Sim, o voto impresso perdeu. Mas quem disse que isso importava?

 

Bolsonaro já era vitorioso por colocar esta não-questão no centro da pauta política, com doses cavalares de mentiras e falsificações.

 

Fez do tema o mote para suas declarações golpistas e intentos para liquidar o que resta de democracia no Brasil, culminando com o que o britânico The Guardian descreveu como “parada militar de república das bananas”.

 

Ainda assim, a PEC do voto impresso obteve 229 votos em plenário.

 

As lideranças no Congresso, sobretudo após a absurda tentativa de intimidação militar de ontem, queriam impor uma derrota significativa. Segundo a imprensa, se esforçavam para deixar Bolsonaro com menos de um terço dos votos.

 

Não é um patamar simbólico. Um terço é o necessário para impedir um processo de impeachment.

 

Pois ele obteve apoio de quase 45% dos deputados.

 

Deputados que não se constrangeram ao se associar a um claro intento golpista. Que foram sensíveis às ameaças, à agressividade da militância bolsonarista nas redes e/ou às promessas feitas pelo governo.

 

Lembrando que, se foram 229 insuficientes votos a favor, os contrários não passaram de 218. Além do presidente da Câmara, que ordinariamente não vota, e de Aécio Neves, que se absteve, foram 65 ausências na sessão.

 

Algumas, decerto, justificadas. Mas muitas motivadas pela vontade de não entrar em conflito aberto com o bolsonarismo.

 

Outro dado importante: a maior parte das bancadas orientou voto contrário à PEC (as exceções foram os partidos mais fiéis da base bolsonarista, incluindo, é claro, o Novo).

 

Mas, com exceção de PT, PSOL e PCdoB, em todos eles houve defecções importantes. Mais da metade do DEM, do MDB e do PSD. Quase metade do PSDB. Seis votos no PDT, onze no PSB.

 

Pouquíssimos destes votos podem ser explicados pelo mérito da matéria. O que estava em discussão já não era, há muito tempo, o voto impresso. Era qual seria a reação ao golpismo de Bolsonaro.

 

Vai haver alguma tensão, já que Bolsonaro certamente não entregará aquilo que Arthur Lira prometeu – acatar o resultado da votação na Câmara e parar com a agitação golpista.

 

Mas – como dizia o verso imortal de Nelson Ned – “tudo passa, tudo passará”. Em um ou dois dias, se tanto, Lira já estará acomodado, arranjando uma nova desculpa para o genocida do Planalto.

 

O que Bolsonaro deseja, agora, é carta branca para continuar tumultuando o processo político e ameaçando a realização das eleições. A votação da PEC do voto impresso não foi, nem de longe, capaz de tirá-la de suas mãos.

 

(*) Luis Felipe Miguel (Rio de Janeiro, 1967) é um cientista político brasileiro. Autor de vários livros sobre teoria política e política brasileira, seu pensamento é influenciado pelo marxismo, pela sociologia de Pierre Bourdieu, pelo feminismo e pelo participacionismo democrático. Professor titular livre de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades, ele é autor, dentre outros livros, de Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular, 2019). Também é coautor, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Colaborou com o livro de intervenção O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil (Boitempo, 2018).