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Artista brasiliense enfrenta os desafios do lockdown em Nova Iorque, epicentro da Covid-19 nos EUA

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Residindo na grande meca internacional do teatro há pouco mais de cinco anos, Patrícia Marjorie viu seus projetos e trabalhos em artes cênicas suspensos ou cancelados do dia para a noite. “Desde que cheguei por aqui, este momento estava sendo um dos mais produtivos pra mim”, comenta a artista.

 

Formada em Artes Cênicas pela UnB, Patrícia desembarcou nos Estados Unidos com uma extensa experiência em teatro. Bagagem que abriu portas para trabalhar com a profissão que escolheu para sua vida.

 

Lá, assim como em Brasília, atua, assina direção geral e artística, desenha e produz adereços de cena bem como supervisiona e coordena produções. E, mesmo distante, mantem fortes vínculos com sua terra natal envolvendo-se em projetos conterrâneos que aportam na Grande Maçã e desenvolve, ainda que remotamente, a montagem de novos espetáculos.

 

Mas tudo, de uma hora pra outra, foi interrompido em razão do lockdown imposto pela pandemia. “Estava atuando em áreas distintas de três projetos ao mesmo tempo, bem como na expectativa da estreia de espetáculo sob minha direção e com texto de Lidiane Araújo, me preparando para supervisionar um festival de teatro e desenvolvendo a direção artística de ‘festa de gala’ do The Tank”, detalha a artista multifacetada. The Tank é um espaço colaborativo off-Broadway [no coração de Manhattan] do qual Patrícia é uma das artistas associadas.

 

Sobreviver, reinventar-se, driblar os momentos de ansiedade e a indecisão, têm sido os desafios. “Trabalhadora das artes cênicas morando na maior cidade teatral do mundo e ver todos os espaços artísticos fechando, foi de pirar”, confessa. No entanto, a inquietação característica de uma grande artista, a fez encontrar meios de seguir produzindo.

 

Online e remotamente, com tudo mundo em casa, Patrícia Marjorie vem tocando duas montagens: “Canção para Acordar a Matilha” ou “A Song to Keep the Wolves Awake”, em inglês, e “Algumas Cartas” ou “Some Letters”. Além destes projetos, as noites vêm sendo produtivas, “tenho escrito muito e isso ameniza minha ansiedade”, diz.

 

“Algumas Cartas”, idealizado e coordenado por ela, que também atua, é realizado em colaboração entre as artistas envolvidas. Nele, participam performers e atrizes do Brasil, Itália, Etiópia, Venezuela e Estados Unidos. Tudo vem sendo feito online e será apresentado também online.

 

“Canção para Acordar a Matilha”, projeto idealizado com a atriz Lidiane Araújo, sua contemporânea de UnB, foi inspirado no projeto de diplomação de ambas (2004) e teve sua dramaturgia completamente adaptada para a realidade Nova Iorquina. O espetáculo teve uma leitura dramática realizada em novembro de 2019 no teatro The Tank. A estreia, marcada para 12 de junho, precisou ser adiada. “Até lá, seguimos ensaiando remotamente”, garante Patrícia.

 

Com isso, seus dias de confinamento têm sido preenchidos com arte e conversas criativas, “até que este momento tão complicado se dissipe e, aos poucos, como deve ser, tudo volte à normalidade”, pontua Patrícia.

 

Crônica de uma Brasiliense no epicentro da pandemia em Nova York 

 

De repente era março e o inverno estava quase indo embora. Eu já estava pronta pra continuar reclamando das insistentes baixas temperaturas que seguem até abril, mas que este ano, nem aconteceu. Ainda que tivesse acontecido, não teria importância, porque a insegurança do que estava a caminho, vinda de outros ares, era maior. E ares é a palavra mesmo.

 

Eu estava caminhando para um jantar com amigos atores e atrizes de Brasília que vieram à NY pra apresentarem o espetáculo “A Moscou – Um Palimpsesto” no On Woman Festival, realizado no Irondale Ensemble, um teatro lindíssimo no coração do Brooklyn, também administrado por uma brasiliense – Renata Soares.

 

E eu, bem diferente de uma boa brasileira, estava adiantada (coisa que aprendi depois que cheguei aqui, pois sempre fui meio atrasadinha) resolvi descer umas estações antes e ir caminhando.

 

Desde que me mudei pra Nova York minha forma de observar o mundo e o comportamento humano mudou. Em Brasília, as distâncias são maiores e os espaços são mais vazios, fazendo com que a gente olhe muito mais pra dentro do que pra fora quando caminha.

 

Aqui, tem sempre muita gente em todo lugar, cada um na sua loucura, na sua correria, no seu tempo e espaço paralelo, apesar de dividirmos o mesmo assento no trem. E como diretora de teatro, andar, andar, andar e observar gente faz as minhas ideias fluírem.

 

Então eu caminhei. O dia tava fresco e me lembrou o clima de Brasília. Mas “os ares” estavam diferentes. Estanhos. Esquisitos. Tinha um restinho de sol escorrendo dos prédios e nas esquinas das casas. O vento batendo no meu rosto, sem doer gelado, fez com que eu caminhasse muito mais do que planejara.

 

Liguei pra minha mãe. Conversamos um tanto. Contei a ela dos espetáculos que estava envolvida e que, finalmente, eu estava com data oficial de estreia da minha primeira direção completa Off-Broadway. A adaptação de “Duas Mulheres”, espetáculo de 2004 que eu e Lidiane Araújo escrevemos para nossa formatura na UnB e que agora se chama “A Song to Keep the Wolves Awake”.  E agora, junho de 2020, era a data.

 

Dividi com ela a minha mistura de orgulho, ansiedade e agonia – tudo muito rápido – “Minha mãe, essa cidade produz espetáculos como quem produz pastéis. É tudo tão profissional, tudo tão hierarquizado – se você faz isso – você faz só isso. É até um pouco assustador, mas definitivamente funciona”.

 

Pensei novamente em Brasília, minha cidade e no meu teatro. Em como lá a gente faz tudo diferente. Tudo é artesanal e todos nós aprendemos e sabemos fazer de um tudo – a gente atua, dirige, a gente desenha, a gente faz luz, som, figurino cola tudo com cola quente e levanta o pano. Eu disse, “Mãe, tá tudo caminhando agora. Acabei de receber o convite pra ser supervisora num festival só de mulheres, mas… não sei não”… senti novamente o ar estranho e disse; – “pode ser que não aconteça”. Mandei beijos e desligamos.

 

Andei por mais uns 50 minutos observando as pessoas e seus comportamentos. Seus sorrisos ainda aconteciam, e eu só fiquei ali, deixando o vento dos ares estranhos envolverem meu corpo e minha mente.

 

Ainda assim, cheguei cedo na casa de Rodrigo Fisher. Antes até da companheira dele, e já fui pedindo, “meu filho me dê algo pra fazer – eu não sei ficar parada e os ares tão muito quietos, estranhos. Cadê essa ‘brasileirada’ que não chega? Eu te avisei pra falar que era uma hora antes, eles vão chegar ‘tudo’ às 9 da noite, vai por mim”. Eram 5h40 da tarde.

 

A música que rolava era a voz agridoce do Jorge dü Peixe, do Nação Zumbi, do qual fui cicerone e também do Chico Science, nos bons tempos do “véio” Gran Circo Lar. dü Peixe cantarolava sobre amor, sobre revolução e sobre resistência. Palavras de arte, né?

 

E ali eu danei a cortar cebola, alho, tomates e tudo que pudesse ser cortado. Eu e Fisher ficamos ali, ele cozinhando, eu lavando e de assistente (intrometida, como sempre) trocando memórias brasilienses engraçadas e saudosas. “Quem diria, nós aqui, né Rodrix? (é assim que eu o chamo, carinhosamente) Eu me lembro quando você me chamou pra fazer a sua primeira peça, deixou o texto embaixo do meu bloco na 210 sul, e hoje, confesso, não aceitei por insegurança e principalmente, ingenuidade”.

 

A comida começava a cheirar e o povo a chegar devagarinho, cada um no seu tempo. claro. Chega Giovana Almeida cheia de amor e pensamentos lúcidos sobre nossos privilégios nesse momento de incertezas. Chega Thais Filipe, Ana Paula Braga, sempre muito cheias de sorrisos doces. Chegam Camila Meskel e Roustang Carrilho trazendo o barulho e a animação que faltava. De repente estávamos todos ali –Beiruteando, como diria Hugo Rodas. E mesmo estando dentro da casa, diante de toda aquela movimentação, eu – estranhamente – ainda sentia “os ares”.

 

Finalmente a comida estava pronta e turma estava completa – todos os amigos artistas de Brasília da minha geração de Artes Cênicas UnB e Dulcina. Mas eu ainda sentia um estranho silêncio dentro de mim. Será que foram “os ares” que eu deixei passar na porta quando entrei?

 

O assunto do novo vírus indubitavelmente veio à tona, claro. Todo mundo tinha pegado o metrô pra chegar ali, inclusive nosso casal de amigos Ada Luana e Diego Bressane, que traziam a bebezinha pequena à tiracolo. Mas a ideia era descontrair, celebrar, pensar no amor, e que lindo – Foi Brasília, que nos uniu ali.

 

A gente bebeu, comeu, a gente falou de tudo – de nossas experiências e decisões de vida – constituir família, ser pai, ser mãe, não ser mãe, ser ARTISTA. De repente, alguém comenta o anúncio oficial que acabara de ser divulgado pela Casa Branca de fechar as fronteiras com toda a Ásia e a Europa. Nada é dito sobre o continente sul-americano, no entanto.

 

E ali, quase como numa peça de teatro, houve uma suspensão no ambiente. Não um silêncio total, isso é difícil numa casa cheia de artistas. Mas agora eu tinha certeza que “os ares” estavam presentes, e que não era só eu que sentia. E então uma movimentação de celulares e de mensagens [via WhatsApp] começou. Ao mesmo tempo, ninguém queria muito quebrar o clima, era quase como se todos nós estivéssemos “traficando” discretamente nossas emoções via internet.

 

Os mais animados tentaram uma descontração puxando um brinde, ou um convite pra um cigarro. Fizemos então um brinde lindo, emocionado e sem nenhuma certeza de quando íamos nos reunir assim de novo. O mais irônico e descolado Roustang, percebendo claramente a presença tátil dos “ares” intima toda a trupe a se dividir e a jogar “imagem e ação”. Gênio. Rápido e rasteiro, pôs todos a pensar em nomes de filmes e coisas antigas que alguns de nós nem tínhamos referência (Cocoon, haha)…

 

Pela primeira vez naquele dia, eu senti “os ares” desaparecerem. Ficamos ali suspensos, desafiando [uns aos outros] nossas memórias de filmes e ações corporais de um passado que agora fica ainda mais longe. A casa que Rodrix mora é muito cênica, pra grande contemplação deste momento de reunião, e antes de irmos cada um pra seu cada qual, tiramos uma fotografia que diz tudo sobre essa geração dum passado da qual pertenço e me orgulho muito de fazer parte. Essa geração que Brasília me deu de presente, e que a arte juntou e nada separou nem vai separar.

 

Nem o fim do curso, nem a distância, nem um vírus, nem uma pandemia. A arte, esse conglomerado de gente teimosa, é o que nos fará sobreviver a esses “ares” tão estranhos que estamos vivendo agora.

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