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Aulas presenciais trazem riscos: como proteger alunos, professores e familiares

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Retomada das aulas presenciais enfrenta resistência diante da falta de vacinação e do alto número de casos e mortes por Covid-19 no Brasil

 

Em todo o Brasil a volta às aulas presenciais enfrenta resistência e é uma polêmica. Afinal, manter professores, alunos e demais profissionais da educação em espaços fechados pode aumentar o risco da transmissão do novo coronavírus. Num país em que o número de casos e de mortes por covid-19 bate trágicos recordes diários, a apreensão de quem tem de enfrentar essa realidade é compreensível. Por outro lado, existe a preocupação com os problemas cognitivos, de aprendizado, e psicológicos enfrentados por crianças e adolescentes diante das aulas online.

 

“Todos nós estamos preocupados com a situação do déficit de aprendizagem das crianças”, afirma o médico e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP). “Em especial das crianças da rede pública estadual porque não existiu qualquer tipo de investimento por parte do governo de São Paulo para que professores, crianças e adolescentes pudessem ter acesso a atividades de aprendizagem, a estrutura de internet. Então, obviamente está todo mundo muito preocupado com essa situação. Mas não podemos enfrentar essa situação, com uma preocupação maior que é transformar as escolas num verdadeiro covidário.”

 

 

Também ele pai de uma menina de 6 anos, para Padilha a grande questão não é se as aulas devem voltar ou não. “Mas se temos condições seguras para voltar à aula presencial. Esse diagnóstico tem de ser feito rede por rede, escola por escola. E a informação que nós temos é que não existe segurança nem na rede pública, nem na rede particular.”

 

 

Só com vacina para todos

 

Alexandre Padilha alerta que o risco, tanto para os trabalhadores da educação, quanto para as famílias, é altíssimo. “O espaço da escola é um espaço de encontro, de risco de transmissão. A estrutura das escolas, sobretudo da rede pública estadual, não comporta o distanciamento social, o distanciamento físico, ações que possam garantir a redução do risco de transmissão”, explica. “Tem escola que sequer tem pia, água para lavar a mão. Não podemos permitir esse retorno. Significa um risco muito grande.”

 

 

É muito importante, alerta o parlamentar, saber que mesmo professores com mais de 47 anos só receberam uma dose de vacina até agora, ou seja, foram parcialmente vacinados. “No conjunto de trabalhadores da educação, vários deles sequer receberam a primeira dose da vacina. E mesmo se tivessem recebido a segunda dose da vacina e estivessem 15 dias após a segunda dose – que é quando se pode garantir que esses trabalhadores da educação estarão protegidos – o fato de estar protegido reduz o risco de caso grave, de internação para quem recebeu a vacina. Reduz a transmissão, mas não tem 100% de eficácia de bloqueio da transmissão”, explica.

 

 

O médico infectologista Caio Rosenthal compara o Brasil a outros países que já nem precisam mais questionar se as aulas presenciais podem ou não ser retomadas diante do percentual de vacinados. “Aqui, até hoje, nem 10% da população brasileira recebeu a segunda dose, ou seja, a vacinação total para os chamados grupos prioritários”, ressalta. “Então, seria interessante fazer a vacinação em massa a todos os profissionais da educação, que têm essa missão pedagógica, não apenas os professores, mas todos os funcionários que têm de se deslocar para ir à escola e tenham possibilidade de aglomerações.”

 

 

Matemática da morte

 

Padilha diz ter certeza que os professores querem voltar a dar aula presencial. “Mas não querem ensinar Matemática contando corpos, contando mortos e surtos da pandemia a partir do espaço das escolas”, disse.

 

 

A vacinação dos professores de mais de 47 anos começou em 10 de abril em São Paulo. Mas nas escolas particulares, por exemplo, a maioria dos docentes é mais nova. E na rede pública representam apenas 40% do total. Ainda não há sequer previsão de quando esses trabalhadores mais novos serão vacinados. Tampouco os demais profissionais da educação.

 

Riscos e cuidados

 

Integrante da Comissão Externa da Covid-19 da Câmara dos Deputados, ele alerta para três questões “chave e decisivas” para que esse retorno às aulas presenciais possa ocorrer com mais segurança. “Primeiro a ventilação dentro do espaço escolar, é decisivo isso. Ter espaço arejados, preferencialmente atividades ao ar livre. E em todos os locais, não só no momento da aula. Mas no refeitório, no recreio, que são momentos mais difíceis de ter controle sobre o risco do contato entre as crianças, e dos trabalhadores da educação com as crianças. Segundo, a estrutura de higienização permanente: oferta de álcool gel, lavar as mãos em cada sala de aula”, elenca. “E o terceiro, para mim tão importante quanto, que é o transporte. Como os trabalhadores da educação vão para a escola? Como os pais vão levar suas crianças? Se todos vão se expor no transporte coletivo, o risco de transmissão é altíssimo”, afirma o médico.

 

 

E lembra que na cidade de São Paulo, por exemplo, os bairros com maior número de casos e mortes são exatamente aqueles mais distantes, onde a pessoa fica mais tempo médio dentro do transporte coletivo. “Como os trabalhadores da educação, não só os professores, pais e crianças são transportados, vai ser decisivo para conter esse surto.”

 

 

Por isso, o médico defende três pontos fundamentais para a retomada das aulas presenciais. “Primeiro, ter estrutura que garanta distanciamento físico e higienização nas escolas. E transporte dos trabalhadores da educação, dos pais. Além do compromisso de vacinação de todos, independente da faixa etária.”

 

Além de água potável, álcool gel disponível, distanciamento físico, o infectologista Caio Rosenthal alerta: “o uso da máscara é muito importante para todas as faixas etárias”.

 

 

Pressão para a volta

 

As aulas presenciais em São Paulo foram autorizadas pelo governo estadual a partir de 12 de abril. Mas após liminar do sindicato dos professores ser derrubada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, no último dia 22, a pressão sobre os docentes aumentou. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo ouviu diretores de escolas e professores, sob condição de anonimato, que revelam ser esse o pior conflito já vivido inclusive em instituições particulares de renome na educação. “Até nas melhores escolas, a relação está por um fio”, afirma uma professora.

 

Segundo apurou a reportagem, algumas escolas tiveram de retomar as aulas presenciais com metade dos professores porque metade se recusou a retornar. Outras conseguiram negociar ou ameaçaram demissão para garantir a volta às aulas presenciais. Todos temem a contaminação pela covid-19.

 

Para a coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direto à Educação, Andressa Pellanda, é falso o argumento dos parlamentares que votaram a favor da educação como atividade essencial (PL 5.595/2020). “Foram 234 deputadas e deputados que se colocaram a favor dessa aprovação. Eles não estão preocupados com a vida das crianças, adolescentes, de suas famílias e dos profissionais da educação e não estão ouvindo a comunidade educacional”, critica. “A prova disso é que votaram a favor do teto ao auxílio emergencial, que colocou na extrema pobreza 9,1 milhões de pessoas. A preocupação não é com as crianças, como dizem. Se fosse, estariam ouvindo as escolas e suas famílias”.

 

“Há mais de um ano de inércia do governo federal e de governos subnacionais para oferecer condições para o ensino-aprendizagem, a solução do Estado para garantir o direito à educação não pode ser de colocar em risco o direito à saúde e o direito à vida dos trabalhadores da educação, estudantes e suas respectivas famílias.”

Reprodução da CUT Brasil

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