Neste 11 de setembro se completam 48 anos do assassinato do presidente eleito democraticamente no Chile, Salvador Allende, com o bombardeio do Palácio de La Moneda. A execução de Allende foi o primeiro passo no golpe de Estado que implantou a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), uma das mais longas e sanguinárias do continente, que chacinou mais de 40 mil chilenos e implantou o modelo econômico da Escola de Chicago no país, o neoliberalismo, do qual o atual ministro da Economia do Brasil, o banqueiro Paulo Guedes é signatário.

Aliás, Guedes é figura presente na ditadura de Pinochet. Para implantar o governo de submissão ao imperialismo estadunidense, além dos mortos e desaparecidos, foram dezenas de milhares as vítimas presas e torturadas e milhares obrigados a se exilar.

No texto, a seguir, de setembro de 2003, Carlos Lopes faz uma análise esclarecedora sobre a forma os Estados Unidos da América (EUA) atuaram para minar a democracia chilena e forjar seu governo de marionetes. Como hoje, no Brasil, Washington está por trás de todas as tragédias socias, econômicas, educacionais, humanitárias da América Latina.  

Em 1973, no Chile, “após o golpe, o FBI foi organizar a DINA, a sinistra polícia política de Pinochet. Foram o FBI e a CIA que organizaram a chamada “Operação Condor”, isto é, o sequestro, a tortura e a morte de patriotas e democratas latino-americanos asilados em outros países”, recordou Carlos Lopes.

O número de vítimas foram atualizados conforme a Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura, denominada Comissão Valech, em homenagem ao arcebispo que a presidiu até 2010.

Este texto é do jornal Hora do Povo, publicado neste sábado, 11 de setembro de 2021, em seu site, em que ele publica também, na íntegra, o último pronunciamento do presidente Salvador Allende, pouco antes do bombardeio do Palácio de La Moneda.

11 de setembro de 1973: CIA e Pinochet iniciam chacina de 40 mil chilenos

Carlos Lopes

Eleito presidente e ratificado pelo Congresso – o que, de acordo com a Constituição chilena, equivalia ao nosso segundo turno – Salvador Allende tomou posse no dia 3 de novembro de 1970.

No mesmo dia, Henry Kissinger, coordenador do “Conselho de Segurança Nacional” de Nixon, confeccionou um memorando com três detalhados planos de sabotagem contra o Chile e seu governo. Kissinger dirigiu seu memorando ao vice-presidente e aos secretários de Estado e da Defesa. Mas não a Nixon. E não há nele uma palavra sobre às ações da CIA, que ele, pessoalmente, como veremos, controlava. Por quê?

Memorando repugnante

O repugnante memorando de Kissinger pode ser encontrado, assim como milhares de outros documentos – 16.000 ao todo – sobre o golpe no Chile, no “National Security Archive”, site da Universidade George Washington. Quanto às omissões de Kissinger, elas são inteligíveis depois de percorrer outros documentos desclassificados da categoria de “secretos”.

Em 15 de setembro de 1970 – dois meses, portanto, antes da posse de Allende – o diretor da CIA, Richard Helms, resumiu, em algumas anotações manuscritas, uma reunião que tivera com Nixon. A íntegra (com a pontuação – ou falta dela – de Helms) é a seguinte: “1 em 10 chances talvez, mas salvar o Chile! valor do gasto não preocupar-se não envolvimento da embaixada $10.000.000 disponíveis, mais se necessário trabalhar ‘full-time´ – os melhores homens que nós temos plano de jogo fazer a economia gritar 48 horas para o plano de ação”.

“Visão da agência”

Segundo um memorando (“assunto: gênese da operação FUBELT”) de uma reunião da cúpula da CIA no dia seguinte, “…O Diretor disse que o presidente Nixon tinha decidido que um regime de Allende no Chile não era aceitável para os EUA. O presidente pede à Agência que impeça Allende de chegar ao poder ou [caso chegue] para derrubá-lo. O presidente autorizou US$ 10 milhões para este propósito, se necessário”. E revela que Helms teria um encontro na sexta-feira, 18 de setembro, com Kissinger “para passar a ele a visão da Agência de como esta missão deve ser cumprida”.

Kissinger não enviou o memorando a Nixon, porque este sabia de tudo o que estava nele – e de muito mais: da ação da CIA, a quem tinha ordenado que começasse o terrorismo. Quanto a Kissinger, era ele quem mandava diretamente nas atividades da CIA no Chile, tal como mostra um “memorando de conversação” de 15 de outubro de 1970, de uma reunião entre Kissinger, o general Haig (Chefe da Junta de Estado Maior) e Thomas Karamessiness, chefe de divisão da CIA escolhido para “coordenar o projeto”. Eles discutem sobre o fracasso de uma operação encoberta denominada “Track II”, para impedir Allende de assumir. Comentam a falta de apoio, dentro do exército chileno, a um de seus fantoches, general Roberto Viaux.

Todo o início do memorando está tarjado em preto – os documentos sobre o Chile foram, quase todos os já liberados, tarjados de preto nos pontos mais reveladores dos crimes.

Ações clandestinas

E não é à toa: Viaux, outros traidores, a CIA e Kissinger achavam – em boa parte, com razão – que não encontravam apoio no exército para um golpe por causa da influência patriótica e democrática de seu comandante, general René Schneider. Assim, Kissinger e a CIA decidiram assassiná-lo.

Em 16 de outubro, o mesmo Thomas Karamessiness que reuniu-se com Kissinger transmite suas (de Kissinger) ordens ao chefe da CIA no Chile: “Está firme e continua a política de derrubar Allende por um golpe [Allende não tinha tomado posse]. Seria muito preferível ter isto feito antes de 24 de outubro [dia em que o Congresso decidiria entre Allende e o segundo colocado na eleição popular] mas os esforços com relação a isso continuarão vigorosamente além dessa data. É imperativo que essas ações sejam implementadas clandestinamente e com a segurança de que a mão americana seja bem escondida”. O telegrama conclui com a recomendação de “novas atividades que incluam propaganda, operações negras, colocar na berlinda [operações de] inteligência ou desinformação, contatos pessoais, ou qualquer outra coisa que sua imaginação possa fazer surgir e que permita a você tocar para a frente nosso [palavra tarjada] objetivo de maneira segura”.

Dois dias depois – 18 de outubro – três telegramas entre o posto da CIA no Chile e a sede referem-se a um contato com um grupo e ao fornecimento de “oito a dez granadas de gás e três pistolas 45 ‘estéreis’ (sem número de série), com 500 balas cada uma” para sequestrar o comandante do exército, general René Schneider. A resposta, do mesmo dia, comunica o horário de chegada das amas em Santiago no dia seguinte.

Três dias depois – e dois dias antes da votação do Congresso que confirmaria a eleição de Allende –, a 22 de outubro, o general René Schneider foi assassinado pelo grupo de Viaux. Mas a avaliação da CIA estava errada: o general que o sucedeu, Carlos Pratts, mostrou-se um firme continuador de Schneider. Foi preciso três anos para derrubá-lo e substituí-lo por Pinochet. Após o assassinato de Allende e o golpe, Pratts foi morto na Argentina. O crime, como testemunhou o ex-agente Michael Townley, foi tramado pela CIA.

Sabotagem econômica 

Quinze dias após a posse de Allende e de Kissinger ter enviado o seu memorando sobre a sabotagem ao Chile, a CIA confeccionou um relatório, dando conta das operações encobertas até então, e constituindo uma força-tarefa para atuar dentro do Chile, estabelecendo articulação com o adido militar americano no país. A sabotagem econômica e o terrorismo foram desencadeados em larga escala, antes e, sobretudo, depois do golpe, com o assassinato de 40 mil pessoas.

Após o golpe, o FBI foi organizar a DINA, a sinistra polícia política de Pinochet. Foram o FBI e a CIA que organizaram a chamada “Operação Condor”, isto é, o sequestro, tortura e morte de patriotas e democratas latino-americanos asilados em outros países. Tudo isso pode ser encontrado, ou ser deduzido, nos documentos”.

Por exemplo, um documento encontrado nos arquivos da DIA (Defense Intelligence Agency) – a agência de terrorismo conjunta das forças armadas dos EUA – é uma biografia detalhada (e com vários trechos tarjados de preto) de Pinochet. A data do papel é agosto de 1973 – um mês antes do golpe.

“Não vou renunciar. Pagarei com a vida minha lealdade ao povo”, disse o presidente Allende no último discurso

“Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor-geral dos carabineiros (Tropa de Choque).

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A história os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o tom tranquilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição”.

Do jornal Hora do Povo e edição, na abertura, do JBP