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A cruz e a espada no domínio financeiro neopentecostal do Brasil

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Nos anos 1960, o mundo ocidental conhecia inegável crescimento e elevação do padrão de vida das populações, em quase todo aquele mundo e, em parte, também no Oriente.

 

 

Uma reduzida parcela da sociedade dos Estados Unidos da América (EUA) se apropriava mais do que todas as demais, como é esperado em uma sociedade capitalista, e, ainda mais, da poderosa nação vencedora das duas guerras mundiais, na primeira metade do século 20.

 

 

Porém, boa parte da riqueza estadunidense tinha origem na relação colonial que mantinha com os demais países do mundo. Uma relação diferente da inglesa no século 19, sem a ostensiva presença política, mas, igualmente, com domínio político, econômico e cultural dos poderes locais.

 

 

No Ocidente, a colonização ibérica fizera da evangelizadora religião católica romana a predominante em suas elites e, igualmente, de grande aceitação popular, muitas vezes na forma de sincretismo religioso.

 

 

Nelson Aldrich Rockefeller (1908–1979), neto do “barão ladrão” John Davison Rockefeller que deixou a fortuna de US$ 25,2 bilhões (moeda de 2020) e que viria a ser vice-presidente de Gerald Ford, era então governador de Nova York (1959–1973). Como participante da elite dirigente estadunidense, estudava as questões relativas ao poder do país, sua projeção e manutenção pelo mundo, tendo para isso o suporte de órgãos públicos, empresas e academias.

 

 

Em 20/11/1969, apresentou ao subcomitê de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Senado dos EUA o Relatório Rockefeller, solicitado pelo presidente Richard Nixon. Há neste documento muitas informações relevantes para a transformação que ocorreu no Brasil, por coincidência (?), com a denominada redemocratização. Vamos transcrever alguns trechos do Relatório Rockefeller:

 

 

“Há mais de 400 anos, a história dos militares e da Igreja Católica, trabalhando lado a lado com os proprietários de terras para proporcionar estabilidade, é uma das lendas nas Américas”.

 

 

“Nos últimos anos, surgiram oportunidades para jovens ambiciosos e talentosos, vindos de famílias pobres que não têm terra nem conexões profissionais e comerciais. Esses jovens oficiais estão assumindo posições de liderança em quase todos os grupos militares do hemisfério. Embora sua lealdade seja com as Forças Armadas, seus laços emocionais geralmente são com o povo”.

 

 

“Crescente nacionalismo que muitas vezes encontrará expressão em termos de independência da dominação e da influência dos EUA”.

 

 

Tratemos de contextualizar o Relatório e as mudanças em curso no ocidente naquela década de 1960.

 

 

Em 28/10/1958, o cardeal Angelo Giuseppe Roncalli foi eleito Papa e tomou o nome de João XXIII. A Teologia da Libertação empolgava parte da Igreja Católica, voltada para as populações pobres que foram excluídas do processo de desenvolvimento que ocorrera após a II Grande Guerra.

 

 

O Papa João XXIII convoca o Concílio Vaticano II (1962–1965), que trará mudanças no apostolado católico. Embora o resultado do Concílio tenha sido muito mais na esfera do comportamento religioso dos católicos (participação mais ativa dos leigos nos cultos e nas ações religiosas, aceitação das outras religiões, vestes sacerdotais), a situação política criada por Harry Truman (1884–1972) e Winston Churchill (1874–1965) – a Guerra Fria – reduziu o Concílio à aceitação das comunidades eclesiais de base e da Teologia da Libertação. A Igreja Católica passa a ser vista como “socialista” pelo poder estadunidense.

 

 

Delcio Monteiro de Lima (Os Demônios Descem do Norte, Francisco Alves Editora, RJ, 1987) imputa este contencioso religioso católico-estadunidense à disputa pela influência na América Latina, portanto bem mais antigo. Ainda, Delcio Monteiro de Lima afirma que “a hierarquia da Igreja Católica da América Latina, sem compreender as infundadas suspeitas manifestadas pelo Relatório Rockefeller (de 1969), viu com tristeza maior que o Relatório da Santa Sé, 10 anos depois, não só reafirmava, como tornava mais enfáticas as desconfianças”.

 

 

“A missão de evangelizar, que é próprio da Igreja, exige não apenas que o Evangelho seja pregado em espaços geográficos cada vez mais vastos e a multidões de homens sempre maiores, mas que sejam também impregnados pela virtude do mesmo Evangelho os modos de pesar, os critérios de julgar e as normas de agir; numa palavra, é necessário que toda a cultura do homem seja penetrada pelo Evangelho. O ambiente cultural em que vive o homem exerce uma grande influência no seu modo de pensar e, consequentemente, na sua maneira de agir; por isso o dissídio entre a fé e a cultura constitui um não pequeno obstáculo para a evangelização, ao passo que uma cultura imbuída de espírito cristão favorece a difusão do Evangelho. Além disso o Evangelho de Cristo, que é destinado a todos os povos de todos os tempos e de todas as latitudes, não está ligado de modo exclusivo a nenhuma cultura particular, mas sim pode permear todas as culturas para iluminá-las com a luz da Revelação divina e purificar em Cristo os costumes dos homens” (Sapientia Christiana, Vaticano, 29 de abril de 1979).

