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A variante o “mercado”, impotente e incompetente

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O aparecimento da variante Ômicron despertou o mundo inteiro para o fato de que a irrisória cobertura vacinal ainda observada nos países pobres da África ameaça não apenas os respectivos povos, mas também os dos países ricos. Estes retiveram mais de 80% da produção mundial de vacinas e agora se descobrem perigosamente desprotegidos pelo contágio procedente das regiões mal vacinadas.

 

Desde as primeiras ondas da Covid, ouvia-se que a economia mundial não poderia voltar a funcionar como até então e de fato algumas coisas nela mudaram, como a disseminação do trabalho em casa, via internet. Mas os padrões do arrastão neoliberal continuaram predominando em quase todos os países e foi o “mercado” que impôs suas regras. Ou melhor, sua falta de regras…

 

Quem teve recursos pôde comprar e armazenar mais vacinas e muitas vezes as negociações foram decididas em função de lucros para intermediários e fornecedores, como aconteceu no Brasil em vários casos revelados pela CPI do Senado sobre a Covid. Entre esses casos era impressionante o que podia estar embutido de propinas e corrupção.

 

Na África pobre, o volume comprado de vacinas foi menor e, em um caso pelo menos, segundo se noticiou, vacinas compradas e pagas não teriam sido entregues. O volume menor e vacinas não entregues ou entregues com atraso condenaram esses países a se tornarem o epicentro inicial da onda da Ômicron e até a serem considerados o lugar de sua origem.

 

Depois veio a retificação: a variante Ômicron teria aparecido da Europa rica antes de aparecer na África pobre e fora transportada para esta por viajantes europeus. Na Europa bem vacinada os casos eram poucos, mas na África mal vacinada eles se multiplicavam em grande velocidade. Isso, de saída, gerava uma responsabilidade, uma dívida moral do mundo rico para com o mundo pobre e também uma providência de autodefesa: já que vocês levaram a variante para a África, ajudem pelo menos com vacinas, para que a África não se transforme em reexportadora em grande escala dessa nova onda. 

 

Nesta sexta-feira ainda não se registrara, felizmente, nenhum caso de morte pela Ômicron. Esta se revelava muito facilmente transmissível (pelo menos entre populações mal vacinadas) mas menos letal que as variantes anteriores. Nesse mesmo dia, o governo de Botswana acrescentava uma informação mais precisa ao que se sabia sobre a origem e a trajetória da variante: ela fora transportada ao país no corpo de um ou mais de quatro diplomatas chegados da Europa.

 

O mundo aguardava, nesse momento, o resultado das investigações científicas que apontariam as providências mais imediatas contra a nova etapa da Covid, mas já não havia a menor dúvida quanto à urgência da vacinação – e não só na África, mas também em países europeus como a Alemanha, que já se dispunham a decretar a vacinação obrigatória para todos.

 

No caso do Brasil, algumas notícias registravam a preocupação com lugares de difícil acesso e vacinação ainda lenta, como São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas e perto da fronteira colombiana, município de população predominantemente indígena e por isso foco de maior preocupação.

 

Diante desse quadro, só falta maior reconhecimento público e oficial de que os próximos passos nessa luta não podem ficar, nem total nem parcialmente, na dependência das forças do “mercado”. Elas e ele são e serão sempre incompetentes e impotentes para tal responsabilidade.

 

Se não o fossem, já estariam mobilizados, pelo menos em busca de notoriedade, os heróis deste momento na galáxia dos grandes empresários privados, homens como Jeff Bezos, da Amazon, e Elon Musk, da Tesla, ocupados estes dias com os desdobramentos de suas inconsequentes aventuras no espaço, e Mark Zuckerberg, do Facebook, envolvido em denúncias cada vez mais graves de manipulação política em prejuízo de milhões de pessoas no mundo todo.

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

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