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A educação libertadora de Paulo Freire e a “inconfidência” de Tiradentes

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Na semana em que comemoramos no Brasil a memória de Joaquim da Silva Xavier, popularmente conhecido como Tiradentes, nunca é demais lembrar que, se hoje este homem é por todos nós reverenciado como herói nacional, um dia ele foi morto, esquartejado e, as partes de seu corpo, exibidas em praça pública para que sua rebeldia não servisse de exemplo para ninguém. Assim acontece, não raro, com as grandes lideranças sociais e populares de nosso povo. As elites sempre criminalizam e perseguem os verdadeiros heróis do nosso povo, ontem e hoje.

 

Paulo Freire também foi perseguido pelas elites políticas de seu tempo, obrigado ao exílio e ao distanciamento forçado do povo que sempre tanto amou. Assim como Tiradentes, Paulo Freire só conseguiu ser reconhecido por suas contribuições ao povo brasileiro tempos depois de ser caluniado pelo governo militar. Coincidentemente, o mesmo governo que restabeleceu Tiradentes como herói nacional. O motivo dessa releitura histórica por parte dos militares brasileiro em 1965 não se deu somente pelo fato de Tiradentes ter sido um militar, mas, sobretudo, porque a memória desse inconfidente mineiro passou a representar a luta pela própria independência do Brasil da Coroa Portuguesa, que veio a ocorrer quase 100 anos depois.

 

A educação libertadora de Paulo Freire também foi caluniada e difamada. Ele mesmo sofreu as piores acusações dos poderosos de então. Anos mais tarde, foi reconhecido como o maior pedagogo brasileiro no mundo, lido e citado nas faculdades de pedagogia de todo o planeta. A sua proposta por uma educação emancipadora também convergia com o propósito de independência de nosso povo: só a educação poderia nos libertar do jugo dos tiranos.Assim como a luta anticolonial de Tiradentes forjou, anos mais tarde, a própria independência brasileira, a educação libertadora pensada por Freire inspirou nossos sentimentos mais generosos na redemocratização brasileira ao final da ditadura militar que se iniciou em 1964 no Brasil.

 

Fortemente influenciado pelo pensamento de Amílcar Cabral, líder revolucionário da luta anticolonial da Guiné-Bissau e de Cabo Verde contra o colonialismo português, Freire bebeu na fonte da luta independentista desses dois países irmãos da África. Chegou a comparar Cabral com Che Guevara, indicando os dois como sendo “duas das maiores expressões do século XX”. A Inconfidência Mineira de Tiradentes, portanto, representou para a independência do Brasil o mesmo que Amílcar representou para a independência e luta anticolonial daqueles dois países irmãos. A educação libertadora só seria realmente emancipadora, criadora de autonomias políticas e subjetivas do ser humano, se estiver inscrita em um paradigma de luta permanente pela independência e soberania dos nossos povos. E Paulo Freire atuou como consultor militante de projetos educacionais na África quando da independência de várias ex-colônias portuguesas na África, à época quando fez parte de uma equipe do Instituto de Ação Cultural do Departamento de Educação do Conselho Mundial de Igrejas.

 

Se Tiradentes foi considerado um “inconfidente” pelos poderosos de seu tempo, Freire também o foi quando se alinhou na luta anticolonial na África e também no esforço de forjar um Brasil verdadeiramente independente e soberano. O projeto libertador de sua concepção pedagógica é caldo para uma verdadeira independência que virá a acontecer no Brasil quando nosso povo tiver acesso pleno a uma educação de qualidade. E isso não cairá dos céus: será fruto de nossa luta diária por uma educação inspirada em Freire e que tenha como exemplo também nosso herói nacional Tiradentes.   

 

 

(*) Por Heleno Chagas Araújo para o Jornal Brasil Popular, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).




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