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Áudios revelam ação combinada de empresários para coação de votos de funcionários e suposta fraude nas urnas

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“Tem que ser no último dia [antes das eleições], para o PT não ir depois tentar desmanchar o trabalho”, disse um dos presentes; comandante do 15° Batalhão da PM participou do encontro, ouça os áudios

 

O pequeno município de Caçador, no interior de Santa Catarina, distante cerca de 400 quilômetros da capital Florianópolis e com aproximadamente 80 mil habitantes, sediou na última segunda-feira (10) uma reunião de empresários e políticos locais convocada pela ACIC (Associação Comercial Industrial de Caçador) onde foram discutidas estratégias para “virar o voto” dos trabalhadores da cidade a fim de reeleger o atual presidente Jair Bolsonaro (PL).

 

 

Revista Fórum obteve com exclusividade áudios da reunião que vazaram para grupos de WhatsApp da cidade, causando repercussão com a ciência dos trabalhadores em relação às estratégias expostas. Apesar de se tratar de uma pequena cidade, onde 40% da população votou pelo ex-presidente Lula (PT), as revelações contidas nos áudios guardam relação com outros episódios de coação eleitoral em ambiente de trabalho que têm sido relatados em todo o país. Ou seja, o caso além de não ser isolado parece fazer parte de uma estratégia maior do bolsonarismo para impedir o voto livre e causar confusão no processo eleitoral.

 

 

As semelhanças discursivas são enormes. Em setembro, um homem que exerce cargo de chefia na Imetame, em Aracruz (ES), disse aos funcionários reunidos no chão de fábrica que “no dia que você não tiver mais emprego, não vai poder reclamar”, em alusão ao fechamento de empresas para o caso de uma vitória eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O mesmo discurso foi adotado pelo empresário Maurício Lopes Fernandes, dono de cerâmicas em São Miguel do Guamá (PA), que afirmou ainda que caso Lula seja eleito o Brasil sofrerá uma onda comunista e se tornará na nova Venezuela. O empresário recebeu uma multa de R$ 150 mil e se retratou, mas o discurso oriundo da guerra fria, e sem lastro na realidade, também foi registrado em fala do empresário Marcelo Domenici, do Grupo Terra Boa, a funcionários da Stara, empresa de maquinário do Rio Grande do SulO Ministério Público do Trabalho (MPT) investiga cerca de 200 casos dessa natureza.

 

 

Voltando a Caçador, além da ACIC, representada pelo seu presidente Jovelci Gomes, também assinaram a convocatória da reunião a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e a Associação de Micro e Pequenas Empresas (AMPE). O empresário Cláudio Rottava, dono da loja Rottava Caça e Pesca, representou a CDL. Além deles, participaram da reunião os vereadores Jean Carlos (PSD), Fabiano Dohner (PL) e Lidiane Cattani (Progressistas), bem como um representante do deputado estadual Valdir Cobalchini (MDB), o comandante do 15° Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina, Major José Ronaldo Branco, e outros empresários e políticos da cidade.

 

 

 

Em sua conta no Instagrama vereadora Lidiane Cattani divulgou imagens da reunião e a definiu como “Reunião com lideranças políticas e empresariais de Caçador para discutir e alinhar a campanha para o segundo turno. Seguimos firmes e fortes fechados com Bolsonaro e Jorginho Melo”.

 

 

O discurso de abertura da reunião, proferido pelo presidente da ACIC já começou levando a tese bolsonarista e conspiratória de que as urnas não são confiáveis. “Eu bati duas vezes [o número 22 na urna] pra vim pra imagem do presidente Bolsonaro na minha urna. Todos os outros [candidatos] estão se ativando, mas quando bati 22 o presidente Bolsonaro não apareceu. Tive que bater mais uma vez pra vim (sic) o presidente. Muitas pessoas bateram assim e foram embora. Isso já era fraude, entenderam? Aconteceu comigo”, afirmou.

 

 

Além disso, em consonância com casos já concretizados de coação eleitoral, Jovelci reafirmou a narrativa de que caso o ex-presidente Lula vença as eleições, acabariam os direitos à propriedade e o de ir e vir. Como exemplo, é claro, a situação de diversos países vizinhos como o Chile e a Argentina, onde recentemente a esquerda venceu as eleições, e a Venezuela, favorita para exemplificar conspirações oriundas da guerra fria, onde um suposto comunismo ameaçaria o Brasil.

 

 

Isso que está acontecendo no Brasil é uma nova ordem mundial. Isso não é de agora. Foi um programa que veio há tempos e inclusive deram um xeque-mate no rei do mundo que eram os Estados Unidos do Trump”, declarou Gomes. Na sequência ele agradece os empresários presentes e lembra que na cidade 40% dos votos foram para a chapa petista. “Temos que virar esse jogo”, disse.

 

 

A partir daí o empresário começa a elencar uma série de medidas estratégicas para o dia das eleições. Entre elas, pediu 300 pessoas fiscalizando as seções eleitorais em nome do empresariado da cidade. “Não estamos defendendo o Bolsonaro. Nós temos que defender o nosso Brasil”, afirmou. “E o que temos que fazer? Cada um de nós deve fazer um ‘trabalhozinho’ nas nossas empresas, na nossas casas, nos nossos colégios. Vocês não imaginam o que será uma esquerda no Brasil. O setor imobiliário todo vai quebrar. O setor produtivo industrial e exportador vai ser destruído”, discursou.

