A democracia brasileira está em risco. Esse risco aumenta a cada dia, sem que a sociedade reaja à altura das ameaças.

 

Enquanto candidato ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro prometeu aos quatro cantos acabar com o “toma lá, dá cá”, a “velha política”. Já instalado na sede do governo, o presidente reforçou o discurso de campanha.

 

Essa oratória marcada pelo falso moralismo perdeu o prazo de validade em poucos meses, obrigando Bolsonaro a se aproximar do chamado Centrão.

 

Como político, o presidente sempre soube que qualquer governo depende do Centrão, gostem ou não os brasileiros. Isso é reflexo da falta de interesse do cidadão pela política, ou seja, elege-se quem não deveria ser eleito.

 

O estrago está consumado e desfazê-lo exigirá tempo e paciência por parte de cada um. Enquanto isso, resta administrar e dissipar um caos criado a partir das urnas.

 

Com mais de 120 pedidos de impeachment estacionados no gabinete do presidente da Câmara dos Deputados, Bolsonaro se viu obrigado a entregar a alma do governo ao Centrão. Do contrário, o olho da rua lhe bateria à porta. Lembro que essa hipótese não está descartada.

 

Com o tensionamento das relações com o Legislativo e o Judiciário, clara e constante ameaça de Bolsonaro ao ambiente democrático, o Centrão aproveitou-se da crise para se instalar de vez no governo.

 

Além do comando da Casa Civil, o Centrão ocupa outros importantes espaços na estrutura do governo e continua a fazer exigências, sob a alegação de garantir apoio político ao Palácio do Planalto no Congresso Nacional.

 

Esse escambo político em particular não se deu de forma simples e fácil. Teve blefes de parte a parte. O Centrão cobrou de Bolsonaro o compromisso de não mais ameaçar a democracia e atacar o sistema eleitoral, o que facilitaria um bom convívio com o parlamento.

 

Pressionado por seus apoiadores em razão de ter desidratado a descontrolada ala ideológica e reduzido a participação de militares na cúpula do governo, Bolsonaro descumpriu o acordo com o Centrão. Retomou os ataques e as ameaças.

 

Em 1993, em entrevista, o ex-presidente Ernesto Geisel, ao falar sobre Bolsonaro, usou o termo “mau militar”. Em determinado trecho, Geisel afirmou que o político que começa a se “exacerbar em suas ambições” não demora a flertar com um golpe a cargo das Forças Armadas. É o caso de Bolsonaro, que usa a figura da caserna para reforçar seu desapreço pela democracia.

 

Ex-governador do Pará, ex-presidente do Senado e tendo comandado diversos ministérios ao longo da ditadura militar, Jarbas Passarinho cunhou a frase “só não perdeu o posto de capitão por causa de um general amigo” ao citar o agora presidente da República. Passarinho foi além e, em referência a Bolsonaro, disse: “Já tive com ele aborrecimentos sérios. Ele é um radical e eu não suporto radicais, inclusive os radicais da direita.”

 

O Centrão avançou sobre o governo porque é da sua natureza política. Alguns dizem que esse movimento faz parte do presidencialismo de coalizão, mas na minha opinião isso está mais para chantagem política.

 

Inicialmente disposto a aumentar seus tentáculos políticos na estrutura do Executivo, o Centrão vislumbrou apenas o bônus, sem se atentar ao ônus. Nesse caso, o fato de que desprezar a democracia faz parte do DNA de Jair Bolsonaro.

 

Alvo de enxurrada de críticas, principalmente por causa dos escândalos envolvendo seus principais líderes, o Centrão agora aproveita-se da crise gestada Bolsonaro para vender a tese de que é a única via para garantir a inviolabilidade da democracia brasileira. Isso tem se dado de forma subliminar.

 

Já ocupando bons espaços nas entranhas do governo, com direito a decidir o destino de porções bilionárias do orçamento, o Centrão tem o dever de evitar que o pior aconteça: um golpe, como querem o presidente e quartel palaciano.

 

Porém, é preciso saber até quando o Centrão apoiará um governo que cada vez mais acena com o golpismo. Nenhum político coerente aceita tal condição, principalmente porque o próximo ano é de eleições gerais e como sempre as urnas são impiedosas. E chegar ao pleito de 2022 com o carimbo de fiador de golpista não é o melhor dos cenários.

 

Os congressistas atuais precisam honrar a luta dos que permitiram a retomada da democracia, com destaque ao movimento “Diretas Já”. Refiro-me a Ulysses Guimarães, Mário Covas, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Fernando Henrique Cardoso, Dante de Oliveira, Lula, Franco Montoro, Roberto Freire, Miguel Arraes, entre tantas fontes de inspiração democrática.

 

Ao Centrão, que, querendo ou não, tem o dever de impedir o pior, lembro frase do escritor italiano Alberto Moravia (1907-1990): “A ditadura é um estado em que todos temem alguém”.