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Bolsonaro triplica sua aposta no confronto com as instituições

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Ao que tudo indica, Bolsonaro quer seguir cada vez mais a cartilha do confronto com as instituições. A intenção já está cada vez mais clara: pôr a culpa de suas irresponsabilidades em um suposto inimigo. No último pronunciamento em rede nacional, duplicou a aposta no corriqueiro confronto; e agora triplica sua aposta.

 

Com a ajuda dos filhos, conforme revelado em matéria da _Folha de S. Paulo_ de quinta-feira (26/03) “Filhos de Bolsonaro atuam em gabinete paralelo para tentar reverter desgaste do pai” (https://bit.ly/2WJYxmx), o ex-capitão quer que sua base eleitoral acredite que a culpa pela crise no País, sanitária ou econômica, seja atribuída aos governadores, ao Parlamento, à imprensa e, até mesmo à justiça.

 

O que ele não sabe, ou finge não saber, é que isso está cada vez mais claro. As pessoas e a sociedade não enxergam nele a suposta credibilidade que possuía em 2018, quando o “inimigo” era apenas o PT. Seu poder político parece ir cada vez mais rápido pelo ralo.

 

Sustentado pelos três patetas – Dudu Bananinha, Carluxo e Flávio “Queiroz” – Bolsonaro busca construir os eixos de sustentação do seu poder. Vale aqui a seguinte ressalva: essa família acredita que, pelo simples fato de ter o cargo mais importante do País em suas mãos, eles podem fazer tudo o que querem.

 

Os eixos de atuação de Bolsonaro estão alicerçados no princípio de demonstrar força e em enfrentar o natural declínio de popularidade durante a crise do coronavírus. Do ponto de vista ideológico, busca de todas as maneiras, via narrativas ou atos oficiais, reforçar sua aliança com evangélicos, agropecuaristas e caminhoneiros, conhecidos apoiadores de sua gestão e, também, de sua campanha eleitoral. Do ponto de vista econômico, mobiliza os mesmos empresários que a ele deram suporte na disputa eleitoral.

 

Apesar das perdas já reais, como estar apenas com quatro dos 15 governadores que o apoiaram em 2018, e por ter sido abandonado por personalidades de expressão, Bolsonaro vem acreditando que sobreviverá até o segundo semestre deste ano. Para tanto, conta com o respaldo da rede que o acompanha desde a campanha eleitoral de 2018 para municiar a militância digital, cuja coordenação de suas intervenções é sabidamente exercida por Carluxo.

 

Portanto, assim como nas eleições de 2018, tanto Bolsonaro quanto o chamado gabinete do ódio, buscam organizar manifestações se utilizando da estrutura do Estado – via campanha institucional contratada sem licitação (https://glo.bo/2xrMqQn) –, e na conhecida força digital que possui junto ao núcleo olavista.

 

Apesar de não se conhecer seus financiadores, a estrutura que se vê pelos diversos locais do Brasil é robusta: carreatas, trios elétricos e buzinaços apontam para o risco de convulsão social, em uma real campanha de manifestações contra a quarentena (https://bit.ly/2Jg6hVk).

 

É no tom de ações e manifestações “voluntárias”, como fez durante o pleito eleitoral, que Bolsonaro busca disseminar vídeos, relatos de manifestações e depoimentos dramáticos em todo o País, pedindo a reabertura do comércio, indústria e serviços.

 

Desde o começo da crise do coronavírus, Bolsonaro já demonstrou não ser capaz de lidar com pressões e com a realidade socioeconômica que afeta o Brasil (e o mundo!). E busca fazer isso com ações conflituosas em seu (des)governo, como aponta o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e especialista em estratégia militar, em entrevista ao _El País_, em outubro de 2018 (https://bit.ly/2ydOHz7): “O padrão é sempre aparecer com uma ordem semanticamente paralela à desordem anterior. Se há uma desordem, digamos hipoteticamente, lançada por meio de uma contradição em um assunto econômico como, por exemplo, Paulo Guedes dizendo “vou privatizar tudo”, Bolsonaro reage com um ‘não vamos privatizar as empresas estratégicas’ e, posteriormente, a questão é resolvida com um ‘vou acabar com o problema da violência’.”

 

A todo tempo, Bolsonaro e sua equipe buscam testar os limites do Congresso, da Justiça e da democracia. Essa é uma prática bem comum neste governo: primeiro diz algo, depois diz que não disse, depois usa as redes sociais digitais para dizer que nunca fez e, por fim, culpa o suposto inimigo.

 

A aposta do ex-capitão e de sua família é alta e deve custar muitas vidas. Ficam, no entanto, as seguintes perguntas: as instituições serão capazes ou corajosas o suficiente para impor limites a esse _modus operandi_ de Bolsonaro? Nossa justiça terá coragem de enfrentar essa realidade? Apenas o tempo irá nos responder e, até lá, espero que tenhamos sido capazes de salvar o maior número possível de vidas.

 

Efraim Neto / *Veredas Inteligência Estratégica* / www.veredasie.com.br
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