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A face do rancor acreano

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Minha avó materna, cabocla filha de índia “caçada a dente de cachorro” e de um cearense “cabra da peste”, nascida na cabeceira do rio Jordão, fronteira do Acre e Peru, povoou minha infância com histórias e causos acontecidos naquela parte da floresta; imagens e personagens tão marcantes que permeiam minha memória até os dias atuais.

 

A convivência com os índios que habitavam a região permitiu que ela aprendesse a usar a medicina da floresta e a conhecer os mistérios e encantamentos dos nossos ancestrais, tornando-se um tipo de xamã e conhecida como grande benzedeira. Médicos, inclusive, recorriam as suas rezas quando algum filho pegava quebranto. Talvez, algum dia, eu conte a sua história.

 

Porém, no momento, vou apenas relatar dois episódios, contados por ela, para levantar uma hipótese do processo de formação identitária do povo acreano e fazer um paralelo com o atual momento político (mesmo não sendo antropólogo).

 

Certa vez, disse ela, um seringalista da região negou a um índio uma quantidade de farinha e um terçado. Além de chamá-lo de preguiçoso, escorraçou o indígena das cercanias do barracão onde eram vendidas as mercadorias.  Ofendido e humilhado, o índio retirou-se para a mata; mas, antes, conseguiu pegar uma camisa do seringalista que estava pendurada na varanda, ainda suada do trabalho do dia. Passado algum tempo, o dono da camisa, começou a sentir umas ferroadas nas costas e o surgimento de bolhas vermelhas que não cicatrizavam. E não adiantou o uso de pomadas e unguentos conhecidos pelo boticário local. A dor e a aflição eram tamanha que o homem foi para a cidade em busca de tratamento. Depois de se consultar com médicos e farmacêuticos sem encontrar um remédio que aliviasse as dores, ele recorreu a um pajé.  O líder espiritual indígena, então, disse que aquilo era uma “panema” que tinham colocado nele. Portanto, era preciso achar a camisa suada que o índio que ele humilhara tinha enterrado em um formigueiro de tachi; só assim acabariam as dores das ferroadas e as bolhas vermelhas que se formavam em suas costas. O tal homem nunca encontrou a camisa. Sofreu até morrer.

 

O outro caso foi de um nordestino que chegou no seringal, assim como muitos, iludidos pela promessa de fortuna fácil. Mas, logo se viu na condição de semiescravo, cortando seringa e nunca obtendo saldo suficiente para voltar para sua terra de origem; vendo que muitos morriam de doenças e outros eram mortos a mando dos seringalistas, resolveu que com ele seria diferente. Quando chegou o dia de entregar a produção de borracha e fazer o acerto com o patrão, fingiu que aceitava as contas que estavam sendo feitas. E, repentinamente, degolou o guarda livro e o patrão a golpes de terçado.  Pegou o rifle e matou o jagunço que fazia a segurança do seringalista, recolheu todo o dinheiro que viu e desapareceu na mata.  Por mais que tenha sido procurado nas redondezas, nunca foi encontrado.

 

E o que isso tem a ver com a política atual? É aqui que levanto a hipótese da formação identitária. Apesar de ser um povo, aparentemente, pacífico, as gerações mais novas trazem no DNA a mistura de dois grupos sociais antagônicos e de natureza cruel. De um lado os colonizadores que vieram em busca da riqueza prometida pela borracha amazônica, em particular a acreana, que mataram de modo implacável os nativos da floresta, chegando a exterminar várias etnias; e do outro, os indígenas que reagiram ao genocídio de modo não menos cruel, ainda que numericamente inferior ao que fizeram os brancos invasores.

 

Com a soma de alguns fatos históricos do Acre, vale lembrar que Luis Gálvez Rodriguez de Árias, jornalista espanhol que criou um país onde “árvores sangravam leite e os homens matavam e morriam por elas”; depois de tudo o que fez por esta terra, foi “convidado” a deixar o Acre e posteriormente o Brasil, sob o risco de ser assassinado pelas mesmas pessoas a quem deu uma pátria; José Plácido de Castro, “que arrancou o Acre da Bolívia para unir ao Brasil”, foi covardemente assassinado por uma conspiração dos representantes do Governo Federal, segundo o relato de Genesco de Castro; e, nem o Chico Mendes, que organizou a resistência dos seringueiros de Xapuri contra a devastação da floresta, sobreviveu. Posterior a seu assassinato, foi declarado patrono do meio ambiente no Brasil; mesmo assim, é rejeitado por muitos de seus conterrâneos.

 

Enfim, essa rápida epopeia acreana nos leva às seguintes perguntas:  o que esperar de um povo que escorraça, mata e rejeita seus líderes, tão logo eles não sejam mais úteis? Que dizer de uma população de 77,2% que, em 2018, votou em um presidente assumidamente belicista, homofóbico e misógino? Se o povo acreano é bairrista, como afirmam alguns expertos na história do Acre, como explicar a eleição de um paulista para prefeito da capital, Rio Branco, por dois mandatos? E ainda para completar, do PT.

 

No entanto, agora, seduzidos pelo canto das sereias bolsonaristas, o povo odeia o paulista, odeia o PT e os petistas. De tal modo que não quis eleger, nesse último pleito de 15 de novembro, nenhum candidato que tinha por bandeira a sigla do partido que nos últimos 20 anos esteve no governo e na prefeitura com a tentativa de promover políticas públicas que pudessem melhorar a vida da população; esquecidos dos benefícios que recebeu, o povo se ajoelha frente a mais um novo “Caramuru” que veio em busca de fazer fortuna. Assim, o povo acreano mostra sua verdadeira face rancorosa e sua índole cruel; capaz de enterrar vivos os desafetos em um formigueiro ou degolar, se não com um terçado, mas com o voto, aqueles que não lhes são mais úteis.

 

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