Em vídeo, amiga da vítima relata insegurança em terras protegidas e cobra políticas públicas; inquérito está sob sigilo

 

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O caso da jovem indígena kaingang, Daiane Griá Sales, de 14 anos, que foi encontrada morta, nua e com o corpo dilacerado, na semana passada, próximo à Terra Indígena Guarita, no município de Redentora (RS), apresenta-se como mais um caso de feminicídio e de violência contra indígenas. É o que destacam em notas de repúdio e por justiça a Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o Conselho de Missão entre Povos Indígenas (Comin) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

 

 

Em vídeo divulgado nas redes sociais neste domingo (8), a jovem indígena Milena Jynhpó manifestou revolta pela morte da sua amiga Daiane e denunciou a situação pela qual passam as mulheres indígenas. “Até quando teremos medo e insegurança em nossos territórios?”, questiona, afirmando também temer por sua vida.

 

 

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“Diariamente vivemos um sistema machista, cruel, brutal e assassino, precisamos de ajuda, estamos cansadas de ser invisíveis”, complementa a amiga da vítima, que cobra políticas públicas para proteger a vida das mulheres indígenas. Milena também é da Terra Indígena Guarita, a maior reserva indígena do Rio Grande do Sul, onde vivem cerca de 8.000 indígenas, em sua maioria kaingang.

 

 

A Central Única dos Trabalhadores Rio Grande do Sul (CUT-RS) afirma, em nota, que a morte violenta “demonstra as inúmeras vulnerabilidades a que vivem expostos os povos originários e retrata as dificuldades enfrentadas na conjuntura nefasta que atravessamos”.

 

 

Ao exigir apuração e proteção à comunidade onde vivia Daiane, a fim de evitar que ocorram novas ações criminosas, a CUT-RS destaca os reiterados ataques aos direitos e aos territórios pelo governo Bolsonaro e pela sua política indigenista no Congresso Nacional.

 

 

“Exemplo disso é o PL 490, que tem o propósito de rasgar a Constituição Federal e de acabar com os direitos e a proteção aos povos indígenas e às suas terras. Projetos como este promovem um ambiente de acirramento dos conflitos e das violências que essas populações ficam sujeitas”, afirma a central, referindo-se à proposta normativa que abarca outros 20 projetos de lei com diversos pontos considerados como retrocesso para as populações indígenas, como o Marco Temporal e a autorização para atividades mineradoras dentro de territórios protegidos.

 

 

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Investigação

 

 

A Polícia Civil investiga o crime, sob acompanhamento do Ministério Público Estadual. “O caso, por envolver uma investigação complexa, está sob sigilo. Por enquanto, o MP está colaborando com a Delegacia de Polícia e aguardando que o inquérito policial seja concluído, para que então se busque a punição da pessoa ou das pessoas envolvidas no fato”, disse o promotor de Justiça Miguel Germano Podanoche.

 

 

O resultado do laudo pericial divulgado pela Polícia Civil nesta segunda-feira (9) aponta a causa da morte como indeterminada. O delegado responsável pelo caso, Vilmar Alaídes Schaefer, disse estar convencido que foi homicídio. O pescoço da jovem apresentava marcas de estrangulamento, sem indícios de fratura e cortes por armas ou tiros.

 

 

A vítima foi encontrada nua, com a calcinha ao lado do corpo. Ainda segundo a perícia, a parte inferior do corpo da jovem foi dilacerada por animais, provavelmente urubus, depois da morte.

 

 

Foram colhidas novas amostras, que vão resultar em uma segunda análise, a ser concluída nos próximos 15 dias. Segundo o delegado, já foram ouvidas 20 pessoas na investigação.

 

 

Daiana foi encontrada morta no último dia 4, em um sítio a cerca de 100 metros da reserva indígena. Ela estava desaparecida desde 31 de julho, quando saiu para participar de uma festa. No local onde estava o corpo, o capim estava amassado, o que pode indicar que ela foi obrigada a deitar. Ao redor, havia marcas de rodas de carro.

 

 

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Até quando?

 

 

Em forma de poema, o indigenista e coordenador do Cimi Regional Sul, Roberto Liebgott, questiona: até quando as bocas calarão diante da brutalidade e das injustiças? Confira o texto, publicado no site do Cimi:

 

 

Daiane Griá Sales
Pequena menina Kaingang.
Só 14 anos de idade.
Teria uma vida plena.
Tornar-se-ia mulher, mãe, avó.
Seria e faria outras pessoas felizes.
Choraria, iria rir e se zangar.
Abraçaria e caminharia de mãos dadas.
Amaria e seria amada.

 

Daiane Griá Sales foi cruelmente arrancada desta vida.
Seu corpo dilacerado.
Suas carnes e vísceras
espalhadas.
Seu corpo lançado sobre uma lavoura de soja.
Terra arrendada, consumida e deteriorada por lavoureiros gananciosos.

 

O corpo dilacerado ficou lá exposto.
Queriam que todos vissem.
Que todos soubessem como a mataram.
Mas a crueldade só se completaria quando as imagem mórbidas, daquilo que restou de seu corpo e vísceras estivessem circulando pelas redes sociais.

 

Daiane Griá Sales
Vítima de pessoas perversas.
De estupradores, machistas, racistas.
De assassinos, genocidas, promotores da tortura.
Vítima do discurso de ódio, da intolerância, do macho alfa, escravocrata, totalitário.
Vítima de uma sociedade de perversidades, que cultua a violência e a desesperança.

 

Daine Griá Sales
Sua dor.
Seu sacrifício.
Seu corpo brutalmente violentado nos faz perguntar:
Até quando?
Até quando os corpos de meninas serão estuprados?
Até quando o ódio, o racismo, a intolerância prevalecerão?
Até quando as bocas calarão diante da brutalidade e das injustiças?
Até quando os povos e comunidades tradicionais serão atacados em suas vidas, carnes, terras e culturas.

Até quando?

 

Porto Alegre, 06 de agosto de 2021.

 

 

Do  BdF Rio Grande do Sul  com edição: Marcelo Ferreira