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A guerra do oxímetro

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O neurocientista Miguel Nicolelis vem se afirmando como uma das figuras públicas mais importantes do Brasil, nesta época em que uma pandemia encontra um país desarmado pela falta de um presidente que se coloque à frente do combate a essa doença. Nicolelis aceitou o convite formulado pelos governadores do Nordeste e assumiu o comando do Comitê Científico que está traçando as diretrizes na prevenção e tratamento da covid-19.

 

Aos 59 anos, metade dos quais vividos nos Estados Unidos, esse professor da Universidade Duke está diante de um desafio que envolve a saúde e a vida de quase 60 milhões de pessoas que residem na segunda região mais populosa do Brasil. Ele trata essa tarefa como uma guerra e o território nordestino como um campo de batalha.

 

Nas grandes cidades, o front está concentrado nos hospitais, onde todo o tipo de profissionais de saúde trata de pacientes com sintomas mais graves. É a batalha dos respiradores. Nicolelis enxerga um novo front: as microrregiões nordestinas onde não se têm ainda 50 casos diagnosticados de covid-19. É o que ele chama de uma guerra de fronteira móvel. Há dois dias, das 187 microrregiões do Nordeste, 112 se enquadravam no parâmetro de menos de 50 casos.

 

Essa realidade está mudando. O próprio cientista informa que, de 24 a 30 de abril, o número de municípios com pelo menos um caso registrado da doença passou de pouco mais de 400 para algo próximo a 800. Ou seja, o tempo urge.

 

Para abrir essa nova frente de batalha, há armas disponíveis e em construção. Os governadores aprovaram a criação de uma Brigada Emergencial de Saúde, que será deslocada para onde a necessidade indicar. E como se saber onde é necessário? Aí entra outra arma em construção: o aplicativo Monitora Covid-19, que já tem mais de 50 mil usuários-informantes, mas que tem como objetivo chegar a 1 milhão.

 

Outra arma, esta já existente, será usada pelos brigadistas que atenderão aos locais informados pelo aplicativo. Sim, é ele, o oxímetro. Trata-se de um aparelho que mede o nível de oxigenação do sangue e é um instrumento que ajuda no diagnóstico precoce da doença, antes mesmo que a pneumonia se instale no paciente.

 

Ou seja, com pessoal, informações em tempo real e tecnologias baratas (um oxímetro custa por volta de 200 reais), pode-se evitar que o quadro existente nas grandes cidades se transfira para as médias e pequenas cidades interioranas. Mas, é preciso agir com rapidez. Fazer as Brigada acontecer. No Maranhão, o governo já abriu, há dois dias, o edital para a contratação de 100 médicos. Universidades anteciparam a colação de grau de estudantes de Medicina. E a Universidade Estadual deu início ao processo de revalidação de diplomas de médicos formados no exterior.

 

O lockdown decidido pela Justiça e acatado pelo Executivo maranhense, é outro passo importante. Ele afeta os cidadãos da ilha, que corresponde a 20 por cento da população do Estado. Mas tem efeitos que se desdobram para o interior, pois o transporte de pessoas em ônibus, ferry-boats e veículos de passeio entre a ilha de São Luís e o continente está quase que totalmente suspenso. Essa medida começa a vigorar no dia 5.

 

Outra medida ainda não tomada, mas que deve entrar no radar das autoridades de cada Estado, é o fechamento de estrada entre as áreas com maior quantidade de casos e aquelas ainda com poucas pessoas contaminadas. Na falta de uma orientação mais geral, no Maranhão, alguns municípios estão adotando o controle de rodovias.

 

A guerra do oxímetro ainda está em seu início, mas precisa ganhar corpo e visibilidade, envolvendo as comunidades, a sociedade civil organizada, prefeitos e vereadores, médicos da saúde da família, agentes de saúde. É a luta pela vida e pela integridade física dos brasileiros e brasileiras do Nordeste.

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