Qualquer pessoa que prefira fuzil a feijão, provavelmente nunca viu a fome de perto. Quem faz discursos machistas, decerto nunca ficou entre a vida e a morte após levar violentos golpes gerados exclusivamente por uma condição de gênero. Quem tenciona a redução do mercado de trabalho, certamente não sofreu a angústia do desemprego. Quem faz corrupção com vacina contra a covid-19, presumidamente não foi devastado pela tristeza de ver um filho morrer por uma doença que pode ser evitada. Quem faz especulação com a educação pública, seguramente não viveu o desafio de aprender a escrever o próprio nome depois dos 50 anos ou de encontrar na escola a esperança de dias melhores.

 

De forma indignante, hoje, o Brasil é marcado por 20 milhões de pessoas que passam fome; pelo crescimento dos casos de violência contra as mulheres; por cerca de 15 milhões de desempregados e aproximadamente 6 milhões de desalentados (quem perdeu a esperança de encontrar emprego); por quase 600 mil mortes pela covid-19 e tantas outras milhares de vidas marcadas pela dor da perda irreparável de quem se ama; pelo aumento do analfabetismo funcional e pelo descaso com o analfabetismo absoluto. E em todos esses casos, os mais atingidos são negros e negras. Uma somatória assustadora que não é resultado do acaso, mas fruto de uma política bizarra que soma a ganância do enriquecimento próprio e de parceiros a qualquer custo à opressão realizada com violência e o total desrespeito aos direitos humanos.

 

Em seus discursos nos atos antidemocráticos realizados em Brasília e em São Paulo nesse 7 de Setembro, Jair Bolsonaro disse: “sempre estarei onde o povo estiver”. À sua frente, vidrados e raivosos, uma parcela inexpressiva e diferenciada do povo que realmente existe no Brasil. Segundo levantamento realizado pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo, o retrato dos apoiadores de Bolsonaro se desenha em cima dos seguintes números: 61% de homens, 60% de brancos, 53% contrários ao uso obrigatório de máscara, 43% com renda familiar acima de cinco salários mínimos, 60% com curso superior completo ou incompleto. Este foi o levantamento feito na Avenida Paulista, em São Paulo, mas não seria arriscado dizer que este é um padrão de quem saiu às ruas para pedir intervenção militar no dia em que se celebra a independência do Brasil.

 

Bolsonaro não está com o povo. Se estivesse, trocaria a fala de ameaça de golpe militar, de violência e de bravata pela apresentação de programa de recuperação de emprego e renda, de superação da fome, de valorização dos serviços públicos, de consolidação da democracia. Nada disso foi feito. Nem mesmo para aliviar o desgaste que vem sofrendo, comprovado pelas pesquisas de aprovação do seu governo. Aliás, essa não era uma preocupação nem mesmo de quem estava nas ruas. Esses, segundo a pesquisa da USP, estavam mais preocupados com o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.

 

Afinal, que povo é esse que Bolsonaro diz estar sempre junto? Um povo sem fome, avesso à diversidade e à pluralidade, com renda garantida – muitas vezes até sem o esforço do trabalho – e que nunca precisou de nenhum programa assistencial para garantir o mínimo de dignidade. Esse, definitivamente, não é o povo brasileiro, mas apenas uma pequena, vergonhosa, preguiçosa e covarde parcela dos 211 milhões de habitantes do país.

 

Enquanto apoiadores de Bolsonaro sacodem bandeiras do Brasil, vestem verde e amarelo e adotam uma pauta cafona e mortal, o povo brasileiro atua, de fato, pela sobrevivência do país ao exigir vacina no braço e comida no prato; ao combater a privatização e exigir serviços públicos fortalecidos e de qualidade; ao lutar pelos direitos de trabalhadores; ao se posicionar em defesa das mulheres, de negras/os, de indígenas, de LGBTQIA+; ao reivindicar salário digno, emprego e moradia.

 

E é esse povo que acredita que o Brasil tem jeito que vai continuar firme, mesmo que as circunstâncias sociopolíticas e econômicas, estrategicamente, ataquem a esperança e motivem a imobilidade.  O que se espera de um presidente da República é, no mínimo, o respeito e o cuidado com o povo de uma nação que quer voltar a sorrir. E é por isso que Jair Bolsonaro não tem qualquer tipo de moral para centralizar o povo em seus discursos. Até porque o que o povo precisa é de Fora Bolsonaro.

 

(*) Por Rosilene Corrêa, professora aposentada da rede pública de ensino no DF, dirigente do Sindicato dos Professores no DF e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação