O bate-boca em torno da substituição do presidente da Petrobrás assumiu esta semana um tom cafajeste, semelhante aos arroubos de Bolsonaro, quando o presidente demitido, Roberto Castello Branco, apareceu numa reunião transmitida pela internet fantasiado com uma camiseta ilustrada por uma enigmática mensagem sobre um gap, um intervalo simbólico que só os iniciados de “mercado” podiam entender claramente.

 

Se a intenção era xingar Bolsonaro, Bolsonaro – que certamente não fala inglês – não chegou a desconfiar do alcance do ataque, um acesso de raiva de um garotão no mínimo sessentão inconformado com a não recondução para sua mordomia.

 

No meio da discussão apareceu uma associação de investidores reclamando que o garotão da camiseta preta se concedera a si mesmo um bônus equivalente a 13 salários mensais de 226 mil reais por mês, o que significa que, num país de salário mínimo de pouco mais de mil reais, o marajá-chefe da Petrobrás se pagou cerca de meio milhão de reais mensais ao longo de um ano. Enquanto isso, o trabalhador de salário mínimo levaria uns quatrocentos anos para ganhar o que Castello Branco recebeu, em média, por mês.

 

Mas, responderá o “mercado”, o presidente da Petrobrás ganhou tudo isso por ter dado à empresa, no último trimestre de 2020, o maior lucro de sua história, 50, 6 bilhões. Sim, deu esse lucro aumentando o preço dos derivados de petróleo vendidos pela Petrobrás de acordo com cotações internacionais, quando podia tê-lo vendido com lucro pelo custo do petróleo brasileiro.

 

Esses preços internacionais são de interesse apenas dos acionistas privados e minoritários da Petrobrás (muitos deles estrangeiros), que querem receber por seus investimentos no Brasil a mesma coisa que recebem, por exemplo, pelos investimentos no petróleo do Iraque, onde os custos militares de qualquer atividade econômica devem ser maiores que seus custos industriais.

 

É mais ou menos como se o preço da banana no Brasil fosse o mesmo da banana em Paris, onde ela chega a ser vendida por unidade, não por penca ou quilo, e enfeitada com um anel de papel em volta, que atesta seu pedigree, como os charutos de maior prestígio e preço.

 

E essa história de divinizar os lucros da Petrobrás é um equívoco pelo qual nossos caminhoneiros, e nós mesmos, acabamos pagando caro.

 

A Petrobrás só foi criada como empresa, pela Lei 2004, de 3 de outubro de 1953, para dispor de uma flexibilidade e agilidade que não teria se fosse criada como um serviço da administração direta do governo federal, o que ela de fato foi criada para ser, da mesma forma que seu antecessor, o CNP, o Conselho Nacional do Petróleo, e da mesma natureza do SUS.

 

Segundo a Lei 2004, a Petrobrás teria como função e missão abastecer o mercado brasileiro de derivados de petróleo na medida de sua. s necessidades e de acordo com a melhor conveniência da sociedade brasileira. Os lucros que tivesse seriam basicamente destinados aos investimentos que precisasse fazer, não à remuneração de seu maior acionista, a União, nem ao enriquecimento de seus executivos e acionistas minoritários. Estes, por sinal, eram no começo quase apenas contribuintes que pagavam o imposto único sobre combustíveis líquidos, financiador da Petrobrás, e podiam converter em ações o imposto pago.

 

Organizada em forma de empresa, que logo se transformou na maior do país, a Petrobrás não perdeu seu caráter de serviço público, o mesmo caráter de serviço público que tem o SUS, cuja importância a Covid19 evidenciou além de qualquer discussão. A transformação da Petrobrás em empresa prioritariamente geradora de lucros aconteceu a partir do arrastão neoliberal que fez dela o maior objeto de desejo dos grupos interessados e apropriar-se do patrimônio público.

 

Esse Roberto Castello Branco enfurecido por perder sua boca milionária só foi para a Petrobrás para acabar com ela, pouco importando o interesse maior do país. A visão dele é a do “mercado”, e o “mercado” jamais vai entender que o Brasil só tem a ganhar pagando por seus derivados o preço que cubra os custos de produção e as reservas para os investimentos que a Petrobrás deva fazer. Bolsonaro também não teve a lucidez de entender isso: agiu dominado pelo medo de perder votos se os caminhoneiros, zangados, partissem para uma nova greve, como a de 2018.

 

Mas, na medida que a parceria do “M” (Mercado/Mídia) for perdendo a batalha da narrativa, as repercussões desses episódios podem ampliar o conhecimento coletivo de uma verdade capaz de mudar a história destes dias; não é o Brasil que tem de fazer a Petrobrás lucrar. É a Petrobrás que tem de fazer o Brasil ganhar e crescer.

 

De olho no mundo…

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou sexta-feira à noite o pacote de 1,9 trilhão de dólares para socorro à economia e aos cidadãos do país por causa da pandemia. Quase dois trilhões, dos quais 14 bilhões para apoio à pesquisa e ao desenvolvimento de vacinas.

 

É em razão de medidas dessa envergadura que os Estados Unidos estão vacinando um milhão e meio de pessoas por dia.

 

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitíba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.