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Apesar da vacina, Brasil tem de impor regras sanitárias de isolamento para vencer o coronavírus

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Entrevista | Gulnar Azevedo e Silva

Assim como a população, a comunidade científica brasileira comemorou, no domingo (17), a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de aprovar as únicas vacinas existentes em território nacional e recomendar o uso emergencial da CoronaVac e AstraZeneca no País.

 

A vitória do bom senso e da ciência, contudo, não é suficiente para impedir o aprofundamento da catástrofe que o novo coronavírus tem disseminado no território nacional. Em entrevista para o Jornal Brasil Popular, nesta segunda-feira (18), Gulnar Azevedo e Silva, médica epidemiologista, professora e pesquisadora do Instituto de Medicina social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e, dentre outras coisas, presidenta da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), analisa a pandemia, a reunião da Anvisa, a situação de Manaus, Amazonas e do Brasil.

 

A médica afirma que é importante vacinar todo mundo logo. Mas, adverte que, apesar da vacina, o brasileiro não pode nem pensar em abrir mão das medidas de isolamento social, distanciamento físico, uso correto de máscara, higienização e, sobretudo, evitar aglomerações. “No caso de transmissão de vírus respiratórios, as medidas são as recomendadas como agora: uso de máscara, distanciamento físico, rastreamento de casos e isolamento de casos confirmados e suspeitos, bem como seus contatos”, assegura.

 

Ela também analisa a pandemia do ponto de vista da tragédia econômica que o País enfrenta. Sem recursos financeiros públicos nos setores primordiais da vida, o Brasil não fez seu dever de casa. O resultado é que, de referência mundial em produção de vacinas, com a maior cobertura de vacinação do mundo, o País passou a ser, no governo Jair Bolsonaro/Paulo Guedes, um pária mundial e território de negacionismo científico para justificar políticas neoliberais de Estado mínimo em que o dinheiro público é desviado para interesses privados.

 

Gulnar critica a inação do governo federal, o desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS) e recomenda aos gestores públicos providenciar, urgentemente, juntamente com a vacina, um plano nacional integrado de combate à pandemia senão o Brasil não derrotará o vírus. “Uma pandemia dessa monta, nacional, mundial, não pode ser enfrentada sem a ajuda do governo federal, dos estados e sem muita integração”. Confira, a seguir, a entrevista que o JBP fez, nesta segunda-feira (18), com a presidenta da Abrasco.

 

JBP – Qual análise da reunião da Anvisa?

 

Gulnar Azevedo – Acho que fizeram um bom trabalho. A gente tem de reconhecer que o corpo técnico da Anvisa é muito bom. Eles trabalharam, mostraram, viram com cuidado. A maneira como foi feita a aprovação das vacinas foi de forma transparente. Não há nada que fale contra e o resultado é este mesmo: precisamos das duas vacinas que tem no Brasil. São as que existem. E, o que é importante: começar a vacinar logo.

 

JBP – Houve uma espécie de “embromação” da instituição?

 

Gulnar Azevedo – Acho que não e não acredito nisso. Está tudo sendo feito no sentido de correr contra o tempo, porque o tempo pesa, neste momento, e com as condições que nós temos. Trata-se de um vírus bem complicado, muito transmissível e não é simples. A ciência tentou correr atrás e temos de fortalecer nossas instituições que garantem a produção de vacina e a vacinação no Brasil, que é a Fiocruz e o Butantan.

 

JBP – Enquanto epidemiologista, qual a análise que a senhora faz da situação de Manaus e do Amazonas?

 

Gulnar Azevedo – Situação muito crítica, muito grave. Um crescimento muito rápido de casos. Está se assemelhando ao que foi na pior fase da pandemia lá, em 2020. Temos de ficar atentos porque esse crescimento no número de transmissão, consequência, provavelmente, das aglomerações, festas de fim de ano, e tudo o que aconteceu em termos de relaxamento das medidas de isolamento e distanciamento sociais, uso de máscara etc., temos de prestar atenção no seguinte: quanto maior for a transmissão, o maior número de casos, mesmo que na sua maioria sejam casos leves ou assintomáticos, vai demandar uma quantidade de leitos para a assistência. Leitos, inclusive, de UTI. E o quadro que a gente está vendo é muito dramático de pessoas precisando de oxigênio e Manaus não tendo condições de oferecer isso.

 

JBP – Essa situação pode se repetir em outras unidades da Federação?

 

Gulnar Azevedo – Claro que pode se repetir porque não foi somente em Manaus que ocorreram essas festas e outras aglomerações. Não é só lá que a gente vê a população, infelizmente, usando, inadequadamente, as máscaras, fazendo aglomeração, saindo para as ruas, mesmo de noite ou de dia, num momento em que não é para sair. Aglomerar é a pior coisa que pode acontecer. Não sendo pessoas da mesma família, que convivem diariamente, qualquer reunião diferente disso e qualquer número de pessoas é considerado um aglomerado. Não há um número certo, mas bom senso. É importante que gestores e autoridades sanitárias dos estados percebam isso e, com isso, consigam dar uma correta orientação, o que não vem ocorrendo em termos unificados, nacionais. Isso é muito importante.

