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Apagão: o destino do DF depois da privatização da CEB

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“Quando tudo for privatizado, o povo será privado de tudo”. A frase é vista em cartazes em quase todas as manifestações contra as privatizações das empresas e serviços públicos em toda a América Latina. Em alguns países, como o Chile, a população viveu, e ainda vive, na prática o dizer da frase. No Brasil, os estados que privatizaram a energia também enfrentam a falta, constante, do serviço.

 

O Sindicato dos Urbanitários do Distrito Federal (Stiu-DF) assegura que todos os estados que privatizaram a energia elétrica enfrentam os piores serviços já prestados no País e o consumidor paga caro pelo consumo. Em Goiás, por exemplo, desde que a Celg foi privatizada, a Enel tem deixado a população sem energia constantemente.

 

Este ano, entre os escândalos relacionados à privatização do setor de energia, o caso do Amapá foi considerado um dos mais graves. Durante 21 dias do mês de novembro, o fundo de investimento estadunidense Gemini Energy SA, uma empresa quarteirizada, deixou o estado no apagão. A situação só voltou ao normal, nesta terça-feira (24), após total intervenção da Eletronorte, empresa pública e uma das subsidiárias da Eletrobras.

 

Na imprensa comercial, a notícia é a de que as Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), de propriedade da Gemini Energy S.A., teria dado duro para religar a energia do Amapá. “Isso não é verdade. Quem recuperou os 100% da energia elétrica do Estado do Amapá foi a Eletronorte e os servidores públicos que atuam na estatal. Inclusive recuperando os equipamentos de baixa qualidade e quebrados da Gemini Energy, que nem sequer tinha equipe para atuar nesse escândalo do apagão”, afirmam os urbanitários.

 

Durante as chuvas que desabaram na região, no domingo (22), moradores assustados do bairro Brasil Novo, no norte de Macapá, divulgaram nas redes sociais várias explosões e curtos-circuitos na rede elétrica. A Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) informou que a ventania causou atrito entre os cabos de alta tensão.

 

“E cadê a Gemini Energy S.A., o fundo de investimento estadunidense que comprou a LMTE da empresa espanhola Isolux, que é a terceirizada que ganhou a concessão na época do leilão, para solucionar os problemas? Sumiu! Quem consertou os buracos deixados pela empresa estrangeira foi a Eletronorte, a nossa empresa pública que também está na mira do mercado financeiro e dos políticos neoliberais que querem lucrar com patrimônio público”, denunciam.

 

 

Estado perdeu R$ 500 milhões em 20 dias

 

O Coletivo Nacional dos Eletricitários (CNE) calculou o quanto deixou de ser produzido nas regiões afetadas pelo blecaute, que começou na terça-feira (3/11/20) e durou até terça-feira (24/11) e que deixou mais 760 mil pessoas no escuro.

 

“Só nos primeiros cinco dias do apagão, o Estado do Amapá colheu um prejuízo de R$ 190 milhões, segundo estimativa do nosso corpo técnico. Esse cálculo se baseou no PIB do estado de 2019 e levou em conta o quanto a economia deixou de produzir em razão do blecaute”, explica Wellington Araújo Diniz, advogado, diretor jurídico do Stiu-MA, membro da Coordenação da Intersindical Norte e do CNE.

 

Para chegar à estimativa, usou-se valores médios: 4 dias e 8 horas de apagão e a carga elétrica atingida de 100% do Estado do Amapá. Primeiro, calculou o PIB do estado ano referência 2019, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que é de R$ 15,4 bilhões. Com isso, chega-se ao PIB por dia, no valor de R$ 43,8 milhões e, daí, chega ao valor do PIB por hora, que é R$ 1,8 milhões.

 

“Como houve queda de 100% carga do Estado do Amapá, chega-se ao custo da falha de R$ 190 milhões nos primeiros cinco dias. Como já temos 20 dias de apagão, estima-se que esse valor esteja em R$ 500 milhões ou mais, considerando que já houve a retomada de parte do fornecimento, graças à atuação dos técnicos da Eletronorte, que têm trabalhado, diuturnamente, para repor o sistema elétrico do Amapá”, informa Diniz.

 

 

Amapá em 2020 é o retrato do DF no futuro

 

O Amapá é o retrato do futuro do Distrito Federal quando o governo Ibaneis Rocha, do MDB, concluir mais uma etapa da sua ação neoliberal. “A privatização da CEB Distribuição é um dos mais graves crimes contra a capital do País. O problema do Amapá, que é o de todos os estados que privatizaram a energia, é o alerta definitivo ao povo do DF. Mas, na capital do País, há ouvidos de mouco””, afirma a diretoria do Stiu-DF.

