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A economia nordestina é mais vulnerável à covid-19 do que a média brasileira

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Em todos os horizontes de tempo, as perspectivas se aceleraram. No curtíssimo prazo, a pandemia do novo coronavírus ainda não chegou ao auge no Brasil. A doença se entranhou nas periferias das maiores cidades do País, com destaque para as capitais do Norte e Nordeste, e se interiorizou em muitos estados do Brasil.

 

A pandemia pega as periferias do Brasil empobrecidas, com ampla parcela dos moradores habitando aglomerados subnormais, com casas apinhadas, com déficit habitacional por falta de acesso a saneamento básico e por super-ocupação, com pessoas mal alimentadas, e com sérios gargalos na infraestrutura hospitalar. Temos, como caso-limite e fonte de indizível constrangimento internacional, um desastre na comunicação social. Fruto de uma crise civilizatória: uma tempestade mais que perfeita para o Brasil.

 

A baixa adesão ao isolamento social nas periferias deverá provocar, em breve, um recrudescimento da taxa de infestações e de mortes por covid-19, aprofundando a crise política. Projeções conservadoras já situam o piso da mortalidade em 250 mil pessoas no Brasil, configurando, provavelmente o pior caso de covid-19 não apenas das Américas, mas do Mundo.

 

No curtíssimo prazo, com o iminente colapso do sistema hospitalar em simultâneas cidades, continua a necessidade do distanciamento social e a prioridade das políticas públicas é realizar a busca ativa daqueles hiperfragilizados e invisíveis aos programas de auxílio federal e capilarizar recursos. É preciso capilarizar: remédios, material de limpeza, equipamentos hospitalares, EPI´s e luvas, alimentos, poder de compra. Deflação é sintoma de grave desorganização econômica, de aceleração de mortalidade empresarial e exponenciação do desemprego estrutural.

 

França, Espanha e Itália, deverão receber 300 milhões a menos de turistas, no quinquênio iniciado em 2020. Isto significa que haverá, nos anos iniciais uma explosão do desemprego estrutural (de longo prazo, com igual crescimento dos desalentados e dos subutilizados). Lá, a política de renda mínima permanente vem sendo debatida e formulada em interessante processo decisório, de cuja boa conclusão depende a estabilidade política do Projeto Europeu (particularmente, no que diz respeito à necessidade de que tal política seja financiada, ainda que parcialmente, pelo Governo Europeu).

 

Necessária na Europa e nos EUA, muito mais necessária, a renda mínima, no Brasil e no Nordeste em particular – a bandeira unificadora no que tange às políticas públicas para fragilizados e hiperfragilizados.

 

No curto prazo, a discussão é evitar o aprofundamento da destruição de empregos e de empresas. Políticas de geração de emprego são fundamentais (mas de empregos, que não sejam, em si mesmos, vetores de proliferação da covid-19).

 

Em uma perspectiva de curto e médio prazos, há toda uma interessante discussão que vem sendo travada, em torno da questão da reconversão produtiva, para uma economia mais intensiva em saúde, educação, ciência, tecnologia, arte, cultura & entretenimento, turismo, economia criativa em geral. Todos estes setores, porém, mediados pelas tecnologias de comunicação, crescerão muito na nova normalidade.

 

A economia nordestina é mais vulnerável do que a média do pais à Covid-19. Constata-se, na estrutura ocupacional uma elevada participação dos trabalhadores autônomos (conta-própria), ocupados nos subsetores de comércio, serviços e construção civil, predominantemente de baixa produtividade, e dependentes de pequenas economias de aglomeração (alimentação popular, comércio ambulante, diaristas, serviços pessoais, etc.). A ampla maioria destes trabalhadores não contribui para a Previdência e é desprovida de CNPJ, não dispondo de garantias de renda, e estão enfrentando perda total ou parcial de renda, desde a segunda quinzena de março. Uma parte considerável destas pessoas, restam invisibilizadas aos programas de auxílios federais, e tipicamente dependendo de apoio familiar ou de vizinhos próximos, enfrentam situação de privação preocupante.

 

Desde 2015, com a mega-recessão e a superseca (2015-16), a estagnação que se seguiu no triênio seguinte, a violenta contração gastos e transferências federais na Região e, ainda, a redução da cobertura dos programas sociais, o Nordeste chegou ao momento T0 da instalação da pandemia no Brasil, com uma estrutura ocupacional e de rendimentos deprimida, com precarização muito maior do que a média do país.

 

Há sinais de comprometimento da segurança nutricional de um número crescente de nordestinos, ambiente ideal para a proliferação da covid-19. Previsivelmente, a recuperação da economia regional será muito lenta, pelo menos até que exista uma vacina/tratamento eficaz (e nós, os brasileiros, tenhamos acesso ao mesmo), ou a população se conscientizar que cada um é responsável por sua segurança e a segurança dos demais de sua comunidade.

 

A experiência internacional mostra que a comunicação social unificada e eficaz, em países pobres, é essencial para o enfrentamento bem-sucedido à pandemia da covid-19. É o caso da Índia e da Nigéria. Os protocolos para a superação da pandemia, oriundos dos melhores exemplos internacionais são claros: 1. Índice de Transmissão abaixo de 1,0; 2. Queda sustentada de mortos e infectados, pelo menos durante 15 dias; 3. Taxa de ocupação de leitos intensivos/respiradores: abaixo de 70%.

 

Sem esquecer, que:

 

  1. para abrir de forma sustentável e progressiva (enquanto vacina não houver), a principal prioridade de política pública, é ter a capacidade de testar em massa e isolar infectados, ao longo da cadeia de contágio. Por que nossos líderes não se comprometem em alcançar este objetivo?

 

Felipe de Holanda (DECON/GAEPP/UFMA)
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