 

JBP – Qual é a diferença da pandemia entre Amazonas, Rio, SP e DF? Nesse sentido ela tem peculiaridades e comportamentos diferentes? Se tiver, por quê?

 

Gulnar Azevedo – A diferença é que, aqui no Rio de Janeiro e em São Paulo, foram as regiões onde a pandemia começou e houve um crescimento muito rápido. Logo em seguida houve um crescimento muito rápido em Manaus, que chamou atenção, foi muito grave.

 

A diferença é que, talvez, a nossa rede pública de serviços de saúde, o nosso Sistema Único de Saúde (SUS), infelizmente, tem condições de resolutividade e capacidade de resposta diferenciados em relação a regiões como o Amazonas, a Região Norte. A Região Sudeste, notadamente os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, tem uma oferta, talvez, maior.

 

Contudo, Manaus tem uma componente muito importante de ser considerada. Além da imensa desigualdade social, que também existe nas periferias, comunidades, favelas de SP e RJ, ou seja, no RJ e SP, como em todas as regiões do Brasil, há uma grande desigualdade social, Manaus tenha essa desigualdade muito acentuada e tem ainda a característica de ser uma região em que muitas comunidades ficam isoladas, precisam de transporte pelos rios e isso dificulta o atendimento na rede de assistência.

 

Manaus mostrou, neste momento, que estava faltando coisas muito necessárias, como, por exemplo, oxigênio. Isso, talvez, não se repita nesse nível no RJ e em SP. Mas não há dúvida de que a pandemia também vai crescer no RJ, SP e Distrito Federal e em todo o País. Já está crescendo. Não há dúvidas de que a gente pode chegar, nessas três unidades federativas, e em todo o território nacional, na mesma crise e mesmo colapso do SUS que se viu em Manaus se medidas rápidas não forem adotadas, se não tiver uma articulação, um plano importante de enfrentamento. É nesse sentido que temos de chamar atenção.

 

JBP – O Brasil sempre foi referência quando o assunto é vacinação e produção de vacina. Explique o que aconteceu nesse setor e o que levou o País a “perder o bonde da história” no enfrentamento à pandemia, na produção e aplicação da vacina?

 

Gulnar Azevedo – O que aconteceu foi o intenso desfinanciamento do SUS e o desmonte de políticas de saúde, com desvalorização da atenção básica (demissão de profissionais de saúde, etc.) e desestruturação do Plano Nacional de Imunizações (PNI), com desabastecimento de vacinas e insumos, falha na distribuição, entre mais de uma centena de problemas.

 

JBP – Tem jogo da indústria farmacêutica por trás desse retrocesso brasileiro?

 

Gulnar Azevedo – Sempre há jogo, sempre há interesses, às vezes, conflitantes. Mas o maior problema aqui no Brasil é a inexistência, a omissão do governo federal e a omissão de um plano integrado de estados e municípios. Isso está fazendo com que alguns gestores municipais e estaduais tenham de ver que condições e recursos que eles têm para enfrentarem sozinhos a pandemia. E uma pandemia dessa monta, nacional, mundial, não pode ser enfrentada sem a ajuda do governo federal, dos estados e sem muita integração.

 

JBP – O que pode salvar Manaus, Amazonas e o Brasil?

 

Gulnar Azevedo – Em primeiro lugar, um plano integrado de enfrentamento da pandemia que tenha todas as responsabilidades e recomendações atendidas. Um plano que cuide, não só, de diminuir a transmissão, mas também tenha vigilância dos casos, rastreamento dos contatos. Isso é fundamental. Em segundo, o isolamento das pessoas que estão positivas e das pessoas suspeitas. Se não fizer isso, a gente não consegue resolver. Agora, temos o recurso da vacina que está chegando, que não vai ser a salvação do mundo, mas é um recurso que pode ajudar. É importantíssimo e fundamental, neste momento, as pessoas entenderem que têm de aderir à vacinação, sem abrir mão das outras medidas que nós falamos o tempo todo: isolamento físico, uso de máscara e todas as medidas que evitem aglomeração de pessoas.

 

JBP – Em que a medicina sanitarista colabora na prevenção e combate a pandemias?

 

Gulnar Azevedo – A saúde pública sempre atuou no controle de pandemias e em várias doenças preventivas por vacina. O ganho é muito grande. No caso de transmissão de vírus respiratórios, as medidas são as recomendadas como agora: uso de máscara, distanciamento físico, rastreamento de casos e isolamento de casos confirmados e suspeitos, bem como seus contatos.

 

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