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A elite brasileira, ignorante e insandecida, empobrece

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O jornal Monitor Mercantil em 12/6/2021 (Ano CVII, nº 28.891) coloca a seguinte notícia na primeira página Brasil é o País Que Mais Perdeu Milionários em 2020. E, no texto, encontramos:

 

 

“Houve a diminuição de 81 mil milionários no país. O número total de milionários no Brasil (adultos com patrimônio acima de US$ 1 milhão) passou de 375 mil para 294 mil”.

 

 

Antes de verificarmos as razões da queda, vamos refletir um pouco sobre estas quantidades.

 

 

Em 2020, de acordo com o IBGE, o Brasil tinha 211.755.692 de habitantes, logo 0,14% da população teve patrimônio, na cotação do dia da publicação, igual ou maior do que R$ 5.280.000,00.

 

 

Neste mesmo dia, estava anunciado para venda, no Leblon, bairro dos mais valorizados na cidade do Rio de Janeiro, à rua Cupertino Durão, com 192 m², quatro quartos e duas vagas na garagem, apartamento por seis milhões e 300 mil reais, inatingível para os menores destes milionários.

 

 

Que elite é essa? Poderia parodiar o roqueiro carioca Renato Russo (Renato Manfredini Júnior, 1960-1996), onde “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação” (Que país é esse?, 1987).

 

 

O Monitor Mercantil aponta a razão do portal Cupom Válido, que computou dados da OCDE e do Credit Suisse sobre distribuição de riqueza, para este declínio, em tempo de concentração de renda: a desvalorização do real perante o dólar estadunidense (USD). E informa também que o México, a África do Sul e o Chile seguem, após o Brasil, na ordem de queda.

 

 

Também informa este jornal que 70% da população brasileira têm patrimônio menor que R$ 50 mil, praticamente quatro anos do salário mínimo em 2020 (R$ 1.045,00/mês). Entre R$ 50 mil e R$ 500 mil estão 27% dos brasileiros e, acima dos R$ 500 mil, 3%, onde estão os recém-empobrecidos milionários.

 

 

Compare agora o caro leitor estes insignificantes valores de patrimônios e salários com a imensa riqueza brasileira. Apenas para ilustrar, vejamos.

 

 

ÁGUA – Possuímos dois dos maiores aquíferos do mundo: Guarani e Alter do Chão. Outros também merecem destaque: o Cabeças, o Urucuia-Areado e Furnas. Considerado o maior do mundo, o aquífero Alter do Chão é o maior em extensão de água e compreende a região dos estados Amazonas, Pará e Amapá. Segundo estimativas, seu volume seria suficiente para abastecer toda a população mundial por 100 vezes, pois alcança 86 mil km³. Em termos comparativos, o Alter do Chão tem quase o dobro do volume de água potável que o Guarani, que passa também pela Argentina, Paraguai e Uruguai. Sua extensão territorial, porém, é menor que a do aquífero que abastece os outros países sul-americanos – o Guarani se encontra em alarmante estado de degradação, por estar localizado em uma região populosa e poluída, a Centro-leste do continente.

 

 

Quando o assunto é a reserva do Alter do Chão, é importante enfatizar o seu alcance: para se ter uma ideia, a região de Manaus tem cerca de 40% do seu abastecimento de água proveniente da formação, e a reserva fornece ainda 30% da água consumida na cidade de São Paulo. As águas deste aquífero, em paralelo ao recurso oriundo do Guarani, são bem menos poluídas porque se encontram na região amazônica, em que a concentração populacional é significativamente menor. No Guarani há excesso de flúor, metais pesados e inseticidas agrícolas, mas a ação do homem também é acelerada pelas características naturais da formação: as rochas ali presentes filtram menos a água da superfície. A formação rochosa do Alter do Chão é mais arenosa, o que permite uma filtragem de recarga de água na reserva subterrânea.

 

 

Temos a mais extensa rede fluvial do mundo, dispondo do maior potencial hídrico do planeta. São 12 as regiões hidrográficas brasileiras: 1. Amazônica – a maior bacia hidrográfica do mundo; 2. Tocantins-Araguaia, a segunda maior do Brasil – ocupa aproximadamente 11% de todo território nacional; 3. Atlântico Nordeste Ocidental, localizada nos estados do Maranhão e Pará, possui grande diversidade de biomas: Caatinga, Cerrado e Floresta Amazônica, sendo os principais rios: Gurupi, Turiaçu e Pericumã; 4. a bacia do Rio Parnaíba, localizada nos estados: Ceará, Piauí e Maranhão; 5. Atlântico Nordeste Oriental, está localizada na Caatinga. Como é a região hidrográfica que está mais presente neste bioma, é a que apresenta a menor disponibilidade hídrica. Abrange os estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas; 6. São Francisco que ocupa cerca de 7% do território brasileiro; 7. Atlântico Leste, também situada no semiárido brasileiro, o que faz com que tenha o segundo menor potencial hídrico do país. Está localizada nos estados: Bahia, Minas Gerais, Sergipe e Espírito Santo; 8. Atlântico Sudeste, abrange as bacias do Rio Doce, Rio Ribeira e do Paraíba do Sul, nos estados: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. É a região hidrográfica da área mais povoada do país; 9. Paraná, terceira maior região hidrográfica do país, ocupando aproximadamente 10% do Brasil. É a região hidrográfica que mais aproveita seu potencial hidrelétrico. Seus rios principais são: Paraná, Paranaíba, e Tietê; 10. Paraguai, localizada no pantanal brasileiro; 11. Uruguai, a menor região hidrográfica do país, localizada no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Compõe parte da bacia do Rio Uruguai, em território brasileiro, com os rios Uruguai, Chapecó e Passo Fundo; e 12. Atlântico Sul, localizada nos três estados dos Sul e São Paulo. Seus rios principais são: Itajaí e Jacuí.

