a ausência de dados ameaça a população e interfere na atuação do setor público. “Sem esses dados publicados, ou sem a produção desses dados, não há como se avaliar onde é mais seguro as pessoas estarem; ou se a escola que elas frequentam enquanto estudantes está segura de fato. Além disso, também não tem como os servidores públicos manejarem recursos dentro do setor público para efetivar políticas mais eficientes de controle”, esclarece.

A falta de informações oficiais sobre casos de Covid-19 nas escolas e do cumprimento integral de protocolos de segurança no retorno presencial às aulas não é exclusivo do Distrito Federal. Heleno Araújo, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE),  disse que esse é um perfil da maioria dos estados brasileiros.

“Não há um cadastro específico da situação [da Covid-19] com o retorno presencial às aulas, não há transparência na informação e o que está escrito nos protocolos de segurança não acontece de fato. Quando se identifica um caso, muitas vezes, não se fecha a escola; não há rastreamento, não há testagem”, afirma.

Equipes gestoras das unidades escolares vêm fazendo todos os esforços para conter a proliferação do vírus em sala de aula. Mas o empenho do GDF não acompanha

Araújo ressalta que, assim como é essencial a vacinação de trabalhadores em educação, é também imprescindível a testagem em massa nas escolas. “Precisamos da testagem da comunidade escolar para acompanhar de fato os casos e saber, incluindo aí, quando o vírus se manifesta em pessoas assintomáticas”, afirma.

Embora o GDF venha tentando “normalizar” o cenário que ameaça, diariamente, a vida da população, o DF registrou, nesta segunda-feira (1º/9), 1.185 novos casos de infecção pelo coronavírus. Segundo informações da imprensa, o DF e o Rio de Janeiro já enfrentam a terceira onda da pandemia com a variação Delta, mais contagiosa, aumentando o volume de contaminados, o número de pessoas com a doença e o aumento das mortes por Covid-19. No total, já foram notificados 471.656 caos de pessoas com Covid-19. Somente nesta segunda, mesmo com o avanço da campanha de vacinação, oito pessoas morreram vítimas de complicações da doença. Em menos de 2 anos, mais de 10 mil vidas já foram perdidas.

 

Lista das escolas que registraram casos de Covid-19

1 – Jardim Infância 308 Sul
2 – CEI 416 Santa Maria
3 – CEI 08 Taguatinga
4 – CEI 307 de Samambaia
5 – EC 102 Sul Plano Piloto
6 – CED 02 RF 1
7 – EC 415 Samambaia
8 – EC 100 Santa Maria
9 – EC 308 Sul do Plano Piloto
10 – EC 55 de Taguatinga
11 – EC 121 Samambaia
12 – CAIC UNESCO São Sebastião
13 – CAIC Walter José de Moura de Taguatinga
14 – CAIC Bernardo Sayão Ceilândia
15 – CAIC Paranoá
16 – Escola Classe 305 Sul
17 – CAIC de Sobradinho II
18 – Cei 04 de Taguatinga
19 – JI 108 Sul
20 – CEI Galvão
21 – EC 13 de Ceilândia
22 – CED Myrian Ervilha
Recanto da emas
23 – CAIC Helena Reis
24 – CED AGROURBANO
25 – EC 38 Ceilândia
26 – CEF 507 de Samambaia
27 – EP 308 Sul
28 – CEF 312 de Samambaia
29 – EC RCG do Plano Piloto
30- EC 410 de Samambaia
31- CED São Bartolomeu de São Sebastião
32- EC 218 Santa Maria
33 – CEF 214 sul
34 – CEF 102 Norte
35- CED Vargem Bonita
36 – EC 115 Norte
37- CEF 410 Norte
38- EC 203 Santa Maria
39 – CEMUB – Centro de Ensino Médio Urso Branco
40 – CED Queima Lençol de Sobradinho
41 – CEF 206 Recanto das Emas
42 – CEF 08 Guará
43 – CED 01 RF 2
44 – CEF 14 Ceilândia
45 – CEMI Gama
46 – EC 43 Ceilândia
47 – EC 08 Guará
48 – Colégio da Polícia Militar CEd 01 da Estrutural
49- CEF 11 de Taguatinga
50 – CEAN
51 – CEMAB
52- CILG Guará
53 – E. C 01 de Brazlândia
54 – CEM 414 de Samambaia
55 – EC 510 Recanto das Emas
56 – EC 304 Norte (PP)
57- CAIC Assis Chatreaubriand de Planaltina
58- CEF 16 de Taguatinga comunicou agora que a escola tem dois casos confirmados
59- EC 405 norte PP
60- CEMJK – Candangolândia
61 – CEIC – Candangolândia

Fonte: SINPRO-DF