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A democracia fica?

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O conceito de bem e mal não é universal como se imagina. A nossa cultura ocidental cristã e judaica nos impôs a certeza de que não é possível confundir bem e mal. As eleições brasileiras talvez sejam a comprovação mais concreta da relativização do bem e do mal. Tais conceitos são negados ou reafirmados conforme a narrativa construída a partir de territórios subjetivos, como, por exemplo, a partir das redes sociais, ainda que não se assente em fatos. As narrativas transformam-se em notícias falsas (fake news), que produzem uma realidade paralela dissociada da vida real. A realidade passa a ser fruto de narrativas criadas, por exemplo, em gabinetes de ódio, e os fatos deixam de ter importância na explicação dos desafios reais que devem ser superados rumo à construção de uma sociedade melhor.

 

A carestia dos alimentos e combustíveis (fatos concretos) deixa de ser considerada em nome de uma luta contra inimigos imaginários. Luta contra o comunismo e contra o aborto são exemplos desses inimigos imaginários. Na verdade, a maioria das pessoas não consegue definir o que é comunismo e perceber que a defesa da vida não se resume em ser contra o aborto. A realidade de milhões de indivíduos em situação de insegurança alimentar e de fome; a extinção de direitos trabalhistas; a redução de investimentos em áreas estratégicas; como educação, saúde, energia, pesquisa científica; o aumento das violências contra populações periféricas; e o estímulo à concentração de renda são fatos desconsiderados ou secundarizados na realidade paralela construída pelas narrativas negacionistas potencializadas pelas redes sociais.

 

Platão em seu livro VII da República descreve a alegoria do Mito da Caverna. Nessa alegoria, um dos indivíduos ficava de costas para a entrada da caverna e, por isso, via somente as sombras projetadas na parede da vida que acontecia do lado de fora. Ao ter a coragem de sair da caverna, ele constatou que o que via era somente sombras do mundo iluminado que existia para além da vida limitada que tivera até então. A realidade paralela criada nos dias atuais parece com o retorno à caverna, contudo, com imagens mais obscurecidas por obstáculos erigidos pelas fake news. Talvez Platão não imaginasse que após tantos séculos sua alegoria continuasse tão atual ou, pior, que retratasse a condição humana atual.

 

A nossa República brasileira — nascida de um golpe militar-oligárquico, após uma independência negociada, erigida sobre o sangue de negros e índios — não pode continuar circunscrita aos limites da caverna. A República precisa ser reconstruída a partir da superação de mazelas históricas tendo como objetivo central a radicalidade da democracia. A união de setores diversos da sociedade brasileira (representantes de movimentos sociais, do mercado financeiro, da intelectualidade, de partidos liberais e socialistas, de lideranças religiosas progressistas e conservadoras, de lideranças das comunidades periféricas, de representantes de comunidades vítimas de preconceitos etc.) é um passo importante na tentativa de superar a realidade paralela e distópica (opressora, totalitária), que aprofunda a corrosão da frágil democracia brasileira.

 

A atual tragédia social brasileira negada por discursos obscurantistas de líderes religiosos e políticos  pavimentam o caminho para consolidação de uma república cada vez mais distante da democracia. A corrosão da democracia está sendo acelerada nesta conjuntura histórica contemporânea, o que pode gerar uma república autoritária, plutocrática e cleptocrática (distópica). O autoritarismo é sempre ao antagonismo da democracia, a plutocracia é marca deste período em que a concentração de renda se acentua e a normalização do inconstitucional orçamento secreto em conjunto com sigilos de 100 anos, ações não apuradas judicialmente, indicam o fortalecimento de um modelo de “país” administrado pela cleptocracia (sistema de governo corrupto, da apropriação ilegal do capital de um país em benefício próprio).

 

A superação destes elementos é condição essencial para que a República brasileira tenha como elemento central a democracia. Somente em um regime profundamente democrático é possível promover o bem comum, respeitando a diversidade individual, cultural e social. A real prática da democracia possibilita uma convivência pacífica de pessoas que pensam diferente, o diálogo respeitoso apesar das divergências, a capacidade de construir e de implantar políticas voltadas para atender aos interesses de toda a coletividade.

 

Neste domingo, 30 de outubro, o povo escolherá entre dois projetos antagônicos de sociedade, que pode significar reafirmação ou negação da democracia. O projeto capitaneado pelo ex-presidente Lula aponta para a reconstrução e aprofundamento da democracia brasileira. A união de setores diversos em torno do ex-presidente demonstra, de forma concreta, que é possível retomar o caminho da democracia, assim como, a presença neste esforço de unidade, de vários segmentos que representam movimentos sociais e de trabalhadores/as, indica a possibilidade de aprofundar a democracia e consequente valorização das classes trabalhadora e populações historicamente construídas. De outra forma, o projeto representado pelo atual presidente aponta para continuidade da fragilização da democracia, o que fatalmente produziria mais um passo em direção ao autoritarismo e a continuidade da retirada de direitos trabalhistas e relativização de direitos fundamentais.

 

A história delegou a nós que aqui estamos a escolha entre democracia e autoritarismo, entre mais ou menos direitos trabalhistas e sociais, entre preservação ou destruição do meio ambiente, entre respeito ou desvalorização da vida, entre mais bibliotecas ou clubes de tiro, entre mais educação e saúde ou mais jet-ski e sonegação, entre mais transparência ou mais sigilos. São projetos antagônicos e o voto que registraremos dirá para os que virão se fomos capazes de ser maiores que nossas crenças e valores individuais para reafirmarmos nosso compromisso na defesa e construção da democracia.

 

(*) Por Cleber Soares, professor da rede pública de ensino do Distrito Federal e diretor do Sinpro-DF.

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