Afinal, não houve desfile militar no 7 de setembro. A Defesa recomendara aos comandos da Aeronáutica, Exército e Marinha, suspender a tradicional cerimônia da Esplanada “em razão da pandemia de covid-19” (que seja). Outras atividades, menos expressivas que a parada da Independência fizeram parte da ordem do dia das tropas. Em Brasília, um sobrevôo de uma esquadrilha de tucanos da FAB. No gramado e na avenida, um presidente isolado numa bolha de mobilização artificial, sequestrou o dia da independência.

Apesar de tudo, preserva-se o cuidado, que ultimamente tem orientado a postura de gente mais experimentada no Legislativo e sobretudo no Judiciário, em face de mobilizações explícitas por rupturas institucionais, querendo arrombar as portas da Lei (a Constituição). Leia-se o artigo do ministro Lewandowski, na Folha de São Paulo, evidenciando a tipicidade de quem atenta contra as instituições. Mas há a rua, aí sim, o lugar originário para a disputa de projetos, mesmo ao risco dos que já sem o tudo, chafurdam no nada, em seu ensaio de golpeamento à Constituição que pode receber dura resposta incriminadora das Instituições (Justiça e Parlamento).

Assim, percebe-se já em ambientes, antes impropriamente corteses, que alguém leu o discurso de Churchill, que em 1940, no crescimento da ameaça nazi-fascista, advertiu que o apaziguador e o colaboracionista (passador de pano), são aqueles que alimentam crocodilos esperando ser devorados por último. Chamberlain não tem assento no Conselho da República.

A combinação entre neoliberalismo e pandemia, intensificou no Brasil, mais que em qualquer outro País em contexto semelhante, a situação que Boaventura de Sousa Santos (O Futuro Começa Agora. Da Pandemia à Utopia. São Paulo: Boitempo, 2021) caracteriza pelas desigualdades e as discriminações sociais que marcam as sociedades contemporâneas. Segundo ele, acarretando um sofrimento humano muito desigual provocado pelo modelo económico-social, ao Estado, à ciência e à resistência e criatividade dos grupos sociais mais excluídos para se protegerem e minorarem os riscos.

Num outro texto no qual, por isso, propugna por uma nova declaração universal dos direitos humanos (Opinião 15 de janeiro de 2020 (https://sul21.com.br/opiniao/2020/01/para-uma-nova-declaracao-universal-dos-direitos-humanos-i-por-boaventura-de-sousa-santos/), ele sugere que procuremos nos orientar diante da Incerteza que oscila entre o Medo e a Esperança para encontrar o necessário equilíbrio entre ambos, pois “medo sem esperança leva à desistência e a esperança sem medo pode levar a uma auto-confiança destrutiva”.

Tentei refletir sobre esse equilíbrio em discussão recente na Universidade Federal de Goiás – Efetividade dos Direitos Humanos e Construção da Cidadania em Tempos Sombrios (https://www.youtube.com/watch?v=qDxBUWqDNtw) – para exatamente convocar à atitude que não se acumplicie. Porque, lembrando Darcy Ribeiro, também seremos culpados se nos entregarmos à rendição conformista a esse estado de coisas.

Com efeito, devemos ousar refletir sobre os problemas que assolam a população, construir alternativas políticas e econômicas para a superação do cenário atual, questionando, com Darcy, “que culpa temos, enquanto classe dominante, no sacrifício e no sofrimento do povo brasileiro. Somos inocentes? Quem, letrado, não tem culpa neste País dos analfabetos? Quem, rico, está isento de responsabilidades neste País da miséria? Quem, saciado e farto, é inocente neste País da fome?”.

Até o Quixote, intermitentemente, sacudia-se das sandices que o levavam a abraçar Maritornes sonhando com Dulcinéia, recobrando o juízo que armava seu braço contra as injustiças e as tiranias (Capítulo XVI). Contra a distopia, diz Frei Betto, que imobiliza, deixa apático, indiferente, esgarça as palavras, ilude a esperança (https://sinasefeifmg.com.br/wordpress/esperanca-em-tempos-distopicos/), “vamos guardar o pessimismo para tempos melhores”, enquanto agora, diante da dramática involução política e cultural registrada no Brasil sob o atual desgoverno, exercitemos o otimismo da vontade política  (http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/589283-vamos-guardar-o-pessimismo-para-tempos-melhores-entrevista-com-frei-betto).

Com esperança, volto a Dom Quixote (Capítulo XVIII):“todas estas inclemências que nos acontecem sinais são de que em breve se nos há de o tempo abonançar, e as coisas correr-nos melhormente, porque não é possível que nem o mal nem o bem sejam perduráveis; por isso, tendo o mal aturado já tanto, já o bem nos deve estar chegando”.

(*)  José Geraldo de Sousa Junior é professor titular na Faculdade de Direito e ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB)