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A Terra plana e a bravata da ameaça de golpe

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Hoje eu queria ficar apenas me deliciando com a leitura da biografia de Marx feita por José Paulo Netto. Descansando um pouco de fazer comentários políticos, mas o falastrão Bolsonaro não deixa.

 

 

Depois de botar máscara no rosto e o globo terrestre em sua mesa, tentando covardemente não passar recibo para as críticas de Lula, Bolsonaro, transtornado pelo ex-presidente ter recuperado seu direito de disputar a presidência, faz a única coisa que sabe: ameaçar o país com nova ditadura.

 

 

Diz que “não é hora de criticar generais” e que é “fácil impor uma ditadura”.

 

 

Aqui vai uma adulação ao ego dos generais, para obter a simpatia deles para o golpe, e uma ameaça simplista, própria de um presidente-miliciano que só pensa pela boca do fuzil.

 

 

De fato, é fácil dar um golpe militar numa republiqueta de banana, mas não num país capitalista com o nível de desenvolvimento médio como o do Brasil. Somos um país urbanizado, com grandes cidades e metrópoles e uma estrutura de classes complexa. Num país assim, pode até ser fácil dar o golpe, difícil será sustentá-lo.

 

 

Bolsonaro costuma usar com muita facilidade o exemplo do golpe militar de 64, sempre pensando como os coronéis Ustra da vida.

 

 

Em março de 1964 os militares golpistas usaram a radicalização da classe média reacionária contra os avanços das forças populares durante o governo Goulart para dar o golpe. A fácil vitória obtida foi mais pela fraqueza do chamado “aparato militar” do governo e as ilusões legalistas da esquerda do que propriamente pelo “apelo da sociedade”.

 

 

Externamente, o golpe no Brasil era parte principal da ofensiva o imperialismo norte-americano na América Latina, preocupado com o exemplo da Revolução Cubana no contexto da Guerra Fria. A 6ª frota chegou até a se deslocar para a costa brasileira caso houvesse resistência mais séria ao golpe.

 

 

Mas a ditadura militar se mostrou muito mais do que um evento da Guerra Fria. Ela desempenhou um papel importante na reorganização do capitalismo dependente, com a forte atuação do Estado dando seguimento à política de Vargas de desenvolvimento do setor de infraestrutura e de produção dos bens de capital. Isso se deu principalmente sob o governo do ditador Geisel, chamado de “estatista” pelos economistas neoliberais que vieram com FHC e jogaram a indústria brasileira na lata de lixo.

 

 

Mesmo que fosse pelo viés do capitalismo monopolista, autoritário e dependente da dívida externa, o que acabou inviabilizando economicamente a ditadura em consequência da crise do petróleo de 1974, o governo militar tinha um projeto para o Brasil.

 

 

Mas qual seria o projeto da ditadura de Bolsonaro? Continuar matando o povo com a negação da pandemia? Continuar destruindo a indústria, o emprego, o mercado interno e empobrecendo as classes médias para transformar o Brasil num grande latifúndio exportador de soja, carnes, minérios e petróleo cru? Um país sem soberania, um simples apêndice da geopolítica norte-americana?

 

 

Nadando em privilégios e envenenadas pela versão moderna do anticomunismo, o antipetismo, as Forças Armadas podem até seguir Bolsonaro numa aventura golpista, mas não terão condições políticas de sustentar por muito tempo uma ditadura sem projeto efetivo para o capitalismo brasileiro e muito menos para a melhoria da vida do povo.

 

 

Concluindo, para o êxito de um golpe no Brasil é necessário muito mais do que o uso da força bruta das armas, é essencial o consenso das classes dominantes e o apoio determinante do governo norte-americano. E estas duas condições faltam aos planos golpistas de Bolsonaro.

 

 

Se uma ditadura dependesse única e exclusivamente da força das armas, até hoje estaríamos sob o jugo da ditadura militar. Mas ela foi derrotada quando perdeu o apoio unânime das classes dominantes e não conseguiu mais conter o avanço da luta popular, como foi o caso do surgimento da liderança de Lula, que agora se torna o pesadelo dos torturadores “anistiados” e de seus seguidores no governo, a começar por Bolsonaro.

 

 

A bravata de Bolsonaro pode ser vista nas pequenas contradições. Quando pressionado pela repercussão das críticas de Lula sobre a ideia maluca da “terra plana” e o não uso da máscara, Bolsonaro logo em seguida usa máscara e põe o globo terrestre na mesa. O que faz com isso é tentar ganhar o respeito das classes dominantes como alguém “civilizado”. Se tivesse realmente tanto apoio militar quanto diz, não precisaria fazer essas pequenas sinalizações.

 

 

(*) Val Carvalho – escritor e militante de esquerda

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