Prezado Jorge Luis Borges, considerando a sua terrível declaração de que “não há outra vingança nem outro perdão a não ser o esquecimento”, vimos até a presença da sua formidável memória, com a solenidade exigida pelo momento, para fazer este anúncio aos quatro ventos: enquanto estivermos vivos jamais nos vingaremos de você nem nunca lhe daremos perdão. Saiba que não acreditamos no deus que “concedeu ao ódio humano essa curiosa chave”. Não nos importa que você não tenha decifrado o “labirinto singular e plural, árduo e distinto, do tempo”. O que nos interessa é o Aleph que você guarda detrás das suas retinas opacas tão fatigadas, esse lugar que contém todos os pontos, onde se concentram todas as partes do mundo, todos os mares, desertos, florestas e cordilheiras, a aurora e a tarde, as estrelas, os planetas e seus eclipses, todos os espelhos e todas as fontes de luz, todos os tigres azuis e os furta-cores, inclusive os de papel, e, por óbvio, a sua biblioteca infinita, do tamanho do Universo, onde pretendemos esgotar o nosso “tempo que é único e é de todos”, como você nos ensinou. Nós, que não somos nada nem ninguém, passaremos aqui as tardes que nos restam ouvindo o eco da sua voz entrelaçada com as vozes de Homero, Epicuro, Lucrécio, Ovídio, Dante, Shakespeare, Spinoza, Emily Dickinson, Bertolt Brecht, Ho Chi Minh, Nicolás Guillén, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Freire, Alfonsina Storni – são tantos, são tantas! -, toda essa gente que cativa pedaços da eternidade e nos guia na leitura do mundo.

Cordialmente etc.,

Brasília, 24 de agosto de 2021, no 122º ano do seu nascimento.