Dois coronéis da PM paulista convocaram para manifestações golpistas, enquanto militar do DF pregou invasão ao STF; Ariel de Castro Alves, do Grupo Tortura Nunca Mais, fala em “golpe no ar”

 

As notícias que dão conta de policiais e militares envolvidos com as manifestações de cunho golpista convocadas por bolsonaristas para o feriado de 7 de setembro sinalizam que Jair Bolsonaro está estimulando motins nas polícias militares. A opinião é do advogado Ariel de Castro Alves, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais.

Nesta segunda-feira (23), veio à tona que dois coronéis da PM de São Paulo estavam utilizando as redes sociais para convocar para os atos, que contêm pautas antidemocráticas como a destituição de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e uma intervenção militar em apoio a Bolsonaro.

Um deles, que ainda pregou a presença de “tanques nas ruas” no dia dos protestos, foi afastado pelo governador João Doria (PSDB).

“As atitudes dos 2 coronéis não representam o comando geral da PM, nomeado pelo governador João Doria, mas representam alguns oficiais e muitos praças da corporação, que são suscetíveis às influências bolsonaristas, que defende um país governado por militares e com liberdade para policiais cometerem abusos, corrupção, flagrantes forjados e assassinatos”, disse à Fórum o advogado Ariel de Castro Alves.

Na última semana, Castro Alves e o padre Júlio Lancellotti tiveram uma reunião com os comandantes da PM de SP, em que foi discutido “o papel dos policiais em defender o Estado Democrático de Direito e respeitar os Direitos Humanos”.

Motins e golpe

“Ninguém pode ir a Brasília simplesmente para passear, balançar bandeirinhas e tão pouco ficarmos somente acampado […] Como todos devem saber, nós teremos vários reservistas lá e R2, pessoas que têm conhecimento de como podemos fazer formações de grupamento para nos organizamos e adentrarmos ao STF e ao Congresso”, diz.

Por lei, policiais militares não podem fazer manifestação pública de apoio político.

Segundo Ariel de Castro Alves, esses gestos demonstram que Bolsonaro estimula motins nos quartéis com o objetivo de justificar uma intervenção militar.

“Bolsonaro está estimulando motins e rebeliões nas PMs estaduais e nos quartéis. E que também seus seguidores, membros de clubes de tiro e de colecionadores de armas saiam para as ruas, visando um cenário de confronto e guerra civil com a maioria da população, atualmente contrária ao governo genocida, excludente e incompetente dele”, diz o advogado.

“Para depois justificar a intervenção das Forças Armadas, objetivando detonar a democracia brasileira”, completa Castro Alves.

Governadores debatem risco de golpe e infiltração nas polícias

Em reunião nesta segunda-feira (23) entre os 24 governadores da federação, os mandatários estaduais se mostraram preocupados com a movimentação de policiais em prol dos atos de apoio a Jair Bolsonaro

“Creiam, isso pode acontecer no seu estado. Aqui nós temos a inteligência da Polícia Civil, que indica claramente o crescimento desse movimento autoritário para criar limitações e restrições, com empareda mento de governadores e prefeitos”, afirmou o governador de São Paulo, João Doria, no encontro.

“Estamos diante de um momento gravíssimo, com constantes ataques à liberdade e à Constituição. Não vamos nos silenciar diante das ameaças aos princípios constitucionais do país”, avaliou o tucano ao término da reunião.

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PSB), por sua vez, também tratou da possibilidade de policiais se envolverem em uma intentona golpista.

“Preocupação geral com agressões e conflitos em série, que prejudicam a economia e afastam o país da agenda real: investimentos, empregos, vacinas etc. A democracia deve prevalecer e as polícias não serão usadas em golpes”, declarou o mandatário maranhense.

Da Revista Fórum