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Artigo | Dirigentes do picadeiro e outros males neoliberais

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Tanto para circo quanto para treinamento de equinos, o neoliberalismo proporcionou nova safra de dirigentes que, fora da sucessão hereditária, que hoje apenas existe na governança do Reino Unido, parecia desaparecida da história.

 

 

Silvio Berlusconi (1936-2023), tendo dirigido a Itália entre 1994 e 1995, pode se apresentar com certa senioridade nesta relação. Porém, disputa a vaga com Fernando Collor (1949), que chegou à presidência do Brasil em 1990, mas teve curta duração.

 

 

Outros dirigentes famosos nesta formação temos desde a potência estadunidense – Donald Trump (1946), presidindo os Estados Unidos da América (EUA), de 2017 a 2021 – até o Nayib Bukele (1981), presidente da República de El Salvador desde 1º de junho de 2019.

 

 

Tivemos representantes que mataram muitos como Volodymyr Zelensky (1978), presidente da Ucrânia desde maio de 2019, após golpe de estado praticado pelos EUA contra a população eslava ucraniana, ou fizeram a pregação de ódio, como Jair Bolsonaro (1955), presidindo o Brasil de 2019–2022.

 

 

Neste grupo aparece agora Javier Milei (1970), cujo palco era o rock, na terra do tango.

 

 

O que os unifica é o mesmo discurso de slogans, de lugares comuns, fáceis de compreensão para analfabetos políticos, pouco informados e com dificuldades de articularem sistemas cognitivos, que constituem maioria da massa de manobra em todo mundo, para política, para compras e para os transitórios ídolos musicais, esportivos, sob todas as ideologias. Se uns combatem o comunismo, outros o defendem, se uns são racistas outros nem sabem exatamente o que isso possa significar.

 

 

Sob vários aspectos, nestes dirigentes de picadeiro, podemos incluir Benjamin Netanyahu (1949), primeiro-ministro de Israel desde dezembro de 2022, mas que lá já esteve de 1996 a 1999.

 

 

Não enumeraremos todos, porque o que nos importa é identificar como eles surgem, em que circunstâncias a sociedade cai nestas arapucas, e como perceber suas aproximações. Uns constroem carreira apagada por trinta anos, outros aparentemente brotam do nada.

 

 

Porém há algo em comum. A miséria econômica e moral, o descaso do Estado Nacional substituído pelo mercado, que o neoliberalismo, com sua bíblia, o “Consenso de Washington” (1989), dissemina pelo orbe terrestre.

 

 

O ATAQUE

 

 

Um ataque desta monta, que modifica a política, as relações sociais, a economia, não surge de única fonte, muito ao contrário, ele se constrói no tempo e em diversas vertentes.

 

 

Também este ataque necessita de um ninho, um berçário de mudas para as épocas e locais adequados. A história e o estudo do poder, a cratologia, nos orientam na procura das origens e do fortalecimento deste ataque à humanidade.

 

 

Os historiadores africanos Boubou Hama (1906-1982) e Joseph Ki-Zerbo (1922-2006), em artigo no primeiro volume da magnífica “História Geral da África”, produzida pela UNESCO em oito volumes, escrevem:

 

 

“É preciso atingir uma concepção geral do mundo para entender a visão e o significado profundo do tempo entre os africanos. Veremos então que no pensamento tradicional, o tempo perceptível pelos sentidos, não passa de um aspecto de um outro tempo, vivido por outras dimensões da pessoa” (B. Hama e J. Ki-Zerbo, “Lugar da história na sociedade africana”).

 

 

Em diversos artigos, principalmente com a parceria do doutor em ciência política Felipe Maruf Quintas, temos identificado a origem do neoliberalismo no movimento encetado pelas finanças, dominantes na Grã-Bretanha, para reconquistar o poder além-fronteiras, após a derrota na I Grande Guerra. Desta derrota e daquela que ocorreria 27 anos depois, o “mundo onde o Sol nunca se punha” ficou extraordinariamente reduzido. Mas foi dominado por outro princípio colonizador, o dos organismos internacionais sob a direção dos EUA, com apoio dos países europeus signatários da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

 

 

Com profissionais de diversas origens: austríaca, estadunidense, inglesa, alemã, criou-se o neoliberalismo, embora se distanciasse das origens liberais do iluminismo europeu do século XVIII, aproveitou a palavra liberal que induzia a pensar em “liberdade”.

 

 

Veja-se a quantidade de vezes que o mais recente governante neoliberal, Javier Milei, exclamou, em seus dois primeiros pronunciamentos após a vitória eleitoral: liberdade.

 

 

Iniciemos então a análise do ATAQUE pela palavra “liberdade”, que está no conjunto das deturpações semânticas, da criação da novilíngua neoliberal (obrigado George Orwell, pelo “1984”).

 

 

OS SUBCONJUNTOS DA COMUNICAÇÃO

 

 

A palavra comunicação surge no pensamento contemporâneo com “elevado significado e importância” (Alfred J. Ayer, “Language, Truth and Logic”, 1936). A. J. Ayer (1910-1989), educador e filósofo britânico, foi muito influenciado pelas aplicações da “teoria matemática da comunicação”, de Claude Shannon (1916-2001), que produziu o instrumento fundamental para conquista do poder neoliberal: a comunicação digital e quantificável.

 

 

Porém não é bastante o meio, também há necessidade da semântica, da gramática e da homogeneidade cognitiva da política. Assim se processou a colonização, como se observa nos idiomas falados pelo mundo.

 

 

O alemão, o árabe, espanhol, francês, inglês e português são falados em muitos locais além dos seus territórios de origem.

 

 

Na África, das 112 línguas nativas que sobreviveram ao processo da colonização, apenas 20 têm o status de idioma oficial, e esta quantidade teve a contribuição de nove idiomas nativos, além do africânder, estabelecidos como línguas da África do Sul.

 

 

Nas Américas, apenas o Paraguai e a Bolívia reconhecem como oficiais línguas nativas: guarani, nos dois países, quíchua e aimará, apenas na Bolívia.

 

 

Para Lev Vygotski (1896-1934), o pensamento e a palavra não são ligados por um elo primário, porém, ao longo da evolução do pensamento e da fala, tem início uma conexão entre ambos, que se modifica e se desenvolve. Segundo Vygotsky, o fato mais importante revelado pelo estudo genético do pensamento e da fala é que a reação entre ambos passa por várias mudanças. O progresso da fala não é paralelo ao progresso do pensamento. As curvas de crescimentos de ambos cruzam-se muitas vezes; podem atingir o mesmo ponto e correr lado a lado, e até mesmo fundir-se por algum tempo, mas acabam se separando novamente. Isso se aplica tanto à filogenia (estudo da evolução da espécie) como à ontogenia (processo biológico do desenvolvimento dos indivíduos, desde a fecundação do óvulo até a maturidade).

 

 

O neoliberalismo apostou na linguagem digital para a globalização. Obteve muitos êxitos, principalmente pela substituição de vários veículos de comunicação pelo aparelho celular. E este aparelho está sob a gestão das finanças, tanto no hardware quanto no software, como se verifica buscando os efetivos possuidores das ações que controlam as empresas do ramo.

 

 

Existe um desenvolvimento da linguagem, Vygotsky observa que o pensamento da criança inicialmente evolui sem a linguagem; assim como os seus primeiros balbucios são a forma de comunicação sem pensamento. Entretanto, já nos primeiros meses, a função social da fala já é aparente: a criança tenta atrair a atenção do adulto por meio de sons variados. Até que, por volta dos dois anos, a criança possui um pensamento pré-lingüístico e uma linguagem pré-intelectual, mas a partir daí, eles se encontram e se unem, iniciando um novo tipo de organização do pensamento e da linguagem.

 

 

Nesse momento, surge o pensamento verbal e a fala racional. A criança descobre que cada objeto tem seu nome e a fala começa a servir ao intelecto e os pensamentos começam a ser verbalizados.

 

 

Todas estas descobertas de Lev Vygotsky, e outras contribuições da matemática da comunicação (algoritmos, métricas, inteligência artificial) são aplicadas para o embrutecimento da razão e no direcionamento da população para agir como rebanho, na melhor hipótese, ou de manada enfurecida no mais das vezes.

 

 

A DEFESA

 

 

Este ataque das finanças, hoje apátridas, não se concentra nem em um país, nem em uma instituição, mas se utiliza de Estados Nacionais, de instituições internacionais ou plurinacionais para suas ações, onde a guerra é um instrumento corrente.

 

 

Assim o bom combate, pelo triunfo da humanidade, precisa, de início, ser esclarecedor. Trabalhar os veículos de comunicação para que se divulgue as ações do neoliberalismo, suas formas e falácias, denunciar as farsas, sejam políticas mas principalmente as mais insidiosas que são as semânticas. É possível liberdade, exclamada por Milei, numa Argentina sem Estado, sem moeda, sem instituições que tenham origem nas aspirações e necessidades populares?

 

 

O Brasil levou desde a primeira estrutura de Estado, a colonial, com Tomé de Souza, 381 anos para que a educação e a saúde passassem a ter a atenção do Estado.

 

 

Estaria Milei, que por duas vezes enalteceu a Argentina no século XIX, realmente preocupado com a educação e a saúde, como diz sua propaganda?

 

 

Mas, se um mundo unipolar desconhece as realidades locais, no afã de ter única solução para todos os problemas, o mesmo hambúrguer com coca-cola, como a comida de todos, a resposta só pode ser o contrário, o mundo multipolar.

 

 

CONSTRUIR A MULTIPOLARIDADE

 

 

O nacionalismo saiu da discussão política com a entrada do neoliberalismo, transvestido na redemocratização do Brasil. Mas não veio sozinho. Trouxe a privatização para excluir as empresas brasileiras. E não só as estatais como logo sentiram Mendes Jr., Odebrecht, Andrade Gutierrez, Abraham Kasinski, Ermírio de Moraes e tantos outros construtores do Brasil contemporâneo.

 

 

Também os banqueiros nacionais foram perdendo seus espaços para as finanças apátridas, como sentiram Andrade Vieira, Magalhães Pinto e, mais recentemente, Souza Aranha, Moreira Salles, Setúbal e as descendentes do criativo Amador Aguiar.

 

 

O Brasil saiu da competição não por qualquer incapacidade, pois foi vitorioso em licitações internacionais, até as promovidas nos EUA. Porque o sistema financeiro neoliberal é concentrador. É monopolista.

 

 

E as energias, fundamentais para soberania nacional, estão subordinadas aos interesses financeiros internacionais. Nenhum apagão surpreenderá doravante; é o projeto de poder neoliberal em ação.

 

 

O Brasil deve se inserir no mundo multipolar sem medo. Há que conhecer a história e ver a diferença de comportamento das governanças da China. Desde antes de Cristo, ao tempo das Rotas da Seda, era o comércio, sem dominação, de trocas que fazia o crescimento da China.

 

 

O Embaixador José Maurício Bustani, como intelectual, patriota, de ilibada conduta, vê nos BRICS alargado a resposta que devemos dar ao globalismo unipolar. Porém permita a esse confuciano analista colocar a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI, em inglês) como um complemento necessário.

 

 

As nações, cada qual seguindo seu caminho, sua história, sua cultura, seu modo de aproveitar os seus recursos naturais e administrar os rigores que a natureza lhes impõe, necessitarão produtos, serviços e ajuda, sem que lhes seja tolhida a total liberdade decisória. O caminho do comércio é o que lhes permite esta colaboração.

 

 

Nestes dez anos do Cinturão e Rota, a China e seus 150 parceiros são a Organização das Nações Unidas (UN, em inglês) sem a desigualdade dos vetos, das exclusões no desenvolvimento nuclear, sem discriminações.

 

 

É verdadeiramente a construção do mundo da paz e da fraternidade.

 

 

Os dirigentes de picadeiro são o oposto. Excludentes, inimigos do trabalho, das diversidades que constituem a alegria do mundo, suas vitórias ocorrem pelas burlas, pelos falsos dilemas, pelos comportamentos que nem mesmo eles adotam.

 

 

Comecemos a luta pela comunicação, pelos esclarecimentos e sem medo do povo, que os neoliberais celebram a redução populacional.

 

 

(*) Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, pertenceu ao Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ESG), foi Consultor da Organização das Nações Unidas na África, em 1987-1988 (UN-DTCD), e professor universitário.

 

 

Artigo publicado, originalmente, no site Pátria Latina




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