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A pandemia do racismo

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Estátua do mercador de escravos Edward Colston, em Bristol, é derrubada e jogada no Rio.

 

A luta contra o racismo reacendeu. O mundo retomou o debate. Os Estados Unidos da América voltam a ser o epicentro do tema. Grandes manifestações se espalham pelo mundo e chegam até o Brasil, um país onde o racismo se mantém vivo de uma forma diferente, pois aqui há uma espécie de negação do problema. É muito comum ouvirmos, até mesmo de mentes iluminadas, que no Brasil existe pobreza, mas não existe racismo.

 

Não admitir a existência do problema o torna mais difícil de ser enfrentado e superado. O sociólogo, economista e filósofo alemão Karl Marx afirmava que o primeiro passo para um escravo se libertar é tomar consciência de que é escravo. Nessa linha de raciocínio, a tomada de consciência da existência do racismo é um passo importante no nosso país para a sua superação e libertação das mentes aprisionadas pela ideia de superioridade.

 

E por falar em escravidão, a suposição de que uma etnia seja superior a outra ao ponto de escravizá-la através da força é o ponto de partida da desigualdade no mundo, mesmo após o fim da escravidão, que no Brasil foi tardia, fomos um dos últimos países a aboli-la. O pensamento de superioridade permaneceu, silenciosamente ou não. O racismo, não é exagero afirmar, é uma especie de pai de todos os outros preconceitos e discriminações sociais.

 

Luciana da Cruz Brito, historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e especialista em história da escravidão no Brasil e nos EUA faz uma diferenciação do racismo americano para o brasileiro. Disse em recente entrevista à BBC News Brasil: “A nossa supremacia branca é assim. Não tivemos leis segregacionistas, como nos Estados Unidos, mas temos o mesmo princípio de que algumas pessoas são mais humanas do que outras”. Os números por aqui confirmam a teoria da professora Luciana. O mapa da violência no Brasil mostra que de cada 10 mortes por assassinato, 7 são de negros. É um dado que fala por si só, igualmente a outros números soltos como os mais de 80 tiros desferidos por soldados do exército contra o carro do músico negro Evaldo Rosa, de 51 anos, que acabou morrendo, confundido com criminosos enquanto se deslocava com sua família dentro do seu próprio veículo e os mais de 70 tiros que atingiram a casa onde estavam somente adolescentes negros e um deles, João Pedro, 14 anos, foi morto por um desses tiro de fuzil, pelas costas, em uma ação da polícia militar carioca.

 

O advogado e professor da FGV, Silvio Almeida, autor de vários livros, entre eles Racismo estrutural, afirma que a mais nova palavra de ordem: Vidas negras importam, não é um ato de exclusividade. Reconhece claramente que todas as vidas importam, mas aponta que não existem pessoas brancas reclamando de que sofrem violência por conta da cor da sua pele.  O menino Miguel Otávio, 5 anos, deixado sozinho no elevador e a menina Ágatha Félix de 8 anos, “encontrada” por uma “bala perdida” nos mostram que as vidas negras precisam importar muito mais.

 

O racismo é crime. Está dito na nossa Constituição. Também é pecado, de acordo com o Papa Francisco e toma forma de uma doença social, por que mata. O assassinato do americano George Floyd, que desencadeou as manifestações mundiais, registrou suas últimas palavras: “não consigo respirar” e eternizou a imagem que sensibiliza e clama por união e deixou a necessária reflexão para todos os que defendem uma democracia racial e plena. É preciso retirar os joelhos que asfixiam os pescoços de quem tem a pele preta.

 

 

Steffano Silva Nunes é médico veterinário e estudante de Economia
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