 

Ibaneis Rocha e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) fazem de conta que o apagão do Amapá não existiu, que a Justiça Federal do Amapá determinou o afastamento de toda a diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Operador Nacional do Sistema (ONS) por causa do apagão e que o prejuízo, só do estado, calculado por baixo, foi mais de R$ 500 milhões.

 

O Stiu-DF informa que, segundo informações advindas de investigações sobre as causas do apagão, o sistema elétrico do Amapá foi, gradualmente, recomposto. Desde o dia 7/11 a Eletronorte entrou em operação para consertar o buraco que as empresas privadas de energia deixaram no estado.

 

Primeiramente, foi o transformador que a equipe da Eletronorte conseguiu recuperar, na Subestação Macapá, que é da empresa privada denominada Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE). Com esse equipamento foi possível recuperar e prover cerca de 60% da carga de energia que o Estado do Amapá precisa.

 

Depois entrou em operação uma carga advinda de uma máquina da Usina de Coracy Nunes, outra empresa estatal. Com isso, chegou-se próximo a 80% da carga. No sábado (21/11) foi dado início à colocação em funcionamento de 25 megawatts de geração termelétrica, que a Eletronorte contratou, recentemente, com geradores advindos de Manaus.

 

A expectativa era a de que até o dia 26 fosse tudo normalizado e recomposto 100% da carga energética do estado até que entrasse em funcionamento do segundo transformador que a Eletronorte colocou em operação e que veio da própria LMTE, retirado do município de Laranjal do Jari.  A previsão era a de que esse transformador estivesse em operação esta semana e, assim, a linha voltar a prover 100% da carga do Estado do Amapá.

 

 

Eletronorte – a estatal que tirou o Amapá da escuridão

 

A Eletronorte tomou a frente da recuperação do sistema desde os primeiros minutos. Foi ela, com os servidores públicos capacitados, que substituiu as buchas no transformador que não explodiu e realizou várias intervenções no equipamento para colocá-lo em funcionamento. Foi assim que o segundo transformador voltou a funcionar. “Foi constatado que os equipamentos disponibilizados pela empresa privada são de baixa qualidade e a empresa também não tem manutenção”, denuncia o diretor da AESEL.

 

Ele afirma que uma equipe de manutenção deveria ter detectado a degradação do equipamento. “Daí que, pela dimensão do incidente, tudo indica que houve negligência, além do fato já conhecido de que a subestação operava sem um transformador reserva desde o fim de 2019. Já havia, portanto, uma situação de vulnerabilidade porque ela não tinha reserva para ela poder operar em caso de falha de um dos transformadores”.

 

Ou seja, no Amapá, segundo Ikaro, a empresa privada responsável pela linha de transmissão não tinha nem sequer uma reserva para operar em caso de falha em um dos transformadores. Houve uma falha grave em dois transformadores e não havia reserva.

 

O Amapá só conseguiu sair do apagão por causa da ação da Eletronorte que, desde os primeiros momentos da crise energética, adquiriu 45 megawatts de energia termelétricas por meio de geradores a diesel advindos de Manaus. A estatal Eletronorte instalou os geradores, montou o segundo transformador de 150 MVA na Subestação Macapá pertencente à empresa privada proprietária da linha de transmissão que desapareceu do cenário da crise.

 

“A Eletrobrás também instalou outro transformador, da própria LMTE, retirado do município de Laranjal do Jari, no sul do estado. Caso haja algum problema no único gerador que ficou lá, Laranjal terá blecaute. Se o gerador transferido para Macapá também der problema, a capital e outros municípios que dependerão dele também voltarão a ter blecaute”, avisa Ikaro Chaves Barreto de Sousa, engenheiro eletricista da Eletronorte e diretor da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema Eletrobras (AESEL).

 

“Até para fazer o transporte desse gerador e instalá-lo na Subestação de Macapá, que é privatizada, foi a estatal Eletronorte que fez todo esse processo. Foi ela que fez a montagem e todos os testes para que entrasse em operação e restabelecesse a energia no estado. Todo esse trabalho está sendo feito pela Eletronorte e por alguns técnicos da LMTE. A Eletronorte está supervisionando e executando o serviço uma vez que a privada LMTE, dona da Subestação de Macapá, não tem equipe de mão de obra para executar o serviço e nem equipamentos para recuperar a energia que ela administra do Amapá”, denuncia.

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