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Arte, Política e Ideologia: Medeia hoje?

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Em artigo anterior, vimos de forma resumida o enredo de Medeia, algumas das variações do Mito e tratamentos sobre a heroína trágica grega. Vamos falar agora sobre as Artes e revisitar essa mulher viril que, até o século XXI, permanece em cartaz em páginas, telas, redes de computadores e mentes de artistas.

 

Muitas das palavras que usamos quotidianamente nos parecem tão bem compreendidas que dificilmente as questionamos. São os casos de “democracia”, “sociedade” ou mesmo “indivíduo”. Gostaria de traçar um caminho que deixe claro como o patriarcado consiste numa construção, na qual representações sociais consolidam imaginários, que constituem uma cultura (em acepção ampla do termo) que não podemos jamais “naturalizar”. Cultura tem origem em um termo agrário, cultum, que significa “cultivo”, o trabalho com a terra. Então, semelhante à cultura de milho ou de batatas, a palavra agrega o sentido de “cultura das letras”, “cultura das ciências”, “cultura das belas-artes”. Na concepção francesa, trata-se de um exercício da inteligência, estudos ou dedicação do espírito à alguma coisa. Já no germanismo, kutur, é “um conjunto de disponibilidades mentais de um povo para uma época”, o que também é compreendido como utensilagens mentais.

 

Apesar de cultura significar uma “herança social e total da Humanidade”, temos que compreender também que “uma cultura significa determinada variante da herança social”. Assim, cultura como um todo compõe-se de um grande número de culturas, cada uma característica de um certo grupo de indivíduos.

 

Cultura não pode ser confundida com “civilização”. As culturas são dinâmicas, dispersas, têm vitalidade; a civilização unifica e, de certa forma, “cristaliza”. Importante distinguir isso porque as culturas sobrevivem às civilizações.

 

Todas as imagens, informações, textos, sons alimentam imaginários, que são não só o meio pelo qual uma sociedade “se vê” mas que, como afirma Nobert Elias, condicionam “como as diferentes pessoas que formam essa sociedade entendem a si mesmas; em suma, a autoimagem e a composição social dos indivíduos”. Assim, todo pensamento humano é uma representação, uma re-apresentação, ou seja, um conjunto de articulações simbólicas. O imaginário se constrói como um grande “museu”, num encadeamento de imagens, informações, lembranças, dispostos numa grande narrativa, que é coletiva e de cada um.

 

Denise Jodelet, que vem da Psicologia Social, desenvolve esta noção de representações sociais. Esta autora chama a atenção para a ininterrupta disputa de pensamentos, ou de mentalidades, com a sobreposição de um (ou alguns) que denominamos pensamento hegemônico. A simples existência de um pensamento hegemônico revela que ele não é “o único”; também não é o “verdadeiro”; mas é aquele que, por muitos motivos, “venceu” na visibilidade e assimilação em relação aos demais. Isso condicionará crenças, valores, comportamentos, afetos, nossas invenções, nossas maneiras de existir.

 

Então, as Artes têm um papel fundamental na construção político-ideológica social, sustentando ideologias e visões de mundo, por meio dos poderes subjetivantes das várias linguagens artísticas, com consequências concretas nas disputas simbólicas que engendram os valores, as práticas, os comportamentos em todos os tempos – o que nós chamamos, também, de disputas de narrativas. Por isso é importante conhecermos a historicidade das formas de ver, o que nos permite alcançar regimes de verdade e concepções de gênero, raça, classe que manterão o statu quo; a construção das maneiras de pensar, dos modos de interpretar o mundo, são construções historicamente localizáveis.

 

Voltando à personagem: Teresa de Laurentis aponta como as tecnologias de gênero produzem formas de subjetivação que são condicionadoras de nossas realidades, já explicando que Laurentis entende gênero como um produto de diferentes tecnologias sociais – que reúnem as ciências, as artes, os sistemas jurídicos, as instituições, os meios de comunicação, etc.; então, o que se entende por gênero acaba naturalizado como um “fato”, quando consiste também numa construção. É urgente desnaturalizarmos essas representações fortemente enraizadas em nossos imaginários colonizados.

 

Contamos a fábula de Medeia em nosso encontro anterior. Retomemos o aspecto importante: o principal motivo da repulsa que paira sobre esta heroína é o assassinato dos filhos. Que precisa ser rediscutido.

 

Primeiro, porque heróis masculinos das lendas gregas, como Agamêmnon e Atreu, cometeram infanticídio: Agamêmnon comete filicídio – ele mata Iphigênia para conseguir bons ventos para os navios gregos; Atreu mata os sobrinhos e os serve em banquete ao próprio irmão, Tiestes. Outras mulheres também impetraram o crime de infanticídio: Hécuba, na tragédia de Eurípedes, vinga-se de Polimestor trucidando seus filhos pequenos; e até deuses e deusas assassinaram filhos, acidentalmente ou não. Por outro lado, Clitemnestra, outra heroína forte, é assassinada por um filho, mas esse matricídio não basta para condenar Orestes. Somente Medeia é execrada pela posteridade.

 

A discussão, infelizmente, é atual, quando um menino é morto por tortura e espancamento no Rio de Janeiro e, pautada pela mídia tradicional, a audiência acompanha cada detalhe dos dias da mãe, mas pouco se sabe o que fez ou com quem esteve o padrasto que é o suspeito pelo assassinato. Nesta tragédia, a acusada destes dias é a Medeia atual. Repete-se a demonização da mulher – ainda que não defendamos inocência dessa mãe; mas precisamos notar a hiperexposição da maternidade de uma mulher que ocupa os noticiários; os mesmos que silenciam sobre o suspeito, homem que, inclusive, não espancou somente aquele menino, mas outras crianças antes dele.

 

A facilidade com que condenamos uma mãe vem de séculos. O “hábito” de condenarmos mulheres é reforçado, inclusive, desta forma. As Artes são expressões inteiramente comprometidas com projetos de sociedade. A cada novo artigo, vamos visitar personagens, obras, autores e/ou estilos para discutirmos mais sobre as Artes e as vidas das mulheres até os dias de hoje.

 

 

(*) Sheila Campos é atriz, comunicadora e criadora da Escola Feminista de Brasília.

 

 

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