O Brasil vive o pior momento da pandemia da Covid-19, com recordes diários de casos e mortes registradas. Nesta semana, chegamos a triste marca de mais de 2 mil mortes por dia, após um ano do decreto da pandemia. O Brasil, agora, é uma ameaça ao mundo. Nosso país tornou-se terra fértil para o surgimento de novas variantes da doença, que têm mostrado mais capacidade de transmissão, maior poder de infecção para o contágio e acometimento dos mais jovens.

 

 

 

Não acredito que o Brasil esteja vivendo a terceira onda da doença, porque não tivemos desde o início da pandemia a estabilização dos casos e mortes. Em 2020, ficamos por 14 semanas consecutivas com mais de mil mortes diárias, até tivemos redução, mas nunca um momento de estabilização e, agora, voltamos a ter crescimento significativo. Outro aspecto desse momento é que, pela primeira vez, todos os estados brasileiros estão com seus sistemas de saúde colapsados ao mesmo tempo, com mais de 70% dos leitos de UTI ocupados.

 

 

 

Algumas regiões estão apresentando 100% da capacidade de internação, fazendo com que milhares de pessoas precisem de leitos de UTI e não encontram. Pacientes estão internados em enfermarias, sem o cuidado adequado da terapia intensiva, bloqueando a possibilidade de remanejar pacientes entre regiões para garantir o atendimento.

 

 

Existe relação direta entre as decisões políticas e execuções do governo Bolsonaro no aumento dos casos e óbitos e na criação do ambiente para novas variantes, porque a mensagem pública do governo federal é de estímulo às aglomerações: não utilização de máscaras e questionamento das medidas de isolamento físico.

 

 

O governo brasileiro tem passado por cenas patéticas como, por exemplo, na comitiva chefiada pelo Ministro das Relações Exteriores em Israel, em que foi obrigado a utilizar máscara enquanto, aqui no Brasil, faz aparições e fotos sem o item de proteção. Essa postura infeliz é de uma parte da elite econômica brasileira que desrespeita regras e fomenta privilégios quando está no Brasil, mas que cumpre as exigências sanitárias quando está em países mais ricos. Outra asneira foi a declaração de um dos filhos do presidente, que aconselhou que o uso de máscara seja em um lugar onde ela não deve ser utilizada.

 

 

Avalio que chegamos nesse ponto por três atitudes de Bolsonaro: abertura irresponsável das cidades, estímulo às aglomerações e fechamento de leitos criados para o atendimento de pacientes com Covid-19.

 

 

Ao longo de 2020, 13 mil leitos foram abertos e 9 mil fechados no início deste ano pelo corte no envio de recursos pelo governo federal aos estados e municípios, o que contribuiu para o colapso do sistema de saúde.

 

 

A lista de responsabilização de Bolsonaro não acaba. A lentidão do calendário de vacinação é mais uma. Iniciamos a vacinação há quase dois meses e não vacinamos nem 5% da população, uma vergonha comparada com a tradição do nosso Programa Nacional de Imunização, que sempre foi amplo, com alto grau e volume de pessoas vacinadas.

 

 

Para se ter uma ideia, na pandemia de H1N1, em 2010, o país vacinou mais de 80 milhões de pessoas em três meses e 100 milhões em seis meses.

 

 

Enquanto isso o governo Bolsonaro, para atrasar ainda mais o plano de vacinação, se negou a incorporar vacinas para o Brasil doadas pelas empresas Pfizer e Johnson, que juntas ofereceram cerca de 100 milhões de doses, recusou a parceria com a vacina russa Sputnik, não tomou nenhuma atitude com relação a parceria na produção da vacina cubana Soberana e impede que os governos municipais e estaduais possam comprar vacinas para acelerar a vacinação.

 

 

Diante desse cenário aterrorizador e da pressão da sociedade e do Congresso Nacional, o governo aprovou medidas que aceleram a incorporação de vacinas e autorizam estados e municípios a comprarem doses. Além disso, também foi aprovado que o setor privado possa comprar vacinas, mas tem que doar 100% delas para o SUS. A defesa da vida venceu o genocídio de Bolsonaro.

 

 

(*) Alexandre Padilha é médico, professor universitário e deputado federal (PT-SP). Foi ministro da Coordenação Política de Lula e da Saúde de Dilma e secretário de Saúde na gestão Fernando Haddad na cidade de SP.