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Josimo Tavares: verso e memória.

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Na manhã de sábado, 10 de maio de 1986, o Pe. Josimo Tavares se dirigia ao escritório da Comissão Pastoral da Terra, numa esquina de Imperatriz. No alto do primeiro lance da escada ouviu alguém chamar seu nome. “ – Pe. Josimo!”, voltou-se para encarar a morte. Foi alvejado por dois disparos da pistola 765 empunhada por Geraldo Rodrigues, pistoleiro a soldo de latifundiários.

 

Josimo já era um homem marcado. Sofrera um atentado no mês anterior. Em 15 de abril, a porta do seu Toyota Bandeirante deteve cinco balaços disparados numa estrada empoeirada do Bico do Papagaio, onde viveu e lutou entre os posseiros e as quebradeiras de Coco Babaçu.

 

Nós o sepultamos em Tocantinópolis cercado por uma multidão comovida de trabalhadores. Depois foi trasladado para São Sebastião do Tocantins, onde repousa. Dei testemunho de sua morte – por tudo o que significou para mim e para as lutas dos trabalhadores – num longo poema. Reproduzo aqui para acender sua memória, a última parte:

 

“Quem é esse menino negro

que desafia limites?

 

Apenas um homem.

Sandálias surradas.

Paciência e indignação.

Riso alvo.

Mel noturno.

Sonho irrecusável.

 

Lutou contra cercas.

Todas as cercas.

As cercas do medo.

As cercas do ódio.

As cercas da terra.

As cercas da fome.

As cercas do corpo.

As cercas do latifúndio.

 

Trago na palma da mão

um punhado da terra

que te cobriu.

Está fresca.

É morena, mas ainda não é livre

como querias.

 

Sei aqui dentro

que não queres apenas lágrimas.

Tua terra sobre a mesa

me diz com seu silêncio agudo

–             Meu sangue se levantará

como um rio acorrentado

e romperá as cercas do mundo.

 

Um rio de sangues convocados

atravessará tua camisa

e ela será bandeira

sobre a cabeça dos rebelados.”

 

Goiânia, 1986.

 

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