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Bolsonaro, Hitler e o bandido Pareja

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“pior que o grito
dos maus
é o silêncio dos bons”
Martin Lutter King

Não quero disputar narrativa. Disputar a narrativa com bolsonaros é latir pra cães. Impossível conversar com qualquer pessoa de índole bolsonarista, seja no boteco, no metrô ou na parada de ônibus (assim como na manifestação do STF) sem rebaixar o nível da discussão. É que Bolsonaro apequenou o debate, o cargo, a política, a religião e até o futebol. Ele é o samba de uma nota só. Está desafinado demais. Mas, usa isso como arma e estratégia. O medo como fortaleza.

 

Por isso, e também por isso, eu me recuso a discutir a sua fala, repetida à exaustão durante a campanha – e já antes dela. Não me incomoda os seus gestos de todos os dias, desde sempre, e na última manifestação(19/04/20). O seu discurso envelhecido e tão chulo, tantas vezes repetidos na tribuna do parlamento, nos 28 anos de Congresso, que agora quer fechar. O que me incomoda é o silêncio cúmplice das instituições.

 

Eu nem sei se ele é – realmente – fascista. Acho que falta-lhe preparo. Não tem a estatura de um Hitler, de um Mussolini. Seu atrevimento e a arrogância com que se apresenta, no entanto, está muito mais na falta de atitude e no medo dos que deveriam detê-lo. Lembro-me dos tempos de repórter, de um bandido chamado Pareja – Leonardo Pareja*.

 

Bolsonaro, a meu ver, reinventa o bandido Pareja. Age com ousadia aplicando o terror do medo. Já se passaram duas décadas e a história do bandido, ousado e sedutor (que encanta pessoas da mesma índole), permanece mais atual que nunca. O Bolsonarismo – assim como confino de gado – se encanta com suas bravatas e mentiras que enganam a “boiada” na ilusão de que é mais forte.

 

Na época, o bandido se transformou numa “celebridade do crime”, exatamente por abusar do deboche e da ironia em todas as circunstâncias. Assim como Pareja, Bolsonaro traça – régua e compasso – suas aparições, cria o cenário e o “script” para desafiar a justiça e se travestir de  “celebridade nacional” que finge ser.

 

Pareja fazia isso: marcava hora e local de sequestrar e roubar, para chamar a atenção da plateia ( gente de mesma índole) e desafiar a justiça e a polícia. Era um bandido ousado. Se elegeu bandido, se “autoproclamou” celebridade com a ousadia dos atrevidos. Sequestrou e manteve refém a sobrinha do – nada menos – Senador Antônio Carlos Magalhães, o Coronel ACM, da Bahia.

 

Bolsonaro é isso. Se elegeu presidente para desafiar o sistema. Não age como um Presidente da República, um líder. Age como um playboy, o “mito”. Se autoproclamou “celebridade nacional” que desafia a justiça, o Parlamento, o Judiciário, os Poderes constituídos. Faz o discurso que encanta os idiotas, os imbecis. Mas, sabe o que quer. Ele quer isso mesmo, o desafio. Sua fala se encorpa diante do silêncio dos bons.

 

O que me incomodava, na época, não era a ousadia do bandido Pareja. Era a inoperância da polícia. Mas, um dia o bem venceu, de forma trágica, mas deteve Pareja. Assim como na linguagem bolsonarista, Leonardo Pareja foi morto, pela polícia, em confronto, porque – “bandido bom é bandido morto”. Foi a única forma de detê-lo.

 

Jair Bolsonaro continua desafiando a justiça e o sistema. O que me incomoda, não é a audácia do militar,  é o silêncio dos bons. Até quando?

 

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