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Arte, política e ideologia: uma mirada feminista sobre Medeia

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Em meio a tantos temas importantes neste mês de lutas das mulheres, escrevo hoje sobre as Artes, formas ideológicas de conhecimento, e sobre como podem ser revolucionárias ou, ao contrário, alienantes, a partir de uma personagem bastante conhecida, Medeia, princesa de Cólquida, humana descendente de divindades (neta do Sol, filha de Hécate, sobrinha de Circe) mas que, por ser mulher e estrangeira na cultural patriarcal grega, foi enganada e descartada, vindo a elaborar uma revanche que se manteria por séculos nas mentes e obras de artistas de todas as linguagens.

 

 

 

Existe intensa intertextualidade – que consiste na presença efetiva de um texto em outro texto, seja por citação, por plágio ou por alusão; noção que pode ser compreendida, também, como a maneira pela qual textos de todos os tempos dialogam entre si, mais ou menos explicitamente, nem sempre de forma intencional, mas sempre revelando “ecos” de ideias e matrizes anteriores e suas inevitáveis (re)atualizações – em torno da heroína. Essas relações interliterárias acabam por compor aquilo que chamamos de “Tradição”. A quantidade de obras sobre Medeia, ou sua fortuna crítica (tudo o que já se escreveu sobre determinado tema), revelam o incômodo que a figura feminina dissonante que ela encarna provoca até os dias atuais. Medeia figura em inúmeros poemas e tragédias, na literatura medieval e até no cinema contemporâneo de Win Wenders.

 

 

 

Medeia era princesa na Cólquida, terra considerada bárbara pelos gregos, e uma feiticeira poderosa. Jasão, tendo seu trono roubado por um tio, recebe deste a missão de trazer uma pele de carneiro de ouro, mágica, símbolo de abundância e riqueza, o “velocino de ouro”, para Iolco (sua terra), quando só então o tio devolveria o trono usurpado. Pélias, o tio, envia Jasão para essa tarefa justamente por sabê-la impossível; o sobrinho certamente morrerá na aventura. No entanto, Jasão é protegido pela deusa Athena, que cria um ardil no qual seu próprio sobrinho, Eros (o Cupido, filho de Afrodite), alveja Medeia, de maneira que a feiticeira descendente de divindades ainda mais antigas ajude Jasão a realizar o impossível.

 

 

 

O “velocino de ouro” era um tesouro do reino de seu pai. Medeia, enfeitiçada pelo Cupido, auxilia Jasão nas provas mortais: domar dois touros divinos, presentes do deus Hefesto, que tinham cascos e chifres de bronze e lançavam fogo pelas narinas, prendendo-os a um arado de diamantes; lavrar um vasto campo com eles e semear os dentes de um dragão morto por Cadmo (primeiro da linhagem de Édipo, outro mito conhecido) e lutar ao mesmo tempo com os vários gigantes que brotariam nascidos desses dentes; por fim, vencer o segundo dragão, vivo, que vigiava o tesouro dentro do bosque sagrado do deus Ares. Perplexo, Jasão já estava pronto para voltar à sua terra, quando recebeu a ajuda da deusa Athena na forma da paixão de Medeia. O herói, então, fez o juramento solene de casar-se com ela e levá-la para a Grécia, e assim recebeu da feiticeira tudo o que precisava para cumprir as tarefas fatais.

 

 

 

Fogem e são exilados mais de uma vez, se fixando em Corinto, onde tiveram dois filhos e viveram em paz até que o rei, Creonte, teve a ideia de casar Jasão (ainda um aristocrata e herói grego) com sua filha Glauce. Sem hesitar, Jasão repudia Medeia. O soberano, então, vai pessoalmente bani-la de suas terras. Medeia consegue convencer Creonte a lhe conceder apenas mais um dia, sob pretexto de despedir-se dos filhos. E é nesse curto espaço de tempo que ela conseguirá empreender sua vingança inesquecível.

 

 

 

Medeia envia pelos filhos um vestido finíssimo e uma coroa de ouro e pedras à Glauce, a jovem noiva de Jasão. Mas assim que a moça experimenta os presentes, eles se agarram à sua pele e a queimam viva; queimam também o pai que corre para acudi-la, e morre abraçado à única filha. O incêndio destrói o palácio real e todos que estavam nele.

 

 

 

Jasão corre ao palácio onde vivera com Medeia, e já é esperado por ela, que imola os dois meninos diante dele, fugindo em seguida num carro de fogo enviado por seu avô, o Sol. Como a descendência era o que de mais valioso o homem grego tinha, ao ser o causador de tanto terror, Jasão terá como destino tornar-se um proscrito em Corinto e em toda terra conhecida, um pária, um “morto em vida” como Édipo o foi até ser reconciliado com os deuses em Colono. Aqui cabe explicar: pior do que matar o próprio Jasão seria matar os descendentes dele, e foi o que Medeia fez.

 

 

 

Paira então sobre esta heroína o peso do infanticídio. Originalmente, a feiticeira não assassina os próprios filhos. É Eurípedes, o poeta ateniense, o primeiro a trazer para as mãos da própria mãe o sangue das crianças, provavelmente inspirado no mito de Procne, que matara seu filhinho para vingar-se do marido. Em algumas versões do mito, os filhos de Medeia foram lapidados (mortos a pedradas) pelos cidadãos de Corinto, por terem levado os presentes envenenados a Glauce; em outras versões, Medeia os mata acidentalmente, tentando concebê-los sem pai dentro de um templo; noutra versão, ainda, um tributo deveria ser pago todos os anos por Corinto, com sete meninos e meninas e, num desses anos, os filhos de Medeia foram enviados para sacrifício.

 

 

 

O infanticídio não era um tabu na antiguidade mítica. Inúmeros personagens das epopeias e das tragédias sacrificaram crianças sem, contudo, despertarem o escândalo que cerca Medeia. No entanto, a existência quase exclusiva de discursos masculinos sobre esses personagens consolida uma vilanização que recai apenas sobre ela, por ser mãe, impedindo outras explicações para suas escolhas; repete-se essa condenação ora em obras artísticas, ora na crítica (igualmente dominada por homens), onde abundam descrições como “sombria”, “demoníaca”, “descontrolada”, ainda que algumas vezes esses juízos caiam em contradição. Albin Lesky, em obra que é referência para estudantes de teatro até os dias atuais, parece não importar-se com esta contradição: a determinada altura, afirma sobre a cena entre Medeia e Creonte que “o cálculo frio de sua razão é mais forte que o fogo em seu peito, e ela se humilha até à súplica e consegue do inimigo o dia de prazo que lhe dará espaço de tempo para a vingança”; para, adiante, sustentar que “no carro de dragões, a feiticeira goza com selvagem prazer o triunfo sobre o homem que odeia”.

 

 

 

O mesmo crítico aponta a visão sobre a condição das mulheres de Atenas que é traduzida por Eurípedes, ao descrever este lhe põe na boca “uma fala generalizada sobre a aptidão da mulher para a ação malévola”. Medeia segue descrita por críticos e teóricos como “infernal”, “antinatural”, “demoníaca”; e as qualidades extraordinárias dessa estrangeira contrastam com a vida da mulher grega, restrita ao gineceu, mulheres sobre as quais “o ideal era nada se saber”. O conflito de Medeia lança ao centro da polis (e da tradição literária ocidental) os sofrimentos que, silenciosamente, impregnavam as almas e carnes de gerações de mulheres atenienses, tebanas, cretenses, estrangeiras. Em mais de um momento a condição miserável das mulheres é denunciada pela personagem. Àquela realidade, Eurípedes contrapõe uma esposa que derrota, sozinha, muitos homens de valor – seu pai, o rei Eete; o rei Pélias; o rei Creonte; mas se vê humilhada pelo único homem ao qual se dedicara.

 

 

 

Depreciada por Jasão, talvez a ira de Medeia assuste tanto devido à sua recusa de ser rebaixada como aliada vital do argonauta. Mobilizando capacidades raras, que se elevam muito acima das forças do homem que a acompanha, Medeia se insurge antes como indivíduo que como mãe; denuncia a ofensa sofrida, a aliança quebrada, o pacto sagrado desrespeitado. Reivindica de Jasão o juramento, que estava entre os mais sólidos valores dos genos; não admite sofrer silenciosa e abnegadamente. Como aristocrata, ela só pode responder à tamanha traição com a morte. Mas a vemos reduzida à “tragédia do ciúme”. Leitores e espectadores de todas as épocas são convencidos de que a paixão de Medeia faz emergir algo que é destrutivo, irracional, motriz de devastação portentosa – e absolutamente indesejável.

 

 

 

Há que se abordar Medeia considerando os problemas de gênero e a sujeição imposta às mulheres pela estrutura patriarcal ao longo de séculos. Medeia é convertida em símbolo da mulher a ser aniquilada – ou a Mulher que as mulheres não devem ser; rever essa condenação é importante no combate às estruturas de poder vigentes e aos discursos hegemônicos que, historicamente, oprimem grandes segmentos sociais – como as mulheres -, monopolizando as representações sociais e artísticas acerca delas, atribuindo-lhes a maternidade como destino inexorável, concomitante à fragilidade, debilidade, dependência e outros traços sempre negativos, falhos, insuficientes, que compõem a noção de “feminino” ou “feminilidade”.

 

 

 

Paira sobre esta heroína o “crime” de ser uma mulher que não corresponde ao papel feminino estabelecido em quaisquer das eras gregas, nem nas cortes antigas, nem na pólis. Ainda que seu poder salve Jasão todas as vezes que este necessita, não garante seu reconhecimento, nem por parte do companheiro, nem da posteridade. Minha tese é de que, de muitas maneiras, Medeia é infinitamente mais admirável que o guerreiro que a sequestra e desposa, mais poderosa que todos os reis que enfrenta; e justamente por esses motivos é mal vista pelo patriarcado. Autores os mais diversos não cessam de repetir: “Medeia é a imagem do caos e das forças maléficas”.

 

 

 

Autores homens. Por isso é tão importante que as mulheres ocupem, urgentemente, a criação de obras como contra narrativas, e os espaços de autoridade e de difusão que significam a Teoria e a Crítica das Artes; enquanto isso não acontecer, seremos demonizadas sempre que reagirmos às violências que nos dirigem.

 

 

 

(*) Sheila Campos – atriz, pesquisadora, comunicadora e criadora da Escola Feminista de Brasília.

 

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