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A crise nos demanda o novo

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Nos últimos cinco anos, o país foi sacudido por acirradas lutas pelo poder entre as instituições (o executivo, o judiciário, o legislativo, a mídia, entre outras). Tem faltado diálogo e as relações têm sido marcadas por provas de força, que visam intimidar o outro lado.

 

Para simplificar, pense-se no presidente da república e nas recentes manifestações de 7 de setembro. Ele chama os seus às ruas contra quem dele discordar, passando a ideia de que o poder seja um instrumento de força na mão do chefe, cujas falhas só ocorreriam porque “outros” o dificultariam na atuação. Por isso, apela: ‘quem tentar me impor limites deve ser removido’ e arregimenta apoiadores contra os opositores, ao estilo intolerante do Brasil “ame-o ou deixe-o”.

 

Poder para que? Para deixar ‘o homem’ trabalhar, diriam os que creem que o líder sempre saiba o que fazer e seja capaz de fazê-lo. Nessa perspectiva, o importante seria garantir o exercício da vontade do escolhido, figura carismática que, não por acaso, é chamada de ‘mito’. Um “salvador da pátria” que, sozinho, resolveria milagrosamente os problemas. É uma ideia confortante, mas autoritária e ilusória. Não há líderes solitários e infalíveis na história.

 

A sociedade brasileira não é tão simples. Não há apenas um poder e um líder. Há mais poderes, mais atores com atribuições específicas, cada um com seu espaço protagonista, mesmo que de âmbitos e tamanhos diferentes. O poder é distribuído, não tem um único centro ou ator. Essa pluralidade permite mobilizar energias e pôr a sociedade em movimento. Pode dar trabalho, mas é uma fonte de oportunidades. Infelizmente, hoje, a pluralidade é negada pelo líder, que a vê como um empecilho e utiliza o poder para dividir o país, levando-o à paralisia, como um doente que, tomado por sua patologia, torna-se incapaz de relações com os outros.

 

As pessoas, as empresas, as organizações têm vida própria, mas os problemas e as oportunidades da vida social as obrigam a buscar respostas que atingem a todos. Na falta de quem dê respostas a tais necessidades e anseios, no Brasil de hoje, são buscadas saídas individuais e ficam sem solução os desafios que requerem a coordenação de vários atores.

 

A vida em sociedade depende de relações, que apenas às vezes são entre quem manda e quem obedece – apenas às vezes são relações de quartel. Há também relações entre atores não subordinados que se colocam em jogo com seus recursos e capacidades, desde que enxerguem perspectivas e passem a acreditar nelas, mesmo não tendo sempre a clareza e/ou a intenção de trabalhar para um projeto comum de país. Frequentemente, isso se dá graças a facilitadores, que dialogam com as partes, articulam iniciativas, somam forças. Nessa outra concepção, o poder não é uma varinha mágica nas mãos do líder da nação ou uma prerrogativa de mando de segura eficácia, mas emana dos atores plurais que o atribuem ao líder, por vê-lo como um grande facilitador, capaz de escuta-los, entendê-los e de dar-lhes respostas, bem como de dar conta das demandas do país. É desse crédito que o líder-facilitador traz a sua força. No fundo, essa concepção reflete e aprofunda o ditado da Constituição “Todo poder emana do povo”. Este projeto idealista, com que me dou o direito de continuar a sonhar, convoca o despertar da sociedade e de suas representações para um exercício do poder não pontual, a cada quatro anos nas urnas, mas contínuo. Trata-se de um poder baseado em relações entre atores, a serem construídas, mantidas e aperfeiçoadas.

 

A crise dessas relações caracteriza o difícil momento do país. Sem dúvida, em boa parte é causada pelo atual presidente, mas o problema não é de hoje e nem se reduz a uma pessoa. Por isso, dizer sim ou não ao impeachment não é o cerne da questão: traz algumas vantagens, mas trocar o ‘mito’ por uma versão envernizada do mesmo não fará o Brasil acordar outro país. Concepções e práticas de poder enraizadas na nossa sociedade carecem de superação, não garantida com a eleição de líderes da nação portadores de outras histórias e valores. Se a estrutura ficar a mesma, mesmos também permanecerão os alicerces do poder.

 

(*) Luciano Fazio é matemático pela Università degli Studi de Milão/Itália e especialista em previdência pela Fundação Getúlio Vargas. Consultor na área previdenciária.

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