 

 

Jovelci encontrou mais articulação na fala do representante do deputado estadual Valdir Cobalchini (MDB). O homem, identificado nos áudios como Carlos, disse que o gabinete do deputado se dispõe a ajudar na campanha e fez coro à convocatória dos empresários para a virada de voto dos trabalhadores. “Todo empresário deve pedir o voto para os seus colaboradores. Isso tem uma força enorme e já é tradição aqui no município de Caçador que para onde os empresários pendem, sai o resultado da eleição. E agora mais do que nunca todos os empresários precisam pedir o voto para o 22 duas vezes”, declarou.

 

 

Já Xico Stefanes, que foi candidato a vereador na cidade pelo PSDB em 2020, mas perdeu as eleições, defendeu que a “conversa” com os trabalhadores deveria ser feita no dia anterior do segundo turno para não dar margem para reações e punições aos empresários. “Tem que ser no último dia [antes das eleições], para o PT não ir depois tentar desmanchar o trabalho. Os empresários devem reunir os funcionários e não pedir voto, não precisa pedir voto, mas explicar que se a esquerda ganhar, vai ser igual a Venezuela. E jogar a responsabilidades pra eles se a família amanhã vai passar fome ou ficar comendo cachorro igual está ocorrendo na Venezuela. ‘Ó, os responsáveis são vocês, porque vocês têm o direito de mudar o voto’”, resumiu.

 

 

Mais adiante, o presidente da associação se irritou com filmagens e gravações da reunião. “Tem gente aqui do PT gravando. Eu já sei, já tem dois aqui do PT gravando. Eu não vou pedir pra ele se retirar (sic) porque tenho educação, mas por favor. Se ele continuar gravando eu vou pedir pra ele se retirar daqui porque aqui é uma coisa nobre, aqui é muita seriedade. Eu estou aqui com o comandante da Polícia Militar e [quem grava] pode sair preso daqui porque eu acho que não é assim. Não é assim”, ameaçou.

 

 

A presença do Comando da Polícia Militar na reunião também é outro aspecto a ser questionado. É bem verdade que o major José Ronaldo Branco do 15° Batalhão da PM afirmou que não sabia a respeito do conteúdo da reunião e que a instituição é neutra e conduz a segurança e fiscalização de ambas as partes. No entanto, não há registros nos áudios de intervenções do agente em relação aos crimes eleitorais aqui descritos, tampouco de um possível abandono da reunião por parte do PM. Pelo contrário, ele chegou a elogiar a iniciativa em sua breve fala.

 

 

“Quando convidado não sabia do que se tratava o teor da reunião. Represento uma instituição que tem caráter público e de neutralidade, então assisto esse momento, doutor Jovelci, grato pela oportunidade mais uma vez, mas represento uma instituição que em dias de eleição e em épocas de pleito conduz a fiscalização de ambas as partes e se conduz com neutralidade e profissionalismo. Registro então, no melhor sentido da expressão, do alto da neutralidade com a instituição do tamanho que a polícia militar que é oportuna a iniciativa em nome da democracia. É importante que a comunidade organizada busque se reunir e fazer valer os seus pontos de vista, os seus ideais e aquilo que acredita ser melhor democraticamente, para todos os cidadãos que representam. Então muito obrigado pela oportunidade. A Polícia Militar permanece à disposição e clamo a todos os irmãos presentes que acima de tudo optem sempre pelo pelo correto. Busquem nessa empreitada conduzir-se eh pela legalidade,” declarou o policial militar em seu curto discurso de pouco mais de dois minutos.

Outro lado

 

 

A reportagem fez contato telefônico com a ACIC que, por meio do seu assessor de imprensa, afirmou que os áudios são “clandestinos” e que a direção da associação irá se reunir para emitir uma nota sobre a reunião. Tentamos contato com o candidato Xico Stefanes e com o deputado estadual Valdir Cobalchini, sem sucesso. Após as manifestações das partes, atualizaremos a matéria com as suas versões dos fatos.

 

 

Sobre a participação do Comando da PM na reunião, enviamos as seguintes perguntas para a Secretaria de Segurança de Santa Catarina e até o momento não obtivemos respostas. Quando forem respondidas, a matéria será atualizada.

 

 

1- A Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina permite a presença do Comando da Polícia Militar em reuniões que tratam de campanhas eleitorais no Estado, como foi o caso da presença do Major José Ronaldo Branco, do 15° Batalhão, na última segunda-feira (10) em Caçador (SC), durante reunião que discutia estratégias para a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL)?

 

 

2- No caso específico da reunião supracitada, houve claramente a premeditação de um crime eleitoral, o de coação ao voto de trabalhadores da cidade por parte dos seus patrões, a ser realizado na véspera do pleito. Após a comunicação e discussão dessa estratégia, o policial militar permaneceu em silêncio ou, ao menos, não há registros nos áudios de uma intervenção sua contrária à prática. O Major chegou a fazer uma denúncia sobre o que foi discutido na reunião?

 

 

3- Em caso de resposta positiva para a última pergunta, quais procedimentos foram adotados? Já em caso de uma resposta negativa, a Secretaria avalia que tenha havido prevaricação por parte do agente?

 

 

4- Qual a posição oficial da Secretaria de Segurança Pública sobre a participação do comandante no evento?

 

 

5- No caso do Comandante da Polícia Militar não ter enxergado um planejamento de infração eleitoral, como a SSP/SC irá garantir a segurança das eleições aos cidadãos catarinenses?

 




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