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Capitalismo brasileiro sonhado por Covas esfumaçou

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PSDB caminha para Lula

Bruno Covas(1980-2021), ex-prefeito de São Paulo, tinha muitos sonhos, talvez o maior deles o que sonhava seu avô Mario Covas(1930-2001), governador paulista, seu ídolo: construir e consolidar o capitalismo nacional, mais, precisamente, o capitalismo industrial paulista, mediante receita liberal, antigetulista, dependente, com ideologia importada do império, segundo a qual a vocação do Brasil, historicamente, é a de ser permanentemente linha auxiliar do sistema capitalista americano; essa sempre foi a pregação de FHC, ideólogo tucano maior, teórico da dependência, na linha da Cepal; para o ex-presidente social democrata do PSDB, que apoiou o bolsonarismo contra petismo em 2018, a revolução getulista de 1930, que lançou bases da construção do Estado nacional, contrariava e contraria o aliado maior dos tucanos, os Estados Unidos, aos quais presta serventia, desde sempre; o sonho do avô de Bruno Covas e do PSDB, do qual foi um dos criadores mais destacados, era, portanto, industrialização sem Getúlio.

 

Escravo da Doutrina Monroe

Sobretudo, os tucanos são adeptos maiores da Doutrina Monroe, de 1823, da América para os americanos, calcada, aliás, na ideologia utilitarista-imperialista inglesa; um ano depois da Independência, em 1822, sob pressão de Londres e da libra esterlina, os americanos lançaram essa doutrina imperial, para América Latina, como imperativo categórico kantiano; ela batia de frente com os ideais do Patriarca da Independência, José Bonifácio(1763-1838), que alimentava, desde a chegada de Dom João VI, no Brasil, em 1808, o sonho do Estado nacional soberano, para enfrentar o imperador Napoleão Bonaparte; o império português seria, na pregação bonifaciana, reorganizado no Brasil, para ser grande adversário do ditador napoleônico, derrotando-o; o sonho de Bonifácio não se consolidou, devido à Doutrina Monroe, que esmagou seu sonho nacionalista, derrotado pelo poder das oligarquias agrárias escravocratas, aliadas, primeiro, do império inglês, durante o reinado, e, depois, dos Estados Unidos, a partir da vitória da República, no final do século 19; desde então, sem chances de materializar a geopolítica defendida por Bonifácio, encarcerado, no final da vida, pelos oligarcas, o Brasil se distanciou da industrialização, retomada, apenas, com a revolução de 1930, com os tenentes e Getúlio Varga , herdeiro ideológica de Bonifácio.

 

Capitalismo mercantilista colonizado

Contra ambos – Bonifácio e Getúlio, cultores dos mesmos ideais de construção de um Brasil nacionalista soberano -, os oligarcas, na Monarquia e na República, com a força financeira do café paulista, mandando na República Velha, subserviente ao poder anglo-americano, resistiram ao pensamento do Brasil independente; para continuarem no poder e usufruírem da condição de grandes exportadores para as maiores potências, Europa e Estados Unidos, os oligarcas do café consideram-se linha auxiliar do desenvolvimento dependente, teorizado, mais tarde, por FHC, para viabilizar-se candidato algum dia com apoio de Washington; o jogo da dependência oligárquica implicaria na importação preferencial da ideologia mercantilista contrária à industrialização tão sonhada por Mario Covas, na sua formação política social democrata; até hoje lê-se na grande mídia, porta-voz do império, o ponto de vista imperialista de que substituição de importação é atraso e não progresso, que livraria efetivamente o Brasil da condição de colônia econômica e financeira do império; Getúlio nadou contra a corrente mercantilista, na defesa da industrialização, isto é, da substituição das importações, sendo, por isso, considerado por FHC, promotor do atraso, não do progresso. A história, agora, está a demonstrar o equívoco dos falsos diagnósticos mercantilistas defendidos pelos industriais paulistas e seus ideólogos, como FHC e sua teoria da dependência, essencialmente, antigetulista; na prática, ela inviabilizaria o sonho de Mario Covas de construção do capitalismo paulista com dinheiro emprestado dos bancos internacionais a juros flutuantes em meio à liberação da total entrada e saída de capitais. Covas parece que jamais lera os nacionalistas da direita democrata europeia – bem como nacionalistas japoneses – de que o capital, para industrializar o país, se faz em casa, mediante política social democrata.

 

Plano Real antidesenvolvimentista

Os tucanos paulistas, na Era FHC, fizeram de tudo para enterrar Getúlio, na tarefa de prestar serviço ao império, de modo a destruir riqueza primitiva brasileira(matérias primas), associada à construção industrial, embalada pela Petrobrás; com ela, Getúlio vislumbrava metralhadora giratória nacionalista de conquista mundial pela engenharia de serviços, especialidade desenvolvida pela ideologia nacionalista intrínseca ao avanço da indústria petrolífera, capaz de promover integração econômica nacional e latino-americana; a industrialização sem Getúlio, que os tucanos tentaram implementar, equivocadamente, trabalhando para o império, na base da alienação anti-construtivista, deu, na Era FHC, com os burros nágua; a rendição tucana ao Consenso de Washington, imposto depois da queda dos ditadores militares nacionalistas, foi o freio definitivo à pregação de Mário Covas em favor da construção da industrialização soberana; com o Plano Real de FHC, aprofundaram as bases do anti-desenvolvimentismo dependente, hoje, repudiado por dissidentes tucanos como André Lara Resende; a expressão maior da macroeconomia do capitalismo dependente fernandino é a taxa de juro praticada por FHC para promover financeirização econômica especulativa para fortalecer o real fictício; os tucanos a fixaram em patamar bem superior ao crescimento do PIB, cujo resultado, prático, foi ultraconcentração de renda, desigualdade social, instabilidade monetária crônica e fuga de capitais; com a promessa de falsa industrialização jamais cumprida porque ela, na verdade, revelou-se em seu contrário, em antiindustrialização acelerada, os tucanos migrariam da social democracia, que nunca exercitaram, para o neoliberalismo, que o enterraram.

 

 

Retrocesso tucano e adeus ao poder

O tucanato neoliberal, que se antecipou ao ultraneoliberalismo de Paulo Guedes, revelou-se atraso e retrocesso relativamente a Getúlio, na medida em que acelerou desconstrução do Estado nacional; perdeu sentido, com os tucanos, no poder, a máxima de Mario Covas de que o que realmente faltava no Brasil era mais capitalismo liberal e não nacionalismo getulista; com os tucanos e, na sequência, com os bolsonaristas, apoiados, em 2018, por eles, o Brasil retrocede à condição de colônia; os tucanos jamais chegaram ao poder, depois do reinado de FHC – 1994-2002; disputaram e perderam 4 eleições para o PT, de 2003 a 2014; na última, em 2018, caíram com menos de 2% dos votos e buscaram aliança com a ultradireita para cumprir sua missão história de entregar o petróleo e a maior empresa brasileira ao capital externo, sem a qual a industrialização e o capitalismo sonhado por Mario Covas são sonho de noite de verão; Bruno Covas viveu para ver o sonho impossível de seu avô não se vingar, por trilhar , como o avô, caminho antinacionalista, na tarefa de servir, até o fim, subordinadamente, ao império americano; sua morte, tão jovem, coloca o dilema de o PSDB ter de fazer um refluxo histórico: ajudar Lula a novamente chegar ao poder ou desaparecer; FHC, anti-negacionista bolsonariano, já antecipa apoio a Lula, o que, certamente, faria Bruno Covas, como último ato para não enterrar de vez o PSDB na lata de lixo da história, como verdadeiro inimigo da industrialização brasileira.

(*) César Fonseca do site Independência Sul Americana

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