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Brasília, a capital dos muito ricos e dos muitos pobres

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Brasília ocupa o quarto lugar no ranking das capitais cuja renda é a mais alta. A média da remuneração na capital federal é de R$ 2.981. Só perde para Florianópolis (R$ 3.998), Porto Alegre (R$ 3.725) e Vitória (R$ 3.516), segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas feito em agosto passado. Entre todas as cidades do País, Lago Sul (DF) tem a maior concentração de renda do Brasil. Os mais ricos ganham, em média, R$ 23 mil mensais. Se considerar apenas os que declaram Imposto de Renda, a remuneração passa de R$ 38 mil.

 

 

Na capital do Brasil, a realidade social entre cidades próximas também é muito diferente. Enquanto uma família, no Lago Sul, chega a viver com uma renda superior a R$ 38 mil, em Taguatinga, por exemplo, cidade a pouco mais de 20 km do centro de Brasília, pessoas em condições de rua sobrevivem à margem de tudo. O Jornal Brasil Popular foi verificar como essas pessoas menos favorecidas estão sobrevivendo.

 

 

Josi, 58 anos, sem perspectiva de trabalho e renda, depende da caridade para se alimentar e dar de comer aos netos

 

 

Era quase 15h, de segunda-feira (21), quando o filho de 11 anos se aproxima e diz, “mãe, vamos almoçar”. Dona Josi, mulher de 58 anos, continua a entrevista e fala da vida difícil nos dias de pandemia. O caçula, de um total de oito filhos, segundo ela, insiste. “Vamos comer, mãe”. Ela então responde, “calma, filho. Não vê que estou falando com o homem?” O garoto pega um dos sanduíches que ganhou na rua e come. O outro, entrega à mãe, que divide com a neta, de 7 anos. Os três estão sentados na calçada ao lado de um mercado em Taguatinga Sul (DF).

 

 

É assim que a Dona Josi tenta conseguir algum alimento ou um dinheirinho extra para complementar a renda de R$ 150 do auxílio emergencial. Ela, que é catadora de recicláveis há 15 anos, conta que saiu de Santana de Ipanema (AL), em 2004, em busca de uma vida melhor na capital do Brasil. Hoje, mora numa ocupação irregular na Boca da Mata, em Taguatinga Sul, junto com outras 25 famílias. “Lá tem muitas crianças”, diz. Apesar da dificuldade em que se encontra, Dona Josi se emociona ao falar da situação precária de outras pessoas. “Ontem chorei ao ver uma mulher comendo só feijão. Eu sinto a dor dos outros também”.

 

 

Pertinho dali, no centro de Taguatinga, Ronaldo Nascimento de Jesus, 48 anos, divide espaço com outros moradores de rua na Praça do Relógio. Ele conta que vive assim há 25 anos. Sentado ao lado de um andador e mais afastado dos usuários de crack, diz ter sido atropelado cinco vezes e que, por isso, anda com dificuldades.

 

 

 

Jesus foi atropelado 5 vezes e tem dificuldade para andar. Pai de 3 e sem documentação, não recebe ajuda do GDF

 

 

 

Pai de três filhos, Jesus conta que, por problemas familiares, o casamento não deu certo. Com ar de orgulho, lembra que o pai é um renomado alfaiate em Brasília. Perguntado se tem vontade de deixar as ruas e voltar para a família, disse que já tentou e não deu certo. Sem documentos, ele não recebe nenhum benefício do governo. “Às vezes, aparece alguém e me dá uma muda de roupa e comida”.

 

 

Em Brasília, segundo o Governo do Distrito Federal (GDF), cerca de 2.200 pessoas em situação de rua são atendidas pelo Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas). Ao todo, 140 profissionais se dividem em 28 equipes, que dão atendimento humanizado a essa população em todo o DF.

 

 

Assim como a Dona Josi e Jesus, centenas de milhares de pessoas, no DF, tiveram as condições de vida piorada com a pandemia do novo coronavírus. A uma agência de notícia do GDF, a secretária de Desenvolvimento Social (Sedes), Mayara Noronha Rocha, que é mulher do governador Ibaneis Rocha (MDB), disse que são feitas “várias abordagens ao longo do mês”. Mas tanto Josi quanto Jesus disseram ao Jornal Brasil Popular que, há muito tempo, não recebem atendimento do governo.

 

 

A assistente social Patrícia Schettno, que trabalha no Abadião, em Ceilândia, cidade próxima a Taguatinga, afirma que os profissionais da abordagem do Sedes fazem o primeiro contato com as pessoas em condição de rua e remanejam, aqueles que quiserem, para uma das 11 unidades públicas de acolhimento em todo o DF. “Atendemos hoje a 186 homens no Abadião. Todos comem cinco vezes ao dia, dormem e tomam banho. O número de pessoas nessa situação aumentou muito com a pandemia e estamos fazendo o possível para lidar com todo esse público”, destaca.

 

 

A psicóloga Leiliane Novais, que também trabalha no Abadião, ressalta que o morador de rua precisa ser trabalhado como um todo, desde o seu psicológico, autoestima, resgate de valores até garantia de direitos. “São pessoas que chegam aqui com fome, precisando de roupas. Depois, precisamos entender o que levou cada uma dessas pessoas para as ruas e a partir daí tentarmos reinseri-las no seio familiar e no mercado de trabalho”, explica.

 

 

“É um trabalho constante. Ajudamos a conseguirem a documentação, benefícios, tratamento médico, odontológico, palestras. Nosso trabalho também consiste no resgate valores. Explicamos que eles têm direitos e deveres também. Isso porque temos regras e todos precisam entender e seguir”, acrescenta Leiliane.

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