Durante lançamento da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, em Brasília, nesta quarta-feira (25), o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez pouco caso em relação aos sucessivos reajustes nas contas de luz. “Qual o problema de a energia ficar um pouco mais cara, porque choveu menos?”, declarou ministro.

O problema é que não se trata de uma crise passageira. Nem está relacionado apenas à falta de chuvas, está relacionado também a má gestão do governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL) na área da energia.

A crise ocorre, principalmente, em função de um modelo de gestão que levou os reservatórios das usinas hidrelétricas à exaustão. E precisará de muito tempo para serem devidamente recuperados. Esses problemas são típicos de governos que promovem o desmonte das empresas, como Bolsonaro vem fazendo com a venda de estatais como a Eletrobras, afirma o diretor da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema Eletrobras (Aesel), o engenheiro elétrico, Ikaro Chaves.

Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), outro que não fez planejamento nem investiu no sistema elétrico brasileiro, tivemos racionamento em 2001, lembra o dirigente.

Segundo ele, o apagão da era tucana que fez a população brasileira sofrer, assim como os possíveis racionamentos da era bolsonarista têm o mesmo DNA: falta de planejamento e de investimentos. Em 2001, enquanto os brasileiros reduziam o consumo de energia em suas casas, o País sofria um prejuízo econômico de R$ 42,5 bilhões.

“Naquela época se esperava que o mercado privado investisse no sistema elétrico. Não investiram, como não vão investir agora também. Toda crise hídrica é sazonal, de tempos em tempos e o setor não está preparado para responder”, afirma.

O dirigente também rebate a afirmação de membros do governo de que, apesar da pior seca dos últimos anos, não vai ter racionamento.

“Existe a possibilidade real de racionamento, por falta de planejamento, monitoramento e investimento do governo federal desde o governo de Michel Temer, e Bolsonaro segue na mesma linha”, garante Ikaro Chaves.

Guedes tenta falsear a realidade, diz professor

Voltando a repercussão sobre a fala do ministro da economia, o integrante da coordenação naciuonal do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) Gilberto Cervinski, mestre em Energia pela Universidade Federal do ABC (UFABC), disse que Guedes tenta “falsear a realidade”. Ele também criticou as medidas para redução do consumo de energia anunciadas pelo Ministério de Minas e Energia.

Enquanto os consumidores residenciais sofrem com a segunda tarifa mais cara do mundo, segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), os grandes consumidores recebem energia a preço de custo. Além disso, o governo anunciou que vai pagar um bônus a esses grandes consumidores que reduzirem suas demandas energéticas. E o custo desses subsídios deve ser novamente repartido com os consumidores em geral.

“O que Guedes falou é que os trabalhadores vão pagar mais caro ainda. Mas os grandes, a classe dos ricaços, não. Estes ainda vão receber subsídios, que nós vamos ter que pagar. Essa é política energética que está em curso, o que é lamentável”, disse Cervinski, em entrevista a Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta quinta-feira (26).

Furnas

Desemprego

Tais subsídios, somados ao enfraquecimento geral da economia, devem acarretar no fechamento de fábricas ou na redução de turnos, culminando no aumento do desemprego, segundo o especialista. Eles receberão R$ 600 a cada 1.000 kWh que forem poupados. Enquanto que, nos contratos firmados com esses grandes consumidores, a energia é fornecida ao custo de R$ 65 a cada 1.000 kWh. “Essa diferença vai ser jogada para os outros consumidores. E, ao mesmo tempo, vai haver a demissão dos funcionários da empresa”, afirmou Cervinski .

Tarifaço

Em 2021, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou reajustes de 7%, em média, na tarifa básica de energia cobrada dos consumidores residenciais. Além disso, a bandeira vermelha 2 foi reajustada em 52%, acarretando cerca de 12% de aumento no custo total. Contudo, esse aumento não foi suficiente para cobrir os custos de produção das termelétricas que foram acionadas para suprir a escassez de água nos reservatórios. A previsão da própria Aneel é que, no ano que vem, o aumento deva chegar a 16,68%.

Reservatórios

Por outro lado, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os reservatórios para a geração de energia elétrica estão neste momento com apenas 30% da sua capacidade. Especificamente na região sudeste, que registra o maior consumo, como também a maior capacidade de armazenamento, os reservatórios chegaram a 22%.

As chuvas, no entanto, devem ser mais intensas apenas a partir de novembro, agravando ainda mais o estresse hídrico. Em função da gravidade do quadro é que Cervinski acredita que serão necessários vários anos e muita chuva para que os reservatórios voltem a operar em níveis satisfatórios.

No entanto, esse esvaziamento dos reservatórios não foi causado apenas pela escassez de chuvas. “Por exemplo, no ano passado, quando se reduziu o consumo em função da pandemia, só produziram energia à base de água, secaram os reservatórios. E sabiam das previsões de estiagem para este ano”, observa Cervinski.

Essa arquitetura do sistema tem se revelado inadequada, já que, em vez de preservar os recursos hidrológicos, o modelo colabora para a exaustão das reservas. O ideal seria incrementar a produção com outras fontes renováveis (como eólica e solar) de baixo custo, que pudessem operar concomitantemente com as hidrelétricas, reduzindo ao máximo a utilização das termelétricas, mais caras e mais poluentes.

Assista à entrevista

Fotos: Divulgação

Da CUT RS e reportagem em vídeo da TVT