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Artigo | Lula leva a questão da pobreza para o debate ambiental  

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A Cop27 encaminhava-se melancolicamente e resignadamente para sua metade final, depois de ouvir os países mais ricos e seus dirigentes, quando Lula chegou lá, cercado pelo canto e pelas expectativas de uma grande revoada de brasileiros e também de um grande fã clube internacional em que se destacavam as vozes dos povos indígenas de todo o planeta.

 

— O Brasil está de volta! – festejavam Lula e sua torcida, diante do aplauso entusiasmado de delegações que viam a conferência ganhar vida depois de seu início decepcionante. Em seu discurso, Lula de novo foi fundo na emoção de seu público, o público presencial limitado ao espaço disponível do auditório em que falava e o público praticamente sem limites que o acompanhou pela televisão no mundo inteiro, ao chamar sua atenção para os vínculos entre o agravamento da crise climática e o agravamento da concentração de renda, da pobreza e da fome em todos os quadrantes do planeta:

 

Não haverá futuro – advertiu Lula – enquanto continuarmos cavando o poço sem fundo da desigualdade.

 

A profundidade e o aprofundamento desse poço costumam ser ignorados pelas elites econômicas do mundo e nunca tinham sido vinculados com tanta força no até agora infecundo debate das conferências da ONU sobre o meio-ambiente, desde a Rio-92, no Brasil, há trinta anos.

 

Nela, Fidel Castro fez um discurso surpreendentemente curto, que surpreendeu mais ainda pelo tema:

 

— Vim fazer a defesa – disse Fidel – de uma espécie ameaçada de extinção: o ser humano. 

 

Espécie que ainda não se reconhecia ameaçada de extinção pelo avanço da degradação ambiental, o ser humano já era vítima da ascensão então vertiginosa do neo-liberalismo e da concentração de renda que ele produz incessantemente. Hoje, trinta anos depois, os números são inacreditáveis e chegam a parecer ridículos, como se fossem uma fantasia de ficção científica. 

 

Alguns exemplos, coletados por Jeff Sparrow, do do The Guardian, de Londres:

 

— A Oxfam nos diz que apenas dez pessoas possuem agora mais riqueza que os 40% de menor renda da humanidade. 

 

— Entre abril de 2020 e abril de 2021, Elon Musk ganhou quase 140 bilhões de dólares. Nos Estados Unidos nesse período, o salário médio anual da população era de cerca de 75 mil dólares. Em outras palavras, Musk ganhou 1,8 milhão de vezes mais que o americano médio, cerca de 383 milhões de dólares a cada dia, em todos esses dias.

 

— Não faz muito tempo que o Zuck (Mark Zuckerberg, do Facebook) ganhava 28,5 mil dólares por minuto. A publicação Business Insider calculou que ele podia dar 100 dólares a cada habitante dos Estados Unidos e ainda assim manter intacta metade de sua fortuna.

 

— Anos atrás a colunista Arwa Mahdawi, do The Guardian, verificou que, se fosse possível uma pessoa ganhar 5 mil dólares por dia desde o ano de 1493 até a atualidade, essa pessoa ainda seria menos rica que Jeff Bezos.

 

— Jeff Bezos, segundo um cálculo, ganha 3.715 dólares por segundo

 

Todo ano a Oxfam divulga novos números dessa ordem, mas a cada ano mais assustadores, no relatório que sempre publica às vésperas do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suiça, e o Fórum nunca dá a menor atenção a eles. Com o próximo Fórum, porém, pode ser diferente.

 

O próximo Fórum de Davos está marcado para começar no dia 15 de janeiro e terá Lula como seu convidado. Lula, com duas semanas de governo, já terá anunciado suas primeiras medidas de impacto e, por isso e por ser quem é, será com certeza ouvido pelo Fórum, especialmente quando falar na verdadeira cumplicidade entre as ameaças ambientais e o poço sem fundo da desigualdade e da concentração de renda.

 

Bastará isso para que os senhores do poder econômico do mundo tomem conhecimento das pesquisas da Oxfam, especialmente de números que antes consideravam apenas curiosidades estatística sem consequência social, mas que a partir de agora passem a considerar criminosos e suicidas – demonstração de que um modelo econômico não tem como sobreviver, se, em meio às carências das maiorias e da fome de muitos, um Elon Musk ganha cerca de 383 milhões de dólares por dia, um Mark Zuckerberg  ganha 28,5 mil por minuto e um Jeff Bezos ganha 3.715 por segundo

 

(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

 

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