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A pergunta que não foi feita sobre a vacina 100% nacional

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A grande mídia e creio que também a mídia alternativa não se fizeram (e também não fizeram a quem poderia responder) uma pergunta que com certeza desvendaria novas e mais promissoras perspectivas para a vacinação contra a Covid no Brasil.

 

Há poucos dias o Instituto Butantan começou a produzir sua vacina inteiramente nacional, que não depende da importação de qualquer insumo. Isso significa que, além da vacina, o Butantan desenvolveu seu IFA, Ingrediente Farmacêutico Ativo, e pode dar ao país o quanto sua fábrica puder produzir, trabalhando 24 horas por dia, de domingo a domingo, e assim garantir vacina para todos os mais de duzentos milhões de brasileiros, com o único limite do tempo necessário para fabricá-la, envasá-la e entregá-la.

 

Mas por que – esta é a pergunta que não foi feita – manter a Butanvac exclusiva do Butantan? Por que não disponibilizar seu IFA para a Fiocruz, por exemplo, para o Instituto Vital Brasil e outras instituições e empresas que poderiam multiplicar sua produção? O Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse na sexta-feira que o Brasil deve ter vacinada toda a sua população até o fim do ano. Se a produção da Butanvac for multiplicada, não seria possível abreviar esse prazo, de reduzi-lo de seis para quatro e para três meses?

 

É só pensar: para cada dia que seja de antecipação, salvar-se-iam potencialmente as mais de três mil vidas que a Covid sacrifica diariamente; é só lembrar que qualquer antecipação vai proteger os jovens hoje tão vulneráveis, para ter certeza de que a vacina totalmente brasileira do Butantan deve ser analisada com urgência pela Anvisa e liberada para uso o quanto antes.

 

A noticia de que a Butanvac já estava sendo produzida não teve grande repercussão, embora fosse dada num grande evento pelo Governador João Dória, de São Paulo. Foi numa entrevista coletiva transmitida ao vivo pela TV e com a participação, além de Dória, do diretor do Butantan, Dimas Covas, e de vários outros integrantes do governo de São Paulo.

 

Não sei se o Jornal Nacional deu muito espaço a ela, mas o G1, o site da TV Globo, os sites Globo.com e UOL deram mais importância a outras informações transmitidas na entrevista de Dória sobre proibições e liberações em São Paulo. Nos dias seguintes não encontrei nesses veículos qualquer repercussão da notícia nem qualquer reação da Anvisa em resposta ao convite ou desafio de Dória para que seja rápida tanto no exame dos documentos já enviados sobre a vacina quanto nos pedidos de informações e documentos suplementares de que venha a precisar.

 

A Anvisa, na verdade, estava mais ocupada com a controvérsia sobre a liberação da vacina russa Sputnik V, que eclipsou totalmente as possíveis expectativas sobre a Butanvac. Naquele momento, eram muito mais noticia a Sputnik e a chegada do primeiro lote de um milhão de doses da vacina da Pfizer, embora ninguém pudesse negar que a curto ou médio prazo o início de produção da Butanvac é um salto qualitativo que pode livrar o Brasil das angústias da espera de vacinas ou dos ingredientes farmacêuticos ativos.

 

Esse salto qualitativo pode ser revolucionário, o primeiro passo num processo de reindustrialização num Brasil que se desindustrializara ao longo do tempo, voltando à situação anterior à quase centenária Revolução de 30.

 

Antes dela, o Brasil exportava café, minérios e outros produtos primários e dependia da importação de todos os produtos siderúrgicos, cada vez mais caros, elaborados com esse minério, exportado a preços cada vez mais baratos.

 

Hoje o Brasil exporta soja e proteínas animais, está assistindo ao fechamento de sucessivas montadoras de automóveis e, numa crise como a da Covid, precisa importar vacinas e seu ingrediente farmacêutico ativo.

 

Passando a produzir uma vacina inteiramente nacional e seu ingrediente farmacêutico ativo, o Butantan abre uma ousada frente de reconstrução da economia brasileira, sem sujeição a interesses que nestas horas assumem uma configuração cada vez mais complicada.

 

Talvez a Anvisa e, na verdade, o governo Bolsonaro patrulhando-a, criem problemas para a análise e liberação da Butanvac, porque Bolsonaro só pensa em suas possibilidades de reeleição em 2022 e acha que tem de liquidar o quanto antes as pretensões de Dória.

 

Por isso é bom que a trajetória dos testes e da liberação da Butanvac seja acompanhada com atenção por toda a mídia, inclusive a alternativa, independente do impacto eleitoral que possa ter.

 

A produção já iniciada vai prosseguir em turnos ininterruptos de domingo a domingo e o Butantan terá dezenas de milhões de doses prontas quando a vacina for liberada, doses a que poderão somar-se as que vierem a ser produzidas pela Fiocruz, pelo Vital Brasil, por outras instituições públicas e por empresas privadas.

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

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