 

 

O Relatório Rockefeller apresenta um item específico sobre Nacionalismo, onde se lê: “Tudo é intensificado pelo espírito de nacionalismo”, e o que encontramos no documento pontifício senão o respeito e a adoção das culturas, das identidades dos povos, de seu modo de viver e pensar, em uma palavra: nacionalismo.

 

 

Podemos ver aí uma das ações agressivas do colonialismo estadunidense com o uso das denominações protestantes, em especial a neopentecostal.

 

 

Mas há um equívoco da análise rasteira e preconceituosa, buscando apenas justificativa para o uso da força, quer armada, militar, tão comum na América Central e na Colômbia, quanto à força do dinheiro, por bloqueios, subvenções e, muito mais usual, da corrupção pura e simples.

 

 

No aspecto da corrupção, o Relatório nem mesmo oculta quanto àquela no meio militar ao “propor” “a exposição às conquistas fundamentais do modo de vida dos EUA”, estes recebidos “por meio de programas de treinamento”.

 

 

Quando as finanças substituem os EUA no poder colonial da América Latina, estes “procedimentos” são mantidos, pela eficácia comprovada. Veja-se hoje não somente o Governo Bolsonaro, mas a equipe do candidato Sergio Moro.

 

 

Um pouco mais de estudo e estes conselheiros veriam que as Américas católicas eram e são distintas, em especial as espanholas da portuguesa. Se, no lado espanhol, a espoliação era direta no sentido da metrópole, pois a Espanha já era um grande Império, desde a fusão das coroas de Castela (antes Castela, Leão e parte da Galiza) com a de Aragão (antes Aragão, Barcelona, Valência e Maiorca), do lado português era um pequeno reino, em termos territorial e populacional.

 

 

Disto resultou que parte da aristocracia portuguesa se transferiu, antes mesmo da família real, para o Brasil e aqui formaram seus “feudos” e uma casta que ainda hoje se verifica nos comportamentos arrogantes e discriminadores até da classe média. Esta situação já era retratada em 1732 por Julião Rangel de Souza, procurador da Câmara do Rio de Janeiro (Arquivo Histórico Ultramarino, Coleção sobre o Rio de Janeiro, in João Fragoso e Maria de Fátima Silva Gouvêa, Nas Rotas da Governação Portuguesa: Rio de Janeiro e Costa da Mina, séculos XVII e XVIII, em Nas Rotas do Império, organizado por João Fragoso, Manolo Florentino, Antônio Carlos Jucá e Adriana Campos, Edufes – Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2006).

 

 

Nestes registros vemos que “a ocupação das posições cimeiras do governo era um privilégio decorrente da descendência de conquistadores” (os Albuquerque, Coutinho, Sá, Souza etc.) “de reconhecida e antiga nobreza e não de títulos da Universidade de Coimbra”.

 

 

O procurador Rangel de Souza também enfatiza a distinção entre a nobreza principal da terra e a nobreza advinda pela ciência, pela milícia ou pelo exercício de certos ofícios.

 

 

Obs.: milícia tomou no Rio de Janeiro deste século 21 o sentido de marginal, mas no texto referido tem o sentido de “oficial ou sargento que não faz parte do quadro permanente”. Veja-se o excelente romance de Manuel Antônio de Almeida (1830-1861), Memórias de um Sargento de Milícias.

 

 

Ainda hoje, em pleno século 21, a sociedade brasileira resiste à democratização, à cidadania, o que se verifica na rejeição de Lula, de Brizola, de Arraes, até pelos que só teriam a lucrar com seus governos, como a ascensão social na Era Vargas.

 

 

Mas a soberba estadunidense nem mesmo soube colocar a seu favor estes verdadeiros reacionários, entraves ao desenvolvimento da sociedade. Agora, com a concentração de renda, surge outro tipo de descriminação, desta vez com apoio das finanças, onde não é pequena a participação de capitais marginais, das drogas, prostituição, contrabando, corrupção etc.

 

 

O que fica bastante claro é o projeto de poder que irá se contrapondo aos governos militares, especialmente de Médici e Geisel, e da conquista e doutrinação da oposição que assume o país após as desregulações financeiras, isto é, com Fernando Collor e sucessores, com o projeto decorrente do Relatório Rockefeller de 1969, e das surpresas da história, como Lula.

 

 

(*) Por Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

 

 




 

 

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