As declarações do ex-presidente Lula homenageando o papel histórico do ex-presidente Getúlio Vargas, por ocasião do 67º aniversário de sua morte, são muito importantes para a formação de uma consciência nas novas gerações, não apenas entre petistas e sindicalistas, sobre a necessidade de uma justa avaliação sobre a Era Vargas, etapa da vida brasileira em se registraram monumentais conquistas econômicas, sociais e culturais, responsáveis pela grande projeção que o Brasil alcançou no mundo. E são exatamente aquelas conquistas da Era Vargas, as empresas estatais e a legislação trabalhista e previdenciária, os alvos mais furiosamente atacados pelo capital estrangeiro e pelas oligarquias internas e seus representantes, sejam eles Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Jair Bolsonaro, todos unificados e comprometidos com o programa político de demolição do período varguista. Que estes elogios sejam, reiteradamente, feitos por Lula, tem ainda maior importância, porque ele próprio reconheceu ter iniciado sua vida sindical sem ter compreendido corretamente o papel de Getúlio, sendo que hoje , com grande honradez e objetividade, sustenta que a classe trabalhadora brasileira muito deve à Era Vargas, pela edificação de numerosas conquistas, entre elas a CLT, que regulamentou a jornada de trabalho, o descanso semanal, o direito de férias, a licença maternidade, a legislação sindical, o direito de sindicalização e de greve, o salário mínimo, a carteira de trabalho.

 

 

 

O empenho dos capitalistas na demolição da CLT, levou o próprio PT e a CUT a revisarem, recentemente, os ataques que fizeram durante décadas àquela conquista nascida no período varguista. Eram conquistas sancionadas em grandes concentrações de trabalhadores, no dia Primeiro de Maio, geralmente no Estádio do Vasco da Gama, situado em bairro operário carioca. Em um destes atos, Getúlio Vargas declarou: “Trabalhadores do Brasil!, Hoje vocês apoiam o governo. Amanhã vocês serão o governo!”, uma espécie de profecia mais tarde concretizada com a eleição de Lula, que, por sua vez, foi um dos milhares de trabalhadores formados em cursos promovidos pelo SENAI, instituição também nascida na Era Vargas. Lula sempre registrou o notável empenho de Dona Lindu para que ele se matriculasse neste curso.

 

 

Lula visitou o Mausoléu de Vargas, Jango e Brizola em São Borja: gesto político merece profunda reflexão

Os recentes elogios de Lula ao ex-presidente Vargas – que já tinham sido proferidos em homenagem que o petista vez em visita ao Mausoléu Getúlio, na cidade de São Borja, 17 dias antes de sua prisão, em 2018 – permitem extrair muitos outros importantes significados políticos, razão pela qual poderiam ser amplamente debatidos no seio da esquerda, onde ainda ecoam rótulos injustamente criados pela mídia oligárquica visando destruir a imagem respeitosa e historicamente correta que o gaúcho granjeou junto às massas trabalhadoras: a de um grande estadista, como ressalta Lula.

Toneladas de jornais e revistas foram publicados para destruir a imagem do estadista Getúlio Vargas, manipulações grosseiras de informações históricas foram disseminadas no mundo acadêmico, na intelectualidade e também entre sindicalistas, por uma espécie de pedagogia colonial, venenosamente construída para que o povo brasileiro não se orgulhasse do período em que edificou suas maiores conquistas com nação. Na academia e na intelectualidade ainda predomina a narrativa udenista anti Getúlio. Mas os sindicalistas, desafiados no duro enfretamento da barbárie neoliberal, agora já podem comprovar, dada à grande destruição da CLT, como os sindicatos se tornaram mais fracos na defesa dos interesses dos trabalhadores, ao que se soma , também, a demolição da Justiça do Trabalho, o que facilita o esmagamento dos mais mínimos direitos trabalhistas. A regulamentação do mundo trabalho foi obra da Era Vargas em grande medida, sendo que a aliança que a classe trabalhadora soldou com os governas trabalhistas permitiram as grandes obras de fundação do Estado Nacional e suas ferramentas decisivas para o desenvolvimento, as empresas estatais.

 

Getúlio foi a Pedra Fundamental para a Petrobrás, com Lula, chegar ao petróleo pré-sal

Muito mais que conflitos e divergências históricas, pode-se arriscar dizer que entre Vargas e Lula, há convergências. Basta lembrar que não teria sido possível a Lula multiplicar o número de empregos formais, com carteira assinada, a azulzinha, senão tivesse Vargas criado a salário mínimo, a CLT, a regulamentação dos direitos trabalhistas. Da mesma forma que não teria sido possível a descoberta do petróleo pré-sal, não tivesse Getúlio Vargas travado e vencido a batalha da sua vida, também responsável pela sua morte: a criação da Petrobrás. Entre o Getúlio, que nacionalizou o petróleo em 1938 e criou a Petrobrás em 1953, o presidente Geisel, que fortaleceu tremendamente a petroleira, apoiando seu vertiginoso avanço tecnológico e sua estratégica virada para a exploração na plataforma submarina, e o Presidente Lula, que baseou-se na gigantesca trajetória da empresa símbolo do Brasil, não teríamos nem chegado ao petróleo pré-sal, o grande salto da riqueza energética brasileira, com repercussões positivas na indústria naval, na indústria local, na infra estrutura portuária etc. Vale lembrar, até mesmo a maior descoberta de petróleo no Iraque, o poço de Majnoon, contou com a decisiva participação de técnicos da Petrobrás, sendo resultado da visão estratégica da política externa terceiro mundista do governo Geisel, que não se submeteu ao bloqueio imposto pelos EUA contra aquele país árabe, ao contrário, ampliou enormemente as relações bilaterais, período em que o Brasil também apoiou Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guine Bissau e reatou relações com a Republica Popular da China.

Vargas, Eletrobrás, Lula e Luz para Todos: o fio da história!

Seguindo este raciocínio de que entre entre Lula e Vargas há mais complementariedade e prolongamentos do que antagonismo e oposição – o que as declarações recentes do petista ajudam a compreender – também não teria sido possível realizar o programa Luz para Todos, não fosse a enérgica determinação de Getúlio Vargas criando a Eletrobrás, em janeiro de 1954. Vale dizer que no dia em que Getúlio anunciou, em discurso na Boca Maldita, em Curitiba, o decreto para esta estatal do setor elétrico, ele mesmo confidenciou ao então governador paranaense, Bento Munhoz: “tenho a sensação de que ao assinar este decreto da Eletrobrás estou assinando meu próprio atestado de óbito”. Seis meses depois, em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas estava morto, sendo agora homenageado por Lula ao dizer “o Brasil tem que ser do tamanho do sonho de Getúlio!”.

O BNDES e o Porto de Mariel : Vargas + Lula + Cuba

Por último, uma outra das grandes ferramentas estratégicas criadas por Getúlio Vargas, o BNDES, foi também o instrumento utilizado para muitas de suas políticas de geração de emprego, de fortalecimento da indústria local, mas especialmente em sua política externa, como na construção do Porto de Mariel, em Cuba, que contou com financiamentos do banco estatal e de empresa brasileira de construção, ambos atacados implacavelmente pela Lava Jato, operação estadunidense direcionada à destruição produtiva do Brasil. Ou seja, também neste episódio, se comprova que Getúlio se prolonga e continua em Lula, respeitadas as circunstâncias históricas, razão pela qual as declarações do petista merecem especial reflexão nas hostes petistas e sindicalistas, já que, nestes círculos, o mantra anti-getulista ,criado pela UDN e a mídia oligárquica, alimentado por uma certa intelectualidade uspiniana, encontrou muitos espaços para forjar uma imagem desfigurada e deformada do presidente gaúcho, que a agora o presidente nordestino trabalha para corrigir de público, como justa necessidade histórica.

Finalizando, a identidades e convergências entre getulismo e lulismo se ampliam no terreno concreto da luta política incontornável do momento para recuperar a soberania do Brasil, como destaca Lula. Não será possível recuperar o já desnacionalizado pré-sal e reconstruir a Petrobras em vias de demolição, bem como a Eletrobrás e a soberania energética, e também os direitos trabalhistas e previdenciários, sem inspirar-se no simbolismo da CLT e da Previdência Pública de Getúlio, e na unidade entre trabalhadores, estudantes e militares nacionalistas que forjou a inapagável campanha “O Petróleo é Nosso”! Vargas renova sua vigência nas declarações de Lula, e é por isso que elas merecem intensa reflexão nos círculos progressistas, já que não se pode recuperar o Brasil para o Brasileiros e barrar a destruição da Nação pelas novas Aves de Rapina neoliberais, sem manter viva a Herança Varguista. É o caminho que Lula aponta, sabiamente, vencendo barreiras e preconceitos.

(*) Por Beto Almeida, jornalista