 

 

Além da geração de energia hidrelétrica, as bacias são importantes como meio de transporte, projetos de irrigação, saneamento básico, empreendimentos turísticos e outros aproveitamentos.

 

 

MINÉRIOS – Nem deveríamos tratar do minério de ferro, uma vez que estas elites acabaram com a siderurgia nacional, fazendo do Brasil, como qualquer colônia, um exportador de matéria prima. Temos a maior mina de ferro de alta qualidade, a céu aberto, do mundo, Carajás (Pará), que produz cerca de 150 milhões de toneladas anuais. Temos o manganês que serve de matéria-prima para a produção do aço. Ele é o responsável em dar liga aos componentes do aço. A maior parte do manganês extraído destina-se a essa finalidade. No Brasil, ele está sobretudo no estado do Amapá. Mas também é encontrado no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, e na Serra dos Carajás, no Pará. Outro mineral importante para o país é a bauxita, matéria-prima do alumínio. O Brasil detém a terceira maior reserva do mundo. Suas jazidas são encontradas, principalmente, em Minas Gerais e no Pará.

 

 

Riqueza que não gera recursos para o país é o nióbio. Carros, turbinas de avião, aparelhos de ressonância magnética, mísseis, marca-passos, usinas nucleares, sensores de sondas espaciais, praticamente tudo o que é eletrônico, ou leva aço, fica melhor com nióbio. A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) vende o minério bruto, uma liga chamada ferronióbio, que contém 2/3 de nióbio e 1/3 de ferro.  Além desse produto, seu carro-chefe, ela também comercializa dez outras formulações à base de nióbio A empresa tem 1.800 funcionários e lucra R$ 1,7 bilhão por ano. O processamento do nióbio envolve mineração, homogeneização, concentração, remoção de enxofre, remoção de fósforo e chumbo, alguma metalurgia, britagem e embalagem.  Para produzir o nióbio metálico, por exemplo, é necessário realizar uma última etapa em um forno de fusão por feixe de elétrons, que atinge temperaturas superiores a 2.500ºC. A grande reserva do planeta, em produção, está em Araxá, a 360 km de Belo Horizonte, e há outra, em Catalão, Goiás. Também há nióbio na Amazônia, mas ainda não começou a ser minerado. Só o que temos em Minas Gerais e Goiás já é suficiente para abastecer a demanda mundial pelos próximos 200 anos, nos volumes hoje demandados. China, EUA e Japão pagam em média US$ 26 mil pela tonelada de nióbio.

 

 

Brasil só exporta o nióbio sem processar e não fabrica produtos derivados.

 

 

É um caso parecido com do silício. Nós temos as maiores reservas de areia do planeta (é da areia que o silício é extraído), mas só exportamos silício com 99,5% de pureza, menos dos 99,99999% exigidos pela indústria eletrônica.

 

 

Brasil cobra pouco, quase nada, aos produtores privados . Aqui o Estado fica com 2% do valor das exportações de nióbio, por exemplo, bem menos do que a Austrália, que exige 10%.

 

 

PETRÓLEO – Poucos países do globo são autossuficientes em reservas de petróleo. O Brasil é um deles. Isto deveria, e a Petrobrás tem tecnologia para isso, nos fazer autossuficientes no suprimento de derivados. No entanto com a política antinacional e contrária aos interesses da população, que o digam os caminhoneiros, não só importamos derivados de petróleo, como cobramos um valor absurdo para quem não tem um centavo a pagar ao exterior por qualquer derivado, aí incluídos petroquímicos e fertilizantes. Para robustecer nossa miséria, as elites empobrecidas estão vendendo as reservas do melhor petróleo existente, que estão nas camadas do pré-sal.

 

 

TERRAS AGRICULTÁVEIS – Juntamos à agua e ao sol por todo ano, em todas as estações, a área agricultável estimada em 152,5 milhões de hectares ou 17,9% do território, sendo que 62,5 milhões de hectares, ou 7,3 % deste território, constituem-se de terras já utilizadas. Ou seja, podemos dobrar nossa produção agrícola, basta ter política desenvolvimentista. O avanço da agricultura no Brasil não necessita ocupar reflorestamentos, nem desmatar áreas. Utilizando áreas degradadas ou intensificando o cultivo nas áreas já disponíveis já poderíamos expandir consideravelmente a agricultura, aumentando a produção e empregos, além de elevar a receita de exportações.

 

 

A grande falta no Brasil é a elite nacionalista, interessada em enriquecer com o desenvolvimento do país, e não ficar esperando as gorjetas e comissões vindas do exterior, receber da corrupção para aprovar legislações nefastas à Nação, pois a especulação cambial, como foi observada pelo analista, sempre a levará ao empobrecimento.

 

 

E, voltando ao roqueiro e seu sucesso musical com “Que país é esse?”:

 

 

“Mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão.

 

 

Quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”.

 

 

 

(*) Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

 

 

 

Publicado, originalmente, no Pravda.ru em